Sem verba para restauração, prédio que já foi cadeia e hoje abriga a Prefeitura de Dores do Indaiá tem problemas como infiltrações e rachaduras. Moradores pedem providências.

Refém das infiltrações, prisioneiro de gambiarras e condenado à degradação se obras de restauro não forem executadas com urgência. Assim está o prédio da Prefeitura de Dores do Indaiá, na Região Centro-Oeste de Minas, erguido em 1928 para ser o fórum da comarca, mas, ao contrário da ideia inicial, se transformou numa das primeiras cadeias públicas regionais de Minas no período republicano. Mantendo a estrutura e imponência originais, com quatro colunas sobressaindo na fachada em estilo neoclássico, a construção de dois andares está à espera de projeto de preservação e dos recursos, estimados em cerca de R$ 1,5 milhão. “Não podemos perder essa joia arquitetônica, pois outras já se foram. É fundamental restaurar a edificação e dar-lhe um destino cultural”, diz a professora aposentada, cronista e autora de livros Maria das Dores Caetano Guimarães, conhecida como dona Branca.
Localizado no Bairro Rosário, na entrada da cidade de 14,5 mi habitantes, o prédio causa impacto visual, com seu porte grandioso e palmeiras na frente. Mas basta olhar com atenção para ver os problemas graves que ele apresenta. Do lado de fora, a pintura no tom rosa está bem estragada, com destaque para as colunas danificadas e, no forro, aparecem as ferragens no concreto. Dentro, há problemas de cima a baixo. O mofo, causado pelas goteiras, deixou preto e descascado o teto de vários cômodos, enquanto as instalações elétrica e hidráulica carecem de troca imediata. Num dos banheiros, os fios estão soltos, numa cena que, de imediato, causa espanto e sinaliza perigo.
“A prefeitura tem interesse em recuperar o prédio, mas não tem verba”, lamenta o chefe do Departamento Municipal de Cultura, Evamir Araújo de Sousa. Ele adianta que, até o fim do mês, será aberta a licitação para contratar a empresa que fará o projeto de restauro. “Depois, vamos correr atrás do patrocínio, via lei de incentivo”, afirma. Ele faz questão de mostrar cada detalhe, como as portas com grades e chapas de aço; janelas que já tiveram as barras serradas; o pátio onde os presos ficavam, depois transformado em jardim e atualmente cimentado; e o piso original de ladrilho hidráulico decorado, além de algumas adaptações para receber os servidores. “A construção não foi feita para ser sede da municipalidade. Então, as nossas salas de trabalho ficam nas 15 antigas celas. Aqui ficaram presos muitos perigosos e de fama nacional, entre eles Ramiro, o Bandido da Cartucheira, que espalhou o terror na década de 1970 no estado. Era a prisão de segurança máxima da época. Quando chove, os funcionários são obrigados usar o guarda-chuva ao transitar na varanda que dá para o pátio, pois não há marquise protetora”, conta Evamir, ressaltando que fala sem exagero.
Caminhando pelas dependências é que se vão vendo as mazelas e a beleza escondida. Logo na entrada, há uma escada de mármore com corrimãos dourados, fabricados na Inglaterra na década de 1920, e dá pena ver que já existe vegetação brotando em buracos na pedra encardida. No alto da escadaria estão um vitral verde e branco e um lustre original, embora com lâmpadas fluorescentes. A espessura das paredes é de chamar a atenção e a funcionária do setor de convênios e prestação de contas Valdira da Silva Lopes, trabalhando há 23 anos no prédio, enaltece a importância da construção: “O valor cultural é alto e a estrutura, sólida. Temos que conservá-lo”.
Corró – No primeiro andar, num canto perto do pátio, Evamir mostra um cubículo, tipo solitária, que funciona hoje como depósito de material elétrico. Ali era o corró, um tipo de cela na qual a pessoa ficava temporariamente detida, por prisão em flagrante ou cumprimento de determinação judicial, até sua remoção definitiva à unidade prisional. O apelido corró vem de “presos correcionais”, gente detida na rua para averiguação, embora o nome popular tenha se confundido com cela-castigo. Com a Constituição Federal de 1988, tal sala, mal iluminada e sem janelas, deixou de existir, mas o termo persistiu.
Durante os 55 anos em que funcionou como cadeia pública, segundo Evamir, o prédio não teve sirene, apenas um sino para avisar aos moradores quando ocorresse fuga de presos. Mas, entre 2007 e 2012, na direção do Colégio São Luiz, Evamir achou melhor levar a peça para a escola, pois teria melhor serventia para avisar alunos e professores sobre horário do recreio, término das aulas etc. O prefeito, Ronaldo Costa, informa que está muito empenhado nas questões culturais e na preservação dos bens públicos, dando “apoio irrestrito a todas as ações nesse sentido”.
Memória – De arraial a cidade
O nome Dores do Indaiá está relacionado à devoção a Nossa Senhora das Dores, cuja imagem veio de Portugal, no século 17, com dona Leonor Luíza, mulher do coronel José Luiz Sayão, dono de uma sesmaria, segundo dona Branca. Já Indaiá tem duas versões: refere-se ao Rio Indaiá, afluente do lado direito do Rio São Francisco, e também à palmeira andáia ou indaiá. A história do município, que já pertenceu a Pitangui, começou no século 17, quando o primitivo arraial, Boa Vista da Serra, foi fundado pelo sesmeiro Domingos de Brito, que tentava chegar às minas de ouro de Goiás, mas foi impedido pelos índios que habitavam a região. Mais tarde, os irmãos da família Costa Guimarães, tendo à frente o capitão Amaro, obtiveram quatro sesmarias e deram início ao povoamento, construindo a primeira capela do arraial dedicada a São Sebastião, embora a paróquia fosse de Nossa Senhora das Dores. Em 1850, o arraial foi elevado a vila e, no ano seguinte, o território foi novamente incorporado a Pitangui. Em 8 de outubro de 1885, pela Lei 3.333, Dores do Indaiá foi elevada à categoria de cidade.
Professora acredita que artesanato será salvação de prédio

Para a professora dona Branca, o prédio deve se tornar um novo tipo de equipamento, como casa de cultura.
Na sala de sua casa, dona Branca, de 75 anos, escreve livros, consulta papéis que guardou ao longo da vida, confere fotos e visita o passado de vez em quando. “Adoro história, ações ligadas à conservação do patrimônio cultural, enfim, preservação da memória”, diz a senhora simpática, formada em 1955 como professora primária no Instituto de Educação de Belo Horizonte. Ela abre uma gaveta e retira, com cuidado, o diploma guardado com o maior carinho.
Empenhada na luta pela preservação do imóvel, edificado quando Antônio Carlos de Andrada (1870-1946) era presidente de Minas (de 1926 a 1930) e Francisco Campos (1891-1968), nascido em Dores do Indaiá, secretário de Interior, dona Branca acredita que a arte será a salvação do prédio. “Trabalhei lá entre 2001 e 2007 e sentia um certo estranhamento. Quando menina, passava em frente à cadeia e ouvia os presos gritando pedindo cigarros. Ficou essa lembrança. Acho que o prédio poderia abrigar um centro de artesanato, se tornar um novo tipo de equipamento, como havia a Casa de Cultura José Ribeiro Machado, um escritor e intelectual de renome”, sugere. A professora não poupa palavras de elogio: “A arquitetura encanta e se impõe. A fachada romana, com imponente escadaria, remete ao equilíbrio e à beleza das edificações artísticas das grandes praças da Roma antiga, os ex-foros, ostentando colunas e nobres capitéis”.
Cobertura – O movimento para sensibilizar a comunidade e o poder público foi deflagrado há quatro anos, pelo arquiteto José Ozório Caetano, de família dorense e preocupado com a preservação do patrimônio da cidade. “Eu e um engenheiro fizemos uma vistoria geral na edificação, uma das poucas em estilo genuinamente neoclássico de Minas, e constatamos que a cobertura, por estar com sua estrutura de madeira bastante comprometida, precisa ser substituída. Por serem muito antigas e comprometer o madeiramento, as telhas também deverão ser trocadas. Só essa parte demanda recursos financeiros enormes”, afirma o arquiteto, certo de que é preciso o envolvimento de toda a comunidade na luta pela conservação. José Ozório destaca que, há cinco anos, fez campanha, bem-sucedida, para que o governo restaurasse a Escola Normal Francisco Campos, antiga Escola Normal Oficial, construída pelo filho ilustre da cidade, que foi também ministro da Justiça no governo Getúlio Vargas. Por Gustavo Werneck
Cinco Tempos da História
1928 – Empresa Lapertosa Impelizieri, tendo como encarregado de obras o italiano Felício Damiani, constrói o prédio inicialmente destinado ao funcionamento do fórum da comarca. No entanto, a construção se torna cadeia pública regional
1983 – Cadeia pública de Dores do Indaiá é desativada por empenho do então prefeito Geraldo Marques. Outra unidade, de menor porte, é construída
1984 – Em 4 de março, Marques recebe do estado as chaves da cadeia. No mesmo ano, começa a funcionar no local a Casa de Cultura José Ribeiro Machado
1988 – Prefeitura passa a ocupar o prédio da antiga cadeia regional
2009 – Em 31 de julho, pelo Decreto nº 22, o prédio é tombado pelo município
Fonte: Estado de Minas