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Sergipe – Patrimônio arquitetônico

Com ares de estilo português, o Patrimônio Histórico dos sergipanos remonta os traços do seu passado, ao mesmo tempo em que sua população constrói o dia a dia e costura o desenvolvimento econômico e social de locais que abrigam monumentos, prédios e casas de séculos atrás. Uma vitrine das tradições arquitetônicas de um País onde a degradação ainda é um problema, apesar do empenho dos órgãos públicos.

Há três ou quatro séculos, percorriam os caminhos de ruas em Sergipe personagens da vida real com sonhos e anseios característicos de uma sociedade colonial e escravocrata em busca de liberdade: de conquistas e de atitudes. Hoje, preservados aspectos físicos, o Patrimônio Histórico do lugar mantém traços da cultura construída e guardada que ajuda a contar a história do local.

Os prédios e monumentos pertencentes a herança histórica de Sergipe são vitrines originais de tradições arquitetônicas do estado. As cores, os traços e os estilos conservados em alguns dos equipamentos tombados levam o visitante ao período em que os sergipanos tinham a cana-de-açúcar como o principal impulsionador da sua economia.

Para manter esse palco de tradições, Sergipe possui, atualmente, 26 bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), sendo dois sítios urbanos e 24 bens individuais em nove municípios. Tais sítios estão na cidade de São Cristóvão, tombados em 1967, e no município de Laranjeiras, tombados em 1995. Ambos detêm inúmeros bens com tombamento individual.

De acordo com dados do Iphan de Sergipe, os bens tombados pelo governo federal por meio do instituto estão nas cidades Divina Pastora, Estância, Itaporanga d’Ajuda, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, Riachuelo, Santo Amaro das Brotas, São Cristóvão e Tomar do Geru.

Existem ainda bens protegidos por lei e tombados pelo governo do estado e que, segundo dados da Secretaria de Cultura de Sergipe, estão nos municípios de Aracaju, Carmópolis, Cristianópolis, Estância, Itabaianinha, Lagarto, Laranjeiras, Maruim, Neópolis, Poço Redondo, Porto da Folha, Propriá, Rosário do Catete, Santa Luzia do Itanhy, São Cristóvão e Simão Dias.

Parte da arquitetura de monumentos tombados em Sergipe possui estruturas barrocas incorporadas pela sociedade colonial portuguesa e conserva estilos da cultura Ibérica da época a qual Portugal e Espanha estavam unidos em um único reinado.

Na capital Aracaju, o Centro Histórico também é um convite aos tempos em que a busca por liberdade parecia ressoar em meio à sociedade de então. Os prédios e casarões do local, com arquitetura, pintura e ornamentos do século XIX, são parte da história contada sem precisar de palavras.

Compõem o Centro Histórico de Aracaju os mercados Antônio Franco e Thales Ferraz, a Praça Fausto Cardoso, o Parque Teófilo Dantas, o Palácio Olímpio Campos, o Centro de Turismo e Museu de Artesanato, a Igreja São Salvador – primeira igreja do município -, a Catedral Metropolitana, e a Ponte do Imperador, onde em 1860 o Imperador D. Pedro II desembarcou em uma visita a Sergipe ao lado da Imperatriz Dona Teresa Cristina.

Além de praças, igrejas e casarões, o Centro Histórico de Aracaju abriga uma área de comércio onde os visitantes podem experimentar comidas típicas consumidas há vários séculos no estado, além de conhecer peças de artesanato. Tudo isso ajuda a guardar nas lembranças pedaços da memória de Sergipe, conservada com os ares de antigamente, sem deixar de lado os avanços.

São Cristóvão: Patrimônio de Sergipe para o Mundo

Primeira Capital de Sergipe, o município de São Cristóvão foi fundado em janeiro de 1590, com características da Dinastia Filipina em Portugal, e é a quarta cidade mais antiga do Brasil. O local, tombado pelo Iphan em 1967, é conhecido como a cidade da seresta. A arquitetura colonial, igrejas e museus, são exemplos do patrimônio histórico, artístico e cultural que o povo vem guardando há vários séculos.

Foi com a ajuda das melodias seresteiras em palcos armados diante da arquitetura colonial datada desde o século XVI que tal cidade sergipana ganhou reconhecimento mundial e, por isso, em agosto de 2010, a sua Praça São Francisco recebeu o título de Patrimônio Mundial, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

O documento do Iphan ao qual a Praça São Francisco figura como indicada a compor a lista de patrimônios mundiais avaliados pela UNESCO destaca o local como “um registro autêntico” do período no qual estava formada a aliança das coroas portuguesa e espanhola sob o domínio dos reis Felipe II e Felipe III. Não à toa, quem chega a São Cristóvão é conduzido por estradas de pedras até igrejas e museus onde o visitante tem a oportunidade de ficar mais perto das tradições da época em que colonos descendentes da ocupação portuguesa faziam morada no lugar.

Segundo dados do Iphan, os principais monumentos, na Cidade Alta, são cerca de dez prédios em torno da Praça São Francisco. Esta também abriga a Igreja e o convento que levam seu mesmo nome. Tal convento começou a ser construído em 1693 por meio de doações da comunidade aos franciscanos. Na época em que a cidade era a capital de Sergipe, ele sediou a Assembleia Provincial. Já no período republicano São Cristóvão também alojou as tropas do batalhão que combateu os seguidores de Antônio Conselheiro, em Canudos, em 1897.

São Cristóvão abriga ainda o Museu de Arte Sacra. Situado no complexo histórico, ele possui um acervo que, de acordo com dados do Iphan, é considerado o terceiro mais importante do País, além do Museu de Sergipe, onde há peças outrora pertencentes a famílias nobres vividas na cidade.

Estão entre outros locais que ajudam a contar a história do lugar a Igreja de Santa Cruz, Lar Imaculada Conceição, Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Sobrado da Antiga Ouvidoria, Museu Histórico do Estado de Sergipe, além de espaços Públicos como a Praça da Bandeira e fachada da Capela dos Capuchinhos, a Praça Senhor dos Passos (Largo do Carmo), a Ladeira de Epaminondas (Beco da Poesia), Ladeira do Porto da Banca, Ladeira do Açougue, Beco do Amparo, e Largo do Rosário.

Cada detalhe dos monumentos e prédios da cidade de São Cristóvão revela os traços seculares guardiões das marcas da sociedade escravocrata que não deixava de lado as tradições religiosas. São cores, móveis, formas, esculturas e até sacadas mantidas nos diversos lugares da cidade, relembrando a história e parte dos detalhes de quem viveu na primeira Capital de Sergipe, hoje pertencente ao mundo.

Além dos espaços públicos, auxiliam a narração das histórias do lugar inúmeros prédios privados que ganham, por meio de programas de Governo, a oportunidade de manterem sempre acesas as características do patrimônio histórico dos sergipanos. Em várias ruas da cidade, diversas moradias também exibem os traços dos séculos passados. Orgulho para os vizinhos que dividem os espaços que enfrentam o esquecimento e o desgaste natural do tempo.

Laranjeiras: Sergipe com ares de Atenas

Composto por cerca de 500 imóveis, o Centro Histórico do município de Laranjeiras foi tombado pelo Iphan em 1995. Com traços do estilo colonial português, a cidade foi fundada em 1605 e, segundo dados do Ministério da Cultura (MinC), é a segunda aglomeração urbana mais antiga de Sergipe, depois de São Cristovão.

Povoados de locais como Retiro e Comandaroba deram origem ao lugar, segundo informações da Prefeitura local. Nas proximidades da futura cidade foi montado o primeiro engenho para plantio de cana-de-açúcar e, em seguida, o município se transformou em um centro comercial que até hoje possui marcas na região.

Os caminhos de pedras pela cidade também revelam o período da escravatura, e guardam, até hoje, as lembranças do Brasil colônia revelados em distintos traços históricos de Laranjeiras. Com isso, elementos da cultura negra ainda podem ser percebidos por quem visita a cidade e observa seu conjunto urbano e arquitetônico.

Entre os anos de 1840 e 1870, funcionava em Laranjeiras cerca de 70 engenhos de açúcar, o que deixou a cidade com estilo ligado ao de casas comerciais européias do século XIX e que chama a atenção entre as características desse patrimônio cultural tombado. Esse desenvolvimento econômico e urbano, de acordo com o MinC, levou para a cidade uma série de comerciantes, advogados, professores e outros intelectuais, dando “impulso cultural” ao município, também chamado de Atenas Sergipana.

Memória que guarda um passado marcante

“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. É isso que diz o poeta Carlos Drummond de Andrade em seu poema Memória. No texto, o autor revela com poucas palavras as sensações do que passa e fica guardado nas lembranças, tornando-se histórias marcantes.

É também essa memória que está guardada em cada monumento, praça, casa ou prédio do Patrimônio Histórico de Sergipe. No local, onde séculos atrás foram construídos costumes e tradições ainda hoje resumidos no dia a dia, apesar do tempo seguido em frente, as pessoas retornam ao passado e podem compreender pedaços do que ali aconteceu.

Sem precisar de narrativas, as serestas, os caminhos, as comidas seculares e as paisagens – laços dos antigos traços sergipanos com o presente –, conservam na memória de quem passa por Sergipe as “coisas findas” das quais fala o poeta, mas que permanecem na lembrança pela beleza histórica que representam.

Para a superintendente do Iphan de Sergipe, Terezinha Alves de Oliva, guardar esse passado é uma forma de fazer o Brasil valorizar a sua diversidade. “Há uma compreensão cada vez mais ampla no sentido de que o patrimônio cultural preservado respeite o direito à memória e à diversidade das identidades que formam nossa herança cultural”, justifica.

O historiador sergipano Luiz Antônio Barreto – presidente do Instituto Tobias Barreto e ex-secretário de Cultura do Estado – diz que a sociedade, assim como os governantes, precisam proteger o “bem vinculado à história, ao fazer cultural e à arte”, na busca pela preservação da memória dos lugares históricos.

Políticas de Preservação ainda engatinham

Em alguns locais de Sergipe, onde abrigam-se monumentos e equipamentos históricos, é possível perceber que a degradação ainda é um problema, assim como em outros locais do P aís. Parte do Patrimônio Histórico de lá nem sempre recebe o devido cuidado do Estado e da população. São lugares com fachadas desgastadas, pinturas velhas e monumentos sem a restauração necessária.

Para processos de restauração – que não possuem periodicidade -, existem diferentes parcerias envolvendo o governo federal, por meio do Iphan de Sergipe, investimentos do Estado e, em alguns momentos, do Município. Para tudo isso, todavia, é preciso um amplo planejamento, pois as obras precisam passar por licitações e assinaturas de contratos. Atualmente, estão em andamento obras de restauração de elementos artísticos na Igreja Nossa Senhora do Socorro, matriz do município com o mesmo nome.

Apesar do empenho dos órgãos públicos, o historiador Luiz Antônio Barreto afirma serem insuficientes as políticas de preservação e leis estaduais voltadas para a conservação do Patrimônio Histórico. “Quando o poder público tomba o bem, ele tomba. Quando não tomba, o bem fica engessado porque não há política de restauração. O poder público não financia e os proprietários não podem mexer”, diz.

Para auxiliar no trabalho de preservação dos locais históricos, o Iphan também realiza parcerias com o Estado e municípios para a elaboração de campanhas educativas por meio de palestras, oficinas e exposições. “É imprescindível educar a população para que o cuidado com os lugares históricos seja algo coletivo e constante. A educação patrimonial é condição para sensibilizar e mobilizar a comunidade”, esclarece a Superintendente Terezinha Alves de Oliva.

Luiz Antônio afirma que parte da população convive com o Patrimônio Histórico e não possui o mesmo encantamento que as pessoas de fora. “O turista quer ver aquilo que não conhece. Mas nós, que vivemos mais perto, ainda que não tenhamos condições de avaliar o patrimônio, nos acostumamos com o dia a dia de uma igreja abandonada, por exemplo”, disse.

Para ajudar nos processos de conservação e recuperação do Patrimônio Histórico do País em cidades históricas protegidas pelo Iphan, o Ministério da Cultura criou o projeto Monumenta. A proposta já beneficiou mais de 20 cidades do País e insere nas iniciativas de preservação da cultura e tradições do Brasil a preocupação com o desenvolvimento econômico e social das regiões.

Em Sergipe, o Programa já desenvolveu iniciativas de preservação nas cidades de São Cristóvão e Laranjeiras, com investimentos acima de R$ 8 milhões. Em Laranjeiras, o programa instalou um campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Em São Cristóvão, o Monumenta realizou obras em monumentos como o Convento e Igreja de Santa Cruz, Lar Imaculada Conceição, Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Sobrado da Antiga Ouvidoria, Museu Histórico do Estado de Sergipe, além de diversos outros espaços públicos.

O “seja bem-vindo” a Sergipe dos roteiros turísticos

Com o objetivo de apresentar o passado de cidades sergipanas para pessoas de dentro e fora País, contribuindo para o desenvolvimento econômico do lugar, a Empresa Sergipana de Turismo (Emsetur) inclui em seus roteiros turísticos os lugares históricos do Estado para serem apreciados por visitantes.

A Emsetur aguarda receber neste verão cerca de 120 mil turistas no Estado, 15% a mais que o mesmo período do ano passado. Nos roteiros históricos a empresa dá “ênfase” às cidades de São Cristóvão e Laranjeiras, principais sítios históricos do local.
De acordo com o diretor presidente da Emsetur, José Roberto Andrade, não existe turismo sem a identidade do local visitado, assim como a sua história e cultura, e por isso, é importante incluir os lugares pertencentes ao Patrimônio Histórico de Sergipe nesses roteiros. “Não dá para construir o turismo de forma artificial”, ressalta o dirigente.

Segundo ele, o turista que quer conhecer os lugares históricos do País geralmente pertence às classes mais abastadas, e isso contribui para o desenvolvimento econômico dos lugares visitados. “De fato gera impacto econômico e a população ganha neste sentido”, justifica.

Para o dirigente, as heranças culturais de Sergipe precisam estar atreladas aos demais roteiros turísticos de estado. “Conhecendo as tradições, valores e a cultura do lugar, torna-se mais atrativo para quem chega de fora compreender o que se passa nas cidades sergipanas, deixando nesses visitantes a vontade de retornar aos pontos percorridos”, conclui.

Plano de Ação para Cidades Históricas em andamento

No ano de 2010, 0 montante de recursos aplicados em obras diretamente feitas pelo Iphan foi de R$ 850.000. A superintende Terezinha Alves de Oliva, revelou, durante entrevista, que a maior expectativa para o ano de 2011 gira em torno do Plano de Ação para Cidades Históricas (PAC-CH), um planejamento para gestão do patrimônio histórico envolvendo as cidades de Aracaju, de São Cristóvão e Laranjeiras, com obras a serem iniciadas este ano sem valores ainda estabelecidos de gastos.

De acordo com a dirigente, o Iphan tem como missão promover e coordenar o processo de preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro, o que, segundo Terezinha, funciona como “fortalecimento” de identidades, garantindo assim o direito à memória sem deixar de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico do País. “Vários são os instrumentos utilizados para proteger e valorizar o patrimônio cultural brasileiro, tais como os inventários, os cadastros, os registros e os tombamentos”, explica.

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