‘Papel da arte é fazer pensar’, diz pesquisadora após exposição sobre diversidade ser cancelada em Porto Alegre (RS)

Ataques nas redes sociais e no próprio museu motivaram o cancelamento. Para MBL, que coordenou as críticas, não é um caso de censura. Especialistas em arte e gênero discordam da decisão.

Exposição Queermuseu contava com 90 obras, de 270 artistas nacionais, abriu em 15 de agosto e iria até 8 de outubro. Foto: Marcelo Liotti Junio/Divulgação

O cancelamento de uma exposição de diversidade sexual em Porto Alegre, no último domingo (10), levantou a discussão sobre o papel da arte na sociedade. Para um grupo de pessoas, a mostra, que ganhou o nome de Queermuseu, foi considerada ofensiva porque, segundo eles, promoveria a pedofilia, zoofilia, além de um ataque contra a religião e os bons costumes. A reação foi coordenada pelo grupo Movimento Brasil Livre (MBL).

A exposição, sediada no Santander Cultural, no Centro de Porto Alegre entrou em cartaz no dia 15 de agosto e ficaria até o dia 8 de outubro.

Para Ana Albani de Carvalho, professora do Instituto de Artes da UFRGS e pesquisadora das relações entre arte e política, na arte moderna e contemporânea, não são raros os casos em que os artistas demonstram uma perspectiva crítica com certos temas que, muitas vezes, atingem o limite do intolerável para alguns públicos. Mas isso não significa que tais obras devam ser censuradas.

“É difícil para muitas pessoas fazerem uma apreciação de uma obra que apresenta algo polêmico, e que [na visão dos críticos] estaria fazendo uma apologia, quando na verdade essa obra tem sentido de crítica, de ironia”, avalia a pesquisadora.

Essa é a missão das obras artísticas, na visão de Ana. “Propor ao espectador que faça uma reflexão sobre o tema”. Por isso, um quadro com imagens de crianças, ou uma instalação com deboches à determinada religião, por exemplo, não devem ser levados ao pé da letra, nem interpretados como apologia. “Se a arte tivesse tanto poder de convencer alguém a praticar algo, considerando todas as obras que mostram coisas belas, nós viveríamos no paraíso”, analisa.

“A obra vai incentivar mais do que o próprio dia a dia da cidade? Do que os noticiários?”, comenta a especialista.

Ana, que também atua como curadora de arte nas instituições da cidade, foi na abertura da Queermuseu, em agosto, e lamenta a decisão de fechar a exposição. “O ideal seria trazer esses grupos [que criticaram as obras] para uma discussão aberta, junto com todos”.

O problema é que neste episódio específico, como comenta Ana, aqueles que levantaram acusações sobre a exposição não demonstram estarem abertos à troca de ideias. “Se uma pessoa chega com abertura, você estabelece um diálogo. Mas, se ela vem com a ideia pronta, fechada, agressiva, ou se reage com sarcasmo, tentando manipular ou afrontar as tuas palavras, isso fica difícil”, analisa.

Já a professora e pesquisadora de educação e relações de gênero da UFRGS Jane Felipe classificou como “lamentável” a reação de algumas pessoas.

“[Elas] visivelmente não compreendem que o principal papel da arte hoje é fazer pensar. Muitos ainda têm uma visão romântica da arte como sinônimo de beleza e perfeição, por isso talvez se choquem com algumas obras e não consigam entendê-las na sua dimensão de trazer algumas reflexões sobre determinados temas”, entende a pesquisadora.

“A arte está aí para fazer pensar e desestabilizar certezas. Não pode haver esse tipo de policiamento de uma arte mais certinha e mais palatável.”

Para Jane, o problema não está na arte nem nos artistas. “O problema está no desconhecimento e desinformação das pessoas, na falta de capacidade de abstrair e refletir sobre o mundo a partir de diversos pontos de vista. É preciso admirar, isto é, olhar com atenção, ficar em silêncio e refletir sobre o que a arte tem a nos oferecer”, salienta a professora.

Já a mestre em gênero, mídia e cultura Joanna Burigo entende que a situação está relacionada com atuação de grupos conservadores, que pretendem manter a ordem e a tradição, que, para ela, limita as possibilidades de expressão.

“É uma ordem social na qual sexo, sexualidade e identidade de gênero precisam ser constituídos de acordo com certas balizas: nominalmente, a heterossexualidade compulsória e a hierarquia de gênero”, descreve. “Expressar-se livremente contra mecanismos de controle não é um acinte – esta é a própria livre expressão”, observa ela.

Joanna diz não estar surpresa com o pedido de suspensão da exposição. “Até aí, nenhuma novidade. São eles os agentes da manutenção de uma ordem e uma tradição que excluem. O que assusta é o Santander ter acatado.” Ela, que é fundadora da Casa da Mãe Joanna, enxerga outra perspectiva para o caso: o de incentivar ainda mais a produção de arte “independentemente de censuras”.

‘Foi um nível de agressividade que eu nunca tinha visto’, diz curador

Em entrevista ao G1, o curador da exposição, Gaudêncio Fidelis, afirmou que foi xingado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), que estão envolvidos nos ataques, dentro do Santander Cultural. Além dele, frequentadores da mostra também foram abordados, o que Gaudêncio classifica como “ataques sistemáticos”, que iniciaram a partir de quarta-feira (6) e prosseguiram durante o fim de semana.

“Eles ingressaram na exposição atacando público com câmera em punho, perguntando se gostavam de pornografia, de pedofilia. Foi um nível de agressividade que eu nunca tinha visto. ” Segundo Gaudêncio, os seguranças intervieram e retiraram os integrantes do MBL do local, devido aos cuidados necessários com as obra.

O curador lembra que fotografias e vídeos no local são proibidos. “Não se pode ingressar em exposição e infringir direitos de imagem, não pode editar, tirar de todo o contexto, infringir todos os direitos, atribuir frases que não falaram.”

Página do Santander Cultural foi tomada por críticos à exposição Queermuseu, que foi cancelada neste domingo (10). Foto: Reprodução/Facebook/Santander Cultural

“Não é só incômodo, mas as manifestações nas redes sociais são, na maioria, de pessoas que não viram exposição”, entende o curador.

Questionado sobre a acusação de incitar pedofilia e zoofilia, Gaudêncio considera que as peças foram descontextualizadas e que o MBL criou uma falsa narrativa.

“Isso foi feito com base em narrativa falsa, imagens e vídeos editados. O MBL resolveu transformar a exposição como plataforma de visibilidade.”

Gaudêncio conta que soube do cancelamento da exposição por um amigo, via mensagem de whatsapp, ainda no domingo. “Foi um choque”, declara. “Estamos diante de uma situação complicada, grave e trágica para a comunidade artística brasileira. Um grupo (MBL) decidiu o que podemos e o que não podemos ver.”

Para coordenador do MBL, censura não é ‘questão central’

Em entrevista à rádio Gaúcha, um dos coordenadores do MBL, Kim Kataguiri, admitiu que o movimento organizou um boicote à exposição e ao próprio banco. Entre as ações estava a realização de campanhas pelas redes sociais. Por outro lado, ele negou os “ataques sistemáticos”, referidos pelo curador da exposição, por integrantes do MBL.

“Pedimos o boicote à exposição. Estava sendo obrigado a pagar, isso não foi só do MBL, mas de clientes do Santander, a empresa sofreu boicote. Hoje o verdadeiro rei é o consumidor, se o Santander tivesse que sobreviver com clientes que toleram zoofilia, pedofilia, mas eles não sobrevivem”, disse Kataguiri.

Questionado se a ação do MBL não foi uma prática de censura, Kim desconversou. “A questão central não é essa. Estou sendo obrigado a pagar [para entrar na exposição], muitos jornalistas disseram que o MBL não estava sendo liberal. Mas não existe maior expressão de livre mercado que o boicote.” Segundo a assessoria de imprensa do Santander Cultural, a entrada para a exposição era franca.

Outro que criticou a exposição é um dos fundadores do MBL e secretário de Serviços Públicos, Ramiro Rosário. “Intitulada Queermuseu, suas obras exaltam a sexualização de crianças, promovem abusos de animais e profanam imagens sagradas ao Cristianismo”, disse em seu site.

Na página, afirma que um grupo está organizando um processo criminal contra os responsáveis. O G1 procurou a assessoria de imprensa do secretário, que negou entrevista. “O secretário Ramiro Rosário não dará entrevista. As posições que ele defende foram publicadas em suas redes sociais no final de semana”, disse a assessoria.

Arquidiciocese manifesta ‘estranheza’ com a exposição

Após o episódio, a Arquidiocese de Porto Alegre emitiu uma nota, em que manifestou o que chamou de “estranheza” diante da exposição. Para a igreja, a exposição “utiliza de forma desrespeitosa símbolos, elementos e imagens, caricaturando a fé católica e a concepção de moral”. Ainda, o texto cita que “é urgente combater o preconceito e a discriminação em todas as suas manifestações”.

Contraponto

Em comunicado no Facebook, a instituição afirmou que “o objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”.

Leia a íntegra da nota publicada no Facebook do Santander Cultural

Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra.

O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia. Nosso papel, como um espaço cultural, é dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros para gerar reflexão. Sempre fazemos isso sem interferir no conteúdo para preservar a independência dos autores, e essa tem sido a maneira mais eficaz de levar ao público um trabalho inovador e de qualidade.

Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.

O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra neste domingo, 10/09. Garantimos, no entanto, que seguimos comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos.

Por Janaína Azevedo e Hygino Vasconcellos

Fonte original da notícia: G1 RS




Florianópolis (SC) – Arte da renda de bilro e tramoias são ensinadas para crianças da Lagoa da Conceição

Fotos: Marco Favero / Agencia RBS

Yasmin e Ana Clara eram só atenção. Miravam, compenetradas, as mãos de rendeiras como Norma, cujos dedos laçavam e entrelaçavam a renda de bilro e tramoias, heranças da colonização açoriana e patrimônio cultural de Florianópolis. Ali, separadas por meio século de vida, a rendeira e as aprendizes davam continuidade à cultura mané, exemplo de uma Ilha que não existe mais, mas que busca através de gerações manter viva nos pequenos a riqueza e tradição do mais puro artesanato ilhéu. Assim foi a estreia do projeto Mãos que Ensinam Mãos, ocorrido no sábado, na Escola Básica Municipal Henrique Veras, na Lagoa da Conceição.

Além disso, a iniciativa visa dar oportunidade para que rendeiras e rendeiros, geralmente adultos e idosos, estejam mais próximos dos pequenos, fortalecendo o sentimento de utilidade e valorizando a contribuição desses artistas para a sociedade. Uma pesquisa feita pela orientadora educacional Diléia Pereira Bez Fontana observou que as rendeiras de Florianópolis não têm menos de 70 anos. A atividade, que para os antigos passava de geração em geração, hoje sobrevive nas mãos de gente como Norma Nunes D¿Ávila, 64 anos, que mora na Joaquina.

— Se as rendeiras não passarem os conhecimentos para as novas gerações, daqui a 20 anos não vamos mais ter rendeiras em Florianópolis. Então foi onde eu, trabalhando com crianças e idosos, percebi que precisava fazer algo para perpetuar a cultura açoriana — destaca Diléia, entusiasmada com a primeiro evento de um calendário que já prevê outras edições do Mãos que Ensinam Mãos que, daqui a três meses, estará em comunidades historicamente ligadas à renda de bilro, como Armação, no sul da Ilha, e Santo Antônio de Lisboa.

Vontade de criança

E parece que a ideia de Diléia deu certo. Pelo menos foi o que mostrou Yasmin Borchartt da Silva Vianna, 10, que há tempos dizia para a mãe que desejava aprender a arte da renda de bilro. Começou a gostar ao ver a matriarca fazer tricô, mas a pequena queria era a renda. No sábado realizou o desejo.

Além da renda de bilro, também pôde conhecer fuxico e bordados, outras duas oficinas de cultura popular. Aluna da escola Henrique Veras, Yasmin pode seguir aprendendo a renda todas as sextas-feiras, no contraturno escolar.

— Ela já até me falou que quer fazer a renda no contraturno. Amou – resumiu a mãe de Yasmin, Patrícia Borchartt da Silva.

Vizinhas na Joaquina e companheiras na renda

Quem também vai seguir aprendendo o ofício tão em desuso é Ana Clara Lima da Silva, 10. A garota conseguiu como professora de renda de bilro sua vizinha na Joaquina, a rendeira Norma. Atenta, mal desviou o olhar da atividade para falar com a reportagem, queria captar todos os detalhes do que as mãos da sexagenária faziam. A rendeira, que trabalha com a tradição desde os oito anos, se diz feliz de poder ensinar aos pequenos um pouco do que os anos lhe ensinaram.

— As crianças não vão trabalhar com a renda, como a gente, mas também não vão deixar a tradição acabar. Por isso que é muito bom ensiná-las – disse Norma, prontamente acompanhada pela vizinha Ana Clara.

– Estou gostando muito – definiu a pequena.

Por Leonardo Thomé

Fonte original da notícia: Diário Catarinense




Duas casas que pertenceram ao poeta Thiago de Mello estão abandonadas, em Barreirinha (AM)

Projeto dos imóveis foi assinado pelo renomado arquiteto Lúcio Costa, autor do plano piloto de Brasília.

Duas casas que pertenceram a Thiago de Mello estão abandonadas. Na Foto, Porantim do Bom Socorro. Fotos: Arquivo pessoal

Duas casas que pertenceram ao poeta Thiago de Mello e tem projeto assinado pelo renomado arquiteto Lúcio Costa, autor do plano piloto de Brasília, sofrem com o abandono e a falta de manutenção, na cidade de Barreirinha (a 331 quilômetros de Manaus). Os imóveis conhecidos como Porantim do Bom Socorro e Casa do Ramos foram vendidos para o Governo do Amazonas em 1992 e 2005, respectivamente, e depois repassados para a prefeitura do município para servir de espaço cultural.

Contudo até hoje as residências não passaram por restauração nem reparos, como mostram as fotos feitas pelo cantor e compositor Thiago de Mello, filho do poeta. Nas imagens, ambas aparecem em condições precárias. “É muito triste vê um lugar que teve tanta vida, recebeu tanta gente do povo (artista, poeta) não servindo para nada de produtivo. Essas casas têm como se transformarem em coisas com mais potencial e importância do que abandonadas como estão”, disse Thiago.

O artista, que mora no Rio de Janeiro, esteve em Barreirinha na última semana, e postou as fotos das “casas de Thiago de Mello” numa rede social na expectativa de sensibilizar os órgãos competentes. Ele tem esperanças de um dia ver as residências, onde o pai morou e ele mesmo passou boa parte de sua vida, restauradas e preservadas. “Sobretudo, porque são projetos do Lúcio Costa, que tem um valor arquitetônico imensurável, e de ter sido residência do meu pai por vários anos”, destaca.

Reaviver

Casa do Ramos.

O poeta também morou numa residência, projetada por Lúcio, na Freguesia do Andirá, Zona Rural de Barreirinha. Esta, conhecida como a Casa de Poesia Thiago de Mello, também precisa de manutenção para permanecer de pé. Mas, ao contrário das outras duas localizadas na cidade, há um projeto de revitalização sendo discutido para o imóvel que ainda pertence à família de Mello. Thiago Thiago disse que em breve deve retornar aquele lugar para iniciar a obra e deixar o espaço firme.

A ideia é tornar a Casa de Poesia Thiago de Mello em um pouso para amantes da poesia, da arquitetura, da arte e da Amazônia. “Para que possa manter a memória do meu pai e de todos os artistas viva. Vou atrás de recurso financeiro para fazer essa revitalização e espero que este movimento possa também transformar a situação das casas de Barreirinha porque se nada for feito vão acabar, assim como outras casas antigas de pessoas importantes no campo da arte que desapareceram”.

Planejamento

Casa de Poesia Thiago de Mello.

Em nota, a Prefeitura de Barrerinha informou que  aguarda o laudo de planejamento da Casa para a Secretaria de Obras  iniciar a restauração.”Eu preciso que o governo do Estado me estenda a mão uma vez que hoje, Barreirinha não dispõe de recursos, destacou o prefeito Glenio Seixas.

Imóvel já foi ‘ameaçado’ 

Em 2013, a Casa do Ramos foi ameaçada de demolição pela Prefeitura de Barreirinha por conta das obras de revitalização da orla da cidade. O fato causou polêmica e no mesmo ano foi anunciado à restauração e preservação do imóvel, mas isso nunca aconteceu.

Por Silane Souza

Fonte original da notícia: A Critica




Dourados (MS) – Abandono não tirou o brilho da casa que hoje é recanto de arte e cultura

Quem entra pelo portão pequeno da Casa Colaborativa Casa dos Ventos, em Dourados, já sabe que o lugar é diferente. Foto: Helio de Freitas

As pinturas transmitem alegria e o barulho das árvores que permeia a residência traz de volta a calmaria. Quem entra pelo portão pequeno da Casa Colaborativa Casa dos Ventos, em Dourados, já sabe que o lugar é diferente. Pensado por quatro mulheres dispostas a criar e viver da arte, o lugar que completou 5 anos é pioneiro no Estado e recheado de histórias.

Além de agitar a união dos coletivos, a casa surgiu para criação e apoio à arte. Quem está a frente da Casa dos Ventos atualmente é a artista plástica Fabiana Fernandes, de 29 anos. “A ideia surgiu comigo e mais três amigas, artistas locais, diante da falta de espaço público para ensaios e criações. E por isso a gente pensou em uma casa colaborativa para que houvesse uma troca mútua entre artistas e comunidade”, explica Fabiana.

No início, a ideia era mostrar que a casa tinha arte e espaço para uma série de trabalhos com música, circo e produção cultural. “Customizávamos roupas, havia bazar e produtos artesanais. Mas em questão de meses precisamos mudar para um lugar maior e dar espaço a um novo conceito”.

A primeira residência, embora pequena, também era de madeira quando as amigas deram o primeiro passo para a Casa dos Ventos. Meses depois, uma enorme casa abandonada se tornou sede para os sonhos de Fabiana. “Aqui essa casa é alugada e quando chegamos aqui ela estava totalmente abandonada. Na base da colaboração começamos a dar um trato em tudo. Aos poucos estou colocando em prática o processo de restauração”, detalha.

A casa com mais de dez cômodos, se tornou a primeira Rede Cultural e Ecológica especializada em arte e eco educação integrada e colaborativa. Se tornou um laboratório de ações coletivas e orgânicas. Ali são oferecidas oficinas à comunidade e nas vivências cotidianas, surgem reflexões sobre questões de gênero, étnico-raciais, ecológicas, novas tecnologias e produção cultural colaborativa.

“Há um intercambio cultural de arte educadores, artistas e permacultores, fomentamos a formação nas áreas de música, circo, teatro, audiovisual, artes visuais, artesanato, agricultura urbana e cultura urbana. Hoje Casa dos Ventos é considerada a maior casa de cultura não governamental do estado”.

Fabiana conta que cresceu em uma família de artistas e que por isso, foi motivada a criar a um espaço que fizesse a diferença. “Estava cansada de não ter um espaço para trabalhar e acredito muito na importância de dar uma oportunidade a todos. O que me motiva é isso e faço questão de lembrar que a casa não é uma empresa, mas um porta para ter acesso à arte”, afirma.

A Casa dos Ventos está aberta para visitação pública das 16h às 20h durante todos os dias. No entanto, alguns horários são reservados para a prática de atividades cotidianas na horta, na cozinha e biblioteca comunitária. O público é livre para interagir com a ideias discutidas na casa e construir a coletividade. Informações pela página do Facebook.

Fonte original da notícia: Lado B – Campo Grande News




PE – Internautas agora podem fazer visita virtual e gratuita ao Paço do Frevo

Visita virtual permite internauta passear pelos andares do equipamento cultural. Foto: Julio Jacobina/DP

Do Recife para o mundo. O Paço do Frevo, localizado no Bairro do Recife, está disponível para visitantes do mundo inteiro. A partir de quarta-feira (28), o equipamento cultural recifense passou a integrar o Google Arts & Culture e é a primeira instituição cultural de Pernambuco a fazer parte da plataforma.

O espaço está disponível no Museum View, onde é possível fazer uma visita virtual pelos andares do local, além de ter acesso as atrações do museu por meio de fotos em 360° e cinco exposições virtuais com legendas em inglês. As mostras incluem fotos, vídeos e entrevistas divididas por temas como O Frevo e o Paço, O Frevo e sua História, Retratos do Frevo, Agremiações e Tipos de Frevo. Também fazem parte da plataforma, lugares históricos como o Museu do Louvre (França) e a Casa Branca (EUA).

O Paço do Frevo foi inaugurado em fevereiro de 2014 e possui acervo que remonta a origem do ritmo e da dança típicos do estado de Pernambuco. O Frevo é reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2012.

O Google Arts & Culture é composto por acervo de instituições de 70 países diferentes e disponibiliza a visita gratuita a mais de 200 mil obras relacionadas à arte, cultura e história. A plataforma é acessada na web e através do aplicativo para Android e iOS.

Fonte original da notícia: Diário de Pernambuco




Florianópolis (SC) – Arte do Crivo ainda resiste nas comunidades de Governador Celso Ramos

Artesãs se reúnem todas as terças-feiras, na praia de Palmas, revivendo os tempos em que o artesanato aproximava as famílias.

Dona Anginha explica que o Crivo é muito mais do que uma arte e pode unir toda uma comunidade – Fotos Divulgação/ND

Costume dos imigrantes açorianos, a Roda de Crivo, realizada pelas mulheres das comunidades para a produção do artesanato, se mantém viva nas praias de Governador Celso Ramos e na região de Tijuquinhas, em Biguaçu, na Grande Florianópois. Todas as terças-feiras, mais de 40 senhoras se reúnem na praia de Palmas para trocar experiências e perpetuar a tradição passada de mãe para filha.

O Crivo é uma arte em tecido, um refinamento do bordado onde o ponto e a construção da imagem se dão por meio da repetição e da prática. A aposentada Egercília Sagás da Silva, 78 anos, a dona Anginha, de Canto dos Ganchos, lembra que o artesanato sempre teve mais valor nas rodas de senhoras. “No Canto dos Ganchos havia dois salões onde o Crivo era feito antigamente. As mulheres se sentavam e conversavam assuntos que os homens não sabiam, mas as crianças podiam entrar e aprender”, comenta.

No Crivo, segundo ela, também eram ensinadas rezas, benzeduras e repassados os fatos que aconteciam na vila, as novidades que algumas criveiras traziam da capital, de Biguaçu ou de Tijucas. “Na roda do Crivo se cantava e se transmitia histórias dos tempos dos avós. Hoje, tudo isso vai se perdendo. A vida vai ficando sem graça. Não tem a mesma alegria de antes”, menciona a criveira. Para dona Anginha, a vida era mais simples e feita em grupo. “Tinha as briguinhas na Vila, mas éramos uma família. Hoje é cada um por si. Ninguém conta mais história. Ninguém tem tempo para ouvir o outro”, arremata com um olhar longe, enquanto recorda suas lembranças.

Falta apoio para manter a tradição

A dona de casa Marli Paula da Silva, 47 anos, coordena os trabalhos das criveiras na Praia de Palmas, em Governador Celso Ramos. O “Grupo de Mães Novo Amanhecer” reúne mais de 30 mulheres que aprenderam ou que estão começando a aprender a técnica. Ela conta que aprendeu o Crivo com a mãe e que apesar do grupo realizar diversas atividades, é no Crivo que elas se destacam.
“Nosso grupo já somou 46 mulheres, mas houve uma época em que reduziu muito. Hoje, nós fazemos o Crivo, cantamos, rezamos e debatemos o que acontece no bairro. É mais do que ocupar o tempo ocioso, a Roda do Crivo é uma forma de lembrar o que os antigos nos deixaram e ter a oportunidade de transmitir para as novas gerações.”, revela.

Marli só lamenta a falta de apoio para a preservação da tradição.“Falta apoio. Temos o espaço, que é da associação de moradores, mas precisamos de investimentos. Sem a prática do Crivo, sem a roda, tudo vai se perder.”, continua. Atualmente, muitas técnicas novas tentam apagar a importância do crivo, acrescenta a artesã Valda Nicolau Sagás, 70 anos.“É como se você estivesse desenhando no tecido, mas isso de ponto em ponto. E não se confunda com ponto cruz ou crochê. O Crivo é feito desmontando o tecido por completo, e remontando com as imagens que a criveira produz”, acrescenta.

Atividade chegou no século 19

Segundo o pesquisador William Wollinger Brenuvida, mestrando em Ciência da Linguagem da Unisul, as origens do Crivo são incertas. Nos Açores, em Portugal, onde a prática ainda resiste em algumas ilhas, a arte convive com a Renda de Bilro e outras formas de se tecer. O bordado do Crivo que também é uma renda, mas que possui diferenças do Bilro por ser feito em um bastidor, espécie de armação ou suporte em madeira, pode ter relação com as antigas caravanas que iam buscar mercadorias no Oriente para o Ocidente. “É preciso lembrar que Portugal ocupou lugares como Macau, na China, por 400 anos, e que navegadores portugueses e espanhóis estiveram na Índia, no Japão. Havia, também, um contato frequente com mercadores de Florença e Gênova que financiaram as investidas dos ibéricos nas Índias. Houve uma grande troca cultural e econômica antes e durante as grandes navegações”, acrescenta.

Outro dedicado ao tema é o historiador Miguel João Simão, que publicou o livro “Mulheres de Ganchos”. Simão aponta que o Crivo possa ter desembarcado em Ganchos para nunca mais sair por volta de 1870 com a descendente de portugueses Flauzina Luiza de Azevedo, esposa de Manoel José de Azevedo (Mané Ilhéu).

“Dona Flauzina teria trazido para Canto dos Ganchos a novidade do Desterro (hoje Florianópolis) e a prática se espalhou”, conta Simão que ainda relata que Flauzina deixou uma geração de filhas, netas e bisnetas que ainda praticam o Crivo em toda a região do Litoral.

Por Marcos Horostecki

Fonte original da notícia: Notícias do Dia




Santo Ângelo (RS) – 3º Encontro Missioneiro de Cultura debaterá Patrimônio Cultural

O 3º Encontro Missioneiro de Estudos Interdisciplinares em Cultura (EMiCult) vai ocorrer entre os dias 23 e 24 de agosto, em Santo Ângelo, nas dependências da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI).

Com o objetivo de promover a pesquisa e o intercâmbio entre os pesquisadores, professores, alunos e agentes culturais e fomentar a reflexão sobre as atividades culturais no contexto regional, a programação do 3º EMiCult incluirá painéis e debates sobre o tema principal: “Onde está o nosso Patrimônio Cultural?”. Além disso, estão previstas apresentações de trabalhos em seis grupos (GTs): GT 01 – Gestão, economia e políticas culturais; GT 02 – História, patrimônio e arquitetura; GT 03 – Comunicação e indústria criativa; GT 04 – Educação e arte; GT 05 – Gastronomia, turismo e sustentabilidade; e GT 06 – Direito, cidadania e cultura.

Neste ano o EMiCult receberá apenas trabalhos completos em duas modalidades: artigos científicos e relatos de experiência. O período de submissão dos trabalhos está aberto até o dia 12 de junho no site www.omicult.org/emicult. Os trabalhos apresentados durante o evento serão compilados em forma de Anais, que ficarão disponíveis gratuitamente no site do evento.

Paralelo ao 3º EMiCult ocorre a 1ª Mostra Audiovisual EMiCult. De caráter educativo e competitivo, a mostra nasce com o interesse de ser um espaço cultural para a troca de experiências entre produtores audiovisuais, cineastas, acadêmicos, professores e demais artistas que buscam registrar a realidade cultural a partir da temática ?Patrimônio cultural?. As inscrições também podem ser realizadas no site do 3º EMiCult. Serão selecionados e premiados dois conteúdos de cada uma das seguintes categorias: Documentário; Curta-metragem ficcional; e Reportagem jornalística, os quais serão exibidos na Mesa do Audiovisual, que acontece concomitante as atividades dos grupos de trabalho.

Ainda durante o 3º EMiCult será realizada a 2ª Mostra Científica, promovida pelo Observatório Missioneiro de Atividades Criativas e Culturais (OMiCult),  que busca valorizar e premiar os melhores trabalhos científicos apresentados em cada um dos seis Grupos de Trabalho (GT) do evento. Participam automaticamente todos os trabalhos da categoria Artigo Científico, organizada de acordo as temáticas dos GTs, mais a categoria “Destaque Missões”, na qual participarão todos os trabalhos (artigos científicos e relatos de experiência), em que o estudo tenha como temática central a região das Missões.

Em 2016 o evento realizado na URI – São Luiz Gonzaga recebeu mais de duzentos trabalhos, e contou com a coordenação geral da professora Sônia Bressan Vieira, que nesta terceira edição estará coordenando o GT de Educação e Arte.

O EMiCult é resultado da atuação OMiCult e se consolida como um evento interinstitucional ao integrar os seguintes centros de pesquisa: Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Indústria Criativa – Unipampa -São Borja; Programa de Pós-Graduação em Direito, Programa de Pós-Graduação em Gestão Estratégica das Organizações e Centro da Cultura Missioneira – URI – Santo Ângelo; URI São Luiz Gonzaga; Universidade Federal da Fronteira Sul – Cerro Largo; Instituto Federal Farroupilha – São Borja e Santo Ângelo.

Para saber mais acesse o site www.omicult.org/emicult, a página no Facebook facebook.com/emicultrs ou entre em contato pelo e-mail: encontroemicult@gmail.com

Acompanhe o cronograma do 3º EMiCult:

Período para submissão trabalhos: 06/04 a 12/06

Divulgação dos trabalhos aprovados: 12/07

Período de inscrição: 06/04 a 08/08

Prazo para pagamento da inscrição: 11/08

Pagamento da inscrição para ouvintes: até 17/08

3º EMiCult: 23 e 24/08

Valores das inscrições:

Apresentador de trabalho da rede de instituições parceiras (URI, IFFAR, UNIPAMPA, UFFS) -R$25,00

Apresentador de trabalho de outras IES ou demais apresentadores – R$30,00

Participante ouvinte – R$25,00

Fonte original da notícia: Rádio Missioneira




Itália – Museu da Merda, ou a arte de transformar fezes

 Foto tirada em 28 de março de 2017 mostra vasos feitos de Merdacotta, no Museu da Merda, em Castelbosco - AFP/Arquivos

Foto tirada em 28 de março de 2017 mostra vasos feitos de Merdacotta, no Museu da Merda, em Castelbosco – AFP/Arquivos

A ideia de um “Museu da Merda” pode soar nojenta. Mas em Castelbosco, nos campos italianos, o projeto não tem nada de repugnante, visto que se trata de transformar as fezes em algo de muito valor.

Tudo nasceu em uma grande granja no sul de Milão (norte), a partir das suas centenas de vacas que produziam montanhas de bosta.

“Tínhamos que tirar proveito desses excrementos dos animais, e de forma ecológica. Ao final conseguimos transformá-los em algo útil”, conta à AFP o proprietário da fazenda, Gianantonio Locatelli, de 61 anos.

Seus 3.500 bovinos produzem diariamente 55 toneladas de leite para a fabricação do tradicional queijo Grana Padano, um dos mais apreciados da Itália.

Menos nobre, os animais produzem também 150 toneladas de esterco, uma verdadeira dor de cabeça.

Locatelli resolveu o desafio com um sistema engenhoso: as fezes são coletadas e introduzidas em biodigestores, enormes tanques onde as bactérias transformam tudo que é orgânico em gás metano. O cheiro do laboratório é realmente desagradável.

Este metano serve para alimentar motores e gerar eletricidade, que a granja aproveita para vender a particulares. Atualmente, produz o equivalente ao consumido por um povoado de entre 3.000 e 4.000 habitantes.

– “Merdacotta”, uma argila secreta –

Foto tirada em 28 de março de 2017 mostra vasos feitos de Merdacotta, no Museu da Merda, em Castelbosco - AFP/Arquivos

Foto tirada em 28 de março de 2017 mostra vasos feitos de Merdacotta, no Museu da Merda, em Castelbosco – AFP/Arquivos

A água utilizada para arrefecer os motores do tratamento, que sai a uma temperatura de 100 graus, permite garantir calefação a toda a fazenda no inverno e manter os 40 graus necessários para o funcionamento dos biodigestores.

Uma parte do estrume vai ser comercializada como fertilizante nos supermercados, adiantou Locatelli, que não quis revelar os custos de toda a operação.

Outra parte do esterco restante é utilizada para criar uma série de objetos, como louças e outras peças de uso cotidiano.

O “Merdacotta” (literalmente “merda cozida”) vem de uma mistura de esterco com argila da Toscana, com um toque “secreto”. Tijolos, telhas, vasos, pratos e jarras…. os objetos são rústicos e elegantes.

“Trata-se de um produto revolucionário, entre o plástico e a terracota”, aponta Locatelli, que utiliza como símbolo um besouro, inseto imprescindível para a natureza por adubar a terra e controlar os parasitas.

A coleção assinada Merdacotta foi premiada no ano passado pelo Salão do Design de Milão, por sua ideia louca de “transformar a merda em algo divertido”.

– Um museu original –

Fundado em 2005, o museu dedicado à merda exibe várias obras de arte que se inspiram no tema ou que foram realizadas com pinturas fabricadas com merda líquida.

O local presta homenagem, entre outros, ao filme “O fantasma da liberdade” de Luis Buñuel, onde a escala de valores entre alimentos e banheiros é invertida.

Projetado com o arquiteto Luca Cipelletti, o museu reflete a personalidade de Locatelli, que estudou agronomia no Canadá, conheceu Andy Warhol em Nova York e é um colecionador de arte conceitual.

“É a minha forma de agradecer à merda”, diz Locatelli. AFP

Fonte original da notícia: Isto É




O fisco de olho na arte

Novas regulamentações do Iphan destinadas a impedir a lavagem de dinheiro por meio de obras de arte vão aumentar a visibilidade da Receita.

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As obras do paulista Claudio Tozzi estão entre as mais valorizadas dentre os artistas brasileiros contemporâneos, caso do óleo sobre tela “Dança”. Desde agosto de 2015, as cores da peça podem ser apreciadas no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. A tela está em boa companhia, ao lado de cerca de 200 outras peças. São quadros de Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Manabu Mabe e Cícero Dias, só para ficar nos brasileiros. Sua origem é a mesma: a Operação Lava Jato. A Polícia Federal apreendeu as obras ao longo das 37 fases da operação, e decidiu guardá-las em um local adequado, onde pudessem ser apreciadas pelo público.

Isso não só tornou o museu curitibano conhecido nacionalmente. Também lançou luz sobre um dos desvios desse mercado: o uso de obras de arte para atos ilícitos como a sonegação de impostos, a lavagem de dinheiro e a evasão de divisas. Sofisticado e sigiloso, o universo das galerias e leilões de arte agora está sob uma fiscalização mais intensa. Em abril, entra em vigor uma portaria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) destinada a tornar esse mercado mais transparente.

“Dança”, do paulista Claudio Tozzi: agora exposto em Curitiba, ao lado de outras 200 obras apreendidas pela Operação Lava Jato. (Crédito:Paulo Lisboa / Parceiro / Agência O Globo)

“Dança”, do paulista Claudio Tozzi: agora exposto em Curitiba, ao lado de outras 200 obras apreendidas pela Operação Lava Jato. (Crédito:Paulo Lisboa / Parceiro / Agência O Globo)

“O Iphan vai atuar em parceria com outros órgãos de fiscalização para prevenir atos ilícitos”, diz Fábio Rolim, coordenador-geral do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização da autarquia. “Haverá mais compliance (aderência às regras) de agora em diante.” A partir de abril, os profissionais do setor – galeristas, marchands, leiloeiros e mesmo negociantes de antiguidades – serão punidos se não se registrarem no Cadastro de Negociantes de Antiguidades e Obras de Arte (CNart), mantido pelo Iphan.

Também haverá punições, como multas, para quem deixar de manter registros precisos e atualizados das transações que intermediou. E, principalmente, haverá multas que podem chegar a 25% do valor total do negócio para quem deixar de informar o Instituto sobre qualquer transação paga em dinheiro cujo valor supere R$ 10 mil. As informações prestadas pelos comerciantes serão repassadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), encarregado de verificar indícios de malfeitorias no sistema financeiro. “Isso permitirá que as autoridades tenham mais visibilidade do que ocorre nesse mercado, será mais fácil detectar o mau uso dos negócios com obras de arte”, diz Rolim.

Para o investidor em arte, as mudanças serão profundas, embora pouco visíveis. “O colecionador que comprar ou vender uma obra de arte tem de saber que as transações serão reportadas às autoridades”, diz o advogado Pierre Moreau. “É algo parecido com o que já ocorre nos cartórios de notas ou nas imobiliárias, que automaticamente informam a Receita Federal.” Para ele, as mudanças podem pressionar ainda mais um mercado que está em baixa. “Isso cria novos custos, embora pequenos, para os negociantes”, diz. Na hora de comprar e vender, os amantes da arte precisam conferir com cuidado se os documentos que comprovam a origem do quadro e do dinheiro estão em dia. Embora a intenção declarada do Iphan seja coibir a lavagem de dinheiro e o financiamento ao terrorismo, quem negociar obras de arte deve ter em mente que Coaf e o Leão trocam informações de maneira sistemática.

“A intenção é impedir a atuação de criminosos, mas o Fisco vai se aproveitar da maior visibilidade”, diz a advogada Lina Santin: sócia do Santi, Estevão, Simão e Cabrera. “A Receita agora estará mais atenta, porque ela consegue cruzar mais dados e, a partir das declarações para o Coaf, ela terá mais subsídios para a fiscalização.” Por exemplo, o colecionador que deixar de recolher o imposto de 15% sobre ganhos de capital na hora da venda, mesmo que sobre uma obra adquirida no Exterior, com certeza receberá uma visita dos fiscais da Receita. E não será para contemplar as peças remanescentes da coleção.

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Por Cláudio Gradilone

Fonte original da notícia: Isto É Dinheiro




PE – Seis praças do Recife são candidatas a se tornar patrimônio mundial

Praças foram projetadas pelo paisagista Roberto Burle Marx.

A praça da República (incluindo os jardins do Palácio do Campo das Princesas), em Santo Antônio, está entre as obras-primas de Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

A praça da República (incluindo os jardins do Palácio do Campo das Princesas), em Santo Antônio, está entre as obras-primas de Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

No ruge-ruge da metrópole, se há algo dissonante é a paisagem (e seus detalhes), elemento que exige o apuro do mais distrativo dos sentidos: o olhar. Desafio para gênios da arte da urbanização, que em momentos únicos da história desconstroem essa tendência perversa para a própria a evolução – e preservação – da humanidade e criam obras de arte que sobrepujam o tempo e o espaço.

No dia a dia pode até lhe passar em branco, mas o Recife possui um patrimônio de intervenção natural, no caminho da escola para casa, ou de casa para o trabalho, que reflete essa genialidade: os jardins idealizados ou reformados pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994). E esse legado pode estar prestes a se tornar oficialmente patrimônio mundial reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

A possibilidade está sendo apresentada esta semana durante o 2º Seminário Internacional Paisagem e Jardim como Patrimônio Cultural México/Brasil, realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco e a Universidade Federal de Pernambuco, que acontece até quinta-feira (23), com palestras e workshop. O evento também marca o lançamento do segundo volume do projeto Cadernos, do CAU/PE, que, não por acaso, tem o título “Cidade-Paisagem”.

Para apresentar a candidatura de seis das praças de Burle Marx no Recife como patrimônio mundial está na Capital o arquiteto mexicano Saúl Alcántara, membro votante do Comitê Internacional de Paisagens Culturais da Unesco.

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Na terça (21), o especialista visitou duas das obras mais marcantes idealizadas pelo saudoso paisagista: a praça de Casa Forte, primeiro de todos os projetos de jardins públicos de Burle Marx, de 1934, localizada na Zona Norte do Recife, cidade natal de sua mãe; e a praça Euclides da Cunha (defronte ao Clube Internacional), no bairro da Madalena (área central da Cidade), de 1935, projeto em que o também artista plástico buscou livrar os jardins de impressão europeia introduzindo o espírito brasileiro em um espaço ornamentado com plantas do Agreste e do Sertão nordestinos.

“Seus jardins são declarados patrimônio cultural do Brasil e deveriam passar a ser patrimônio mundial, porque têm valores universais”, explicou Alcántara. “Burle Marx é um gênio da paisagem universal do século 20, que deu início a sua carreira profissional, acadêmica e científica no Recife. Aqui ele concebeu o jardim tropical e moderno”, lembrou.

Além das praças de Casa Forte e Euclides da Cunha, integram o pleito à categoria de patrimônio mundial a da praça da República (incluindo os jardins do Palácio do Campo das Princesas), no bairro de Santo Antônio, e a do Derby, na área central; a Faria Neves (em frente ao Parque Estadual Dois Irmãos), na Zona Oeste; e a Ministro Salgado Filho (no acesso ao aeroporto), no Ibura (Zona Sul), todas já tombadas, há cerca de dois anos, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Em 2016 ocorreu nova etapa no processo de valorização de áreas públicas projetadas por Burle Marx: além das praças já citadas, outras nove receberam da Prefeitura do Recife a classificação de jardim histórico, o que impede que qualquer um desses espaços sofra intervenção sem autorização prévia.

Paulista de nascimento, de ascendência alemã-recifense, Burle Marx deixou sua marca na Capital em mais de uma dezena de jardins – sem contar as obras particulares. Chegou inclusive a exercer o cargo de diretor de Parques e Jardins do Departamento de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco. Sua relação com a Cidade agora está prestes a ser eternizada não apenas aqui, mas em todo o mundo.

Por Marcos Toledo

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