O fisco de olho na arte


Novas regulamentações do Iphan destinadas a impedir a lavagem de dinheiro por meio de obras de arte vão aumentar a visibilidade da Receita.

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As obras do paulista Claudio Tozzi estão entre as mais valorizadas dentre os artistas brasileiros contemporâneos, caso do óleo sobre tela “Dança”. Desde agosto de 2015, as cores da peça podem ser apreciadas no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. A tela está em boa companhia, ao lado de cerca de 200 outras peças. São quadros de Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Manabu Mabe e Cícero Dias, só para ficar nos brasileiros. Sua origem é a mesma: a Operação Lava Jato. A Polícia Federal apreendeu as obras ao longo das 37 fases da operação, e decidiu guardá-las em um local adequado, onde pudessem ser apreciadas pelo público.

Isso não só tornou o museu curitibano conhecido nacionalmente. Também lançou luz sobre um dos desvios desse mercado: o uso de obras de arte para atos ilícitos como a sonegação de impostos, a lavagem de dinheiro e a evasão de divisas. Sofisticado e sigiloso, o universo das galerias e leilões de arte agora está sob uma fiscalização mais intensa. Em abril, entra em vigor uma portaria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) destinada a tornar esse mercado mais transparente.

“Dança”, do paulista Claudio Tozzi: agora exposto em Curitiba, ao lado de outras 200 obras apreendidas pela Operação Lava Jato. (Crédito:Paulo Lisboa / Parceiro / Agência O Globo)

“Dança”, do paulista Claudio Tozzi: agora exposto em Curitiba, ao lado de outras 200 obras apreendidas pela Operação Lava Jato. (Crédito:Paulo Lisboa / Parceiro / Agência O Globo)

“O Iphan vai atuar em parceria com outros órgãos de fiscalização para prevenir atos ilícitos”, diz Fábio Rolim, coordenador-geral do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização da autarquia. “Haverá mais compliance (aderência às regras) de agora em diante.” A partir de abril, os profissionais do setor – galeristas, marchands, leiloeiros e mesmo negociantes de antiguidades – serão punidos se não se registrarem no Cadastro de Negociantes de Antiguidades e Obras de Arte (CNart), mantido pelo Iphan.

Também haverá punições, como multas, para quem deixar de manter registros precisos e atualizados das transações que intermediou. E, principalmente, haverá multas que podem chegar a 25% do valor total do negócio para quem deixar de informar o Instituto sobre qualquer transação paga em dinheiro cujo valor supere R$ 10 mil. As informações prestadas pelos comerciantes serão repassadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), encarregado de verificar indícios de malfeitorias no sistema financeiro. “Isso permitirá que as autoridades tenham mais visibilidade do que ocorre nesse mercado, será mais fácil detectar o mau uso dos negócios com obras de arte”, diz Rolim.

Para o investidor em arte, as mudanças serão profundas, embora pouco visíveis. “O colecionador que comprar ou vender uma obra de arte tem de saber que as transações serão reportadas às autoridades”, diz o advogado Pierre Moreau. “É algo parecido com o que já ocorre nos cartórios de notas ou nas imobiliárias, que automaticamente informam a Receita Federal.” Para ele, as mudanças podem pressionar ainda mais um mercado que está em baixa. “Isso cria novos custos, embora pequenos, para os negociantes”, diz. Na hora de comprar e vender, os amantes da arte precisam conferir com cuidado se os documentos que comprovam a origem do quadro e do dinheiro estão em dia. Embora a intenção declarada do Iphan seja coibir a lavagem de dinheiro e o financiamento ao terrorismo, quem negociar obras de arte deve ter em mente que Coaf e o Leão trocam informações de maneira sistemática.

“A intenção é impedir a atuação de criminosos, mas o Fisco vai se aproveitar da maior visibilidade”, diz a advogada Lina Santin: sócia do Santi, Estevão, Simão e Cabrera. “A Receita agora estará mais atenta, porque ela consegue cruzar mais dados e, a partir das declarações para o Coaf, ela terá mais subsídios para a fiscalização.” Por exemplo, o colecionador que deixar de recolher o imposto de 15% sobre ganhos de capital na hora da venda, mesmo que sobre uma obra adquirida no Exterior, com certeza receberá uma visita dos fiscais da Receita. E não será para contemplar as peças remanescentes da coleção.

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Por Cláudio Gradilone

Fonte original da notícia: Isto É Dinheiro




PE – Seis praças do Recife são candidatas a se tornar patrimônio mundial


Praças foram projetadas pelo paisagista Roberto Burle Marx.

A praça da República (incluindo os jardins do Palácio do Campo das Princesas), em Santo Antônio, está entre as obras-primas de Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

A praça da República (incluindo os jardins do Palácio do Campo das Princesas), em Santo Antônio, está entre as obras-primas de Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

No ruge-ruge da metrópole, se há algo dissonante é a paisagem (e seus detalhes), elemento que exige o apuro do mais distrativo dos sentidos: o olhar. Desafio para gênios da arte da urbanização, que em momentos únicos da história desconstroem essa tendência perversa para a própria a evolução – e preservação – da humanidade e criam obras de arte que sobrepujam o tempo e o espaço.

No dia a dia pode até lhe passar em branco, mas o Recife possui um patrimônio de intervenção natural, no caminho da escola para casa, ou de casa para o trabalho, que reflete essa genialidade: os jardins idealizados ou reformados pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994). E esse legado pode estar prestes a se tornar oficialmente patrimônio mundial reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

A possibilidade está sendo apresentada esta semana durante o 2º Seminário Internacional Paisagem e Jardim como Patrimônio Cultural México/Brasil, realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco e a Universidade Federal de Pernambuco, que acontece até quinta-feira (23), com palestras e workshop. O evento também marca o lançamento do segundo volume do projeto Cadernos, do CAU/PE, que, não por acaso, tem o título “Cidade-Paisagem”.

Para apresentar a candidatura de seis das praças de Burle Marx no Recife como patrimônio mundial está na Capital o arquiteto mexicano Saúl Alcántara, membro votante do Comitê Internacional de Paisagens Culturais da Unesco.

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Praça projetada por Burle Marx. Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Na terça (21), o especialista visitou duas das obras mais marcantes idealizadas pelo saudoso paisagista: a praça de Casa Forte, primeiro de todos os projetos de jardins públicos de Burle Marx, de 1934, localizada na Zona Norte do Recife, cidade natal de sua mãe; e a praça Euclides da Cunha (defronte ao Clube Internacional), no bairro da Madalena (área central da Cidade), de 1935, projeto em que o também artista plástico buscou livrar os jardins de impressão europeia introduzindo o espírito brasileiro em um espaço ornamentado com plantas do Agreste e do Sertão nordestinos.

“Seus jardins são declarados patrimônio cultural do Brasil e deveriam passar a ser patrimônio mundial, porque têm valores universais”, explicou Alcántara. “Burle Marx é um gênio da paisagem universal do século 20, que deu início a sua carreira profissional, acadêmica e científica no Recife. Aqui ele concebeu o jardim tropical e moderno”, lembrou.

Além das praças de Casa Forte e Euclides da Cunha, integram o pleito à categoria de patrimônio mundial a da praça da República (incluindo os jardins do Palácio do Campo das Princesas), no bairro de Santo Antônio, e a do Derby, na área central; a Faria Neves (em frente ao Parque Estadual Dois Irmãos), na Zona Oeste; e a Ministro Salgado Filho (no acesso ao aeroporto), no Ibura (Zona Sul), todas já tombadas, há cerca de dois anos, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Em 2016 ocorreu nova etapa no processo de valorização de áreas públicas projetadas por Burle Marx: além das praças já citadas, outras nove receberam da Prefeitura do Recife a classificação de jardim histórico, o que impede que qualquer um desses espaços sofra intervenção sem autorização prévia.

Paulista de nascimento, de ascendência alemã-recifense, Burle Marx deixou sua marca na Capital em mais de uma dezena de jardins – sem contar as obras particulares. Chegou inclusive a exercer o cargo de diretor de Parques e Jardins do Departamento de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco. Sua relação com a Cidade agora está prestes a ser eternizada não apenas aqui, mas em todo o mundo.

Por Marcos Toledo

Fonte original da notícia:




Cidades do interior exportam para o mundo a arte e artesanato de Pernambuco


Estado nordestino é rico em produção de peças que celebram a cultura local.

Caruaru é conhecida pelas peças em cerâmica.

Caruaru é conhecida pelas peças em cerâmica.

Se você é daqueles que não perde a chance de levar uma lembrancinha pra casa sempre que volta de uma viagem, vai se apaixonar pelo artesanato produzido no interior de Pernambucano. Diferente do litoral, onde o encanto fica por conta da paisagem, nas cidades do interior do Estado a beleza está nas peças produzidas pelos artesãos locais.

Dá pra dizer que o mapa do artesanato pernambucano se confunde com o do próprio Estado. Em todos os municípios, muita criatividade e mãos ágeis produzem artefatos de encher os olhos! Além de visitar pontos de comercialização do artesanato na Região Metropolitana do Recife, é interessante conhecer os ateliês e oficinas dos mestres da arte popular.

A Renda Renascença de Poção e Pesqueira

Poção é considerada a Capital da Renda Renascença desde 2011.

Poção é considerada a Capital da Renda Renascença desde 2011.

É de Poção e Pesqueira que vêm a beleza da Renda Renascença. As cidades são os dois principais polos de produção desse tipo de artesanato, e é ali que as rendeiras tecem os mais exuberantes fios da região! A beleza do trabalho é tão incrível que a Renda Renascença já é exportada para outros estados brasileiros e para países da América, Europa e Ásia. E, é claro, quem visita Poção e Pesqueira tem a chance de ver de perto toda a delicada produção da renda.

Poção é oficialmente a capital da Renascença desde 2011. A renda, que tem origem europeia, foi trazida a Pernambuco pelos portugueses. A tradição chegou na cidade de Poção na década de 30, e logo passou a ser uma das atividades mais tradicionais dos moradores. Em Pesqueira não é diferente. As rendeiras são parte cultural da cidade e é possível conhecê-las e visitar as feirinhas locais. O trabalho exige tanto empenho e dedicação que às vezes o produto final pode demorar de semanas a um ano para ficar pronto, como é o caso, por exemplo, dos vestidos de noiva. Imagina só: deslumbrante!

As bonequinhas da sorte de Gravatá

A 80 quilômetros do Recife, na região do Agreste pernambucano, Gravatá é o coração das famosas bonequinhas da sorte. Com pouco mais de um centímetro, elas são uma marca do artesanato da cidade e geram renda para muitas famílias locais. Para quem visita Gravatá, é a principal lembrancinha da cidade. Além disso, é considerada também um amuleto. Ah, e se você visitar a cidade, vai encontrar também móveis, peças em alumínio, objetos de decoração e brinquedos educativos.

As artes de Olinda

Outro destino muito procurado por turista em Pernambuco é Olinda. Mas não é só por conta do famoso carnaval. A cidade pernambucana oferece milhares de atrações, entre elas as artes plásticas, a talha em madeira, a pintura em tecidos, e o artesanato em casca de cajá.

A cerâmica de Caruaru

Conhecida como a “Princesa do Agreste” e “Capital do Forró”, Caruaru é o berço da cerâmica em Pernambuco. É terra natal do famoso Mestre Vitalino, ceramista que fez história através da criação de bonecos de barro. A tradição foi perpetuada entre familiares e nas gerações de artesãos que até hoje residem em Caruaru.

As xilogravuras de Bezerros

É em Bezerros que você vai encontrar as encantadoras xilogravuras, imagens feitas em relevo sobre madeira. Muito popular na região Nordeste, a técnica era utilizada para ilustração de textos de literatura de cordel. Em Bezerros está o Museu da Xilogravura J. Borges, que faz uma homenagem ao pernambucano José Francisco Borges, cordelista e xilogravador. Na visita à cidade você também vai encontrar máscaras, bonecas de pano e brinquedos infantis.

Detalhe da produção da Renda Renascença, um dos grandes atrativos do interior pernambucano.

Detalhe da produção da Renda Renascença, um dos grandes atrativos do interior pernambucano.

As carrancas de Petrolina

A história das carrancas de Petrolina começou com a artesã Ana Leopoldina dos Santos, que depois ficou conhecida como Ana das Carrancas. Artesã, ela começou a produzir as carrancas e imprimir sua identidade no barco. Todas as peças possuem os olhos vazados, uma homenagem ao marido de Ana, que era deficiente visual. A obra peculiar da artista ganhou tanto reconhecimento nacional e internacional que ela recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, dois anos antes de falecer em 2008. Quem visita Petrolina não pode deixar de conferir a beleza das peças, símbolo e tradição na cidade.

Outros destinos imperdíveis

Achou que acabou? Nada disso! Você também pode conhecer as belezas do artesanato em barro de Tracunhaém e Goiana, a tapeçaria de Lagoa do Carro e os santos de madeira de Ibimirim.

Ficou ansioso para conhecer toda essa beleza? Pernambuco oferece tudo isso e muito mais!

Pernambuco Coração do Nordeste, acesse: www.descubrapernambuco.com.br

Fonte original da notícia: GShow




Iphan promove concurso para seleção do Emblema do Patrimônio Cultural Brasileiro


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Em 2017 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) completa 80 anos de atuação e, como parte das comemorações, lançou no dia 13 de janeiro o edital do concurso nacional para a escolha do Emblema do Patrimônio Cultural Brasileiro. O objetivo da seleção é criar uma identidade visual para os bens do Patrimônio Cultural Brasileiro, valorizando sua condição especial e apoiando sua promoção. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas entre 16 de janeiro a 02 de março de 2017. O prêmio para o trabalho vencedor será de R$ 30 mil.

Além do emblema, o vencedor deverá desenvolver um Manual de Identidade Visual e Aplicação. As regras e definições para participação estão disponíveis no edital do concurso. Poderão participar do concurso apenas pessoas físicas, individualmente, com apenas uma proposta inédita por participante.

Cada participante poderá inscrever apenas uma proposta, a ser enviada uma única vez e sem possibilidade de alteração. A ficha de inscrição, bem como o edital, estão disponíveis no portal do Iphan (www.iphan.gov.br) e o interessado deverá enviá-la para o e-mail emblema.patrimonio@iphan.gov.br, juntamente com os arquivos digitalizados (jpg ou pdf): carteira de identidade e CPF (frente e verso); certidão de quitação eleitoral emitida pelo site do Tribunal Regional Eleitoral (TRE); a sugestão da marca do Patrimônio Cultural Brasileiro, conforme os requisitos estabelecidos no edital; Termo de Cessão de Direitos Autorais (Anexo II do edital), devidamente preenchido e assinado; e Declaração (Anexo III do edital), preenchida e assinada, informando que o design não caracteriza, no todo ou em parte, plágio ou autoplágio.

As propostas serão avaliadas por uma comissão julgadora, que será constituída por até nove membros nomeados pela presidente do Iphan. O resultado preliminar do concurso será divulgado no portal do Iphan em meados de maio de 2017 e o lançamento oficial do Emblema está previsto 17 de agosto de 2017, dia nacional do Patrimônio no Brasil.

Iphan 80 anos
Defensor da cultura brasileira em seus tesouros edificados, na criatividade aplicada na arte, nos ofícios que se perpetuam, nos costumes e tradições, na história ancestral de seus povos, o Iphan foi criado pela Lei nº 378, de 13 de janeiro de 1937, completando oito décadas de atividade e, além de recordar sua trajetória, projeta os seus próximos 80 anos.

Tido como uma das mais longevas instituições públicas brasileiras e a primeira dedicada à preservação do patrimônio cultural na América Latina, a história do Iphan se confunde com a formação cultural do Brasil. Em oito décadas de atividade, o Instituto, que nasceu como Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) dentro do Ministério da Educação e Saúde Pública, tem trabalhado arduamente em parceria com a União, os Estados, os Municípios, a comunidade e o setor privado, buscando apoio e investimento na ampliação de uma rede de proteção e valorização do patrimônio.

Ao longo de sua trajetória, a política nacional de patrimônio foi expandida e se relaciona hoje com diversos campos como gestão urbana, gestão ambiental, direitos humanos e culturais – atuando desde o poder de polícia até a educação –, formação profissional e pesquisa, e crescente envolvimento internacional.  O maior envolvimento do Iphan ressignificou sua existência e ganhou maior capilaridade, estando o Instituto presente em 27 Superintendências Estaduais, 26 Escritórios Técnicos, dois Parques Nacionais e cinco Unidades Especiais.

Reconhecimento do patrimônio
Nesses 80 anos de atividade foram protegidos 87 conjuntos urbanos (o que implica em cerca de 80 mil bens em áreas tombadas e 531 mil imóveis em áreas de entorno já delimitadas) e três estão sob o tombamento provisório. Nessas áreas, o Instituto atua e investe recursos, tanto direta – na forma de obras de qualificação – quanto indiretamente – por meio de parcerias com outras instituições municipais e estaduais –, além do PAC Cidades Históricas e dos Planos de Mobilidade e Acessibilidade Urbana.

Além disso, o Iphan tem sob sua proteção 40 bens imateriais registrados, 1.262 bens materiais tombados, oito terreiros de matrizes africanas, 24 mil sítios arqueológicos cadastrados, mais de um milhão de objetos arrolados (incluindo o acervo museológico), cerca de 250 mil volumes bibliográficos e vasta documentação de arquivo.

Com o passar do tempo houve um alargamento do sentido sobre o que é o Patrimônio – na mesma direção do ocorrido com a política cultural como um todo –, o que possibilitou que a proteção do Estado se estendesse desde um sítio urbano complexo e dinâmico como o Plano Piloto de Brasília (DF), até à pequena casa de madeira povoada de objetos de uso cotidiano do seringueiro Chico Mendes, em Xapuri (AC), bem como da salvaguarda dos modos de fazer tradicionais relacionados ao manejo de alimentos ou recursos naturais; de celebrações como o Círio de Nazaré ou a Festa do Bonfim; ou de expressões como o Frevo, a Roda de Capoeira e a Arte Kusiwa dos índios Wajãpi.

Fonte original da notícia: IPHAN




São Luís (MA) inspira arte, e se mantém eternizada em pinturas e fotografias


Riqueza está presente nas obras dos artistas que homenageiam São Luís. Toda essa beleza vêm da cultura do povo e das belezas das paisagens.

Claudionor Pereira conhece todo o Centro Histórico de São Luís. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Claudionor Pereira conhece todo o Centro Histórico de São Luís. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

A cidade de São Luís (MA) inspira arte, e assim se mantém eternizada em pinturas, fotografias, principalmente na memória. A riqueza presente nas obras dos artistas que homenageiam São Luís vêm da cultura do povo e das belezas das paisagens.

Quando a gente gosta muito de uma coisa, ou de alguém, isso fica memória. Todo o amor, o olhar e a vontade são para o que se ama. Admiração que não cabe só dentro da gente. É preciso espalhar aos quatro cantos.

É por isso que o artista plástico Joel Dumara, um pintor apaixonado por São Luís, eterniza em molduras aquilo que já é uma tela viva: a cidade. Também pudera: ela é magnética.

Artista plástico Joel Dumara tem São Luís como fonte de inspiração. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Artista plástico Joel Dumara tem São Luís como fonte de inspiração. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Cidade cheia de mistérios que é, enlaçou o coração deste artista, que se debruça a reproduzir cada canto da cidade, como a tranquilidade e beleza do beco Catarina Mina.

Um cenário cheio de encanto onde é possível conhecer a história visitando o passado que quer continuar presente em todos os ângulos que se vê aqui, e na memória.

Nas telas, não se vê apenas o lugar, mas tudo que habita o Centro Histórico de São Luís. As cores, as ruas, a luz, os casarões, a gente. Tudo isso, o artista plástico Claudionor Pereira conhece de cor, pois já pinta a cidade há 16 anos.

Conhece cada sobrado, cada beco, cada esquina deste refúgio que antes existia sozinho, até a modernidade chegar. Para ele, é como eternizar o que ainda resiste ao tempo.

Paisagens que também conquistaram as lentes do fotógrafo Márcio Vasconcelos, e fazem o coração dele bater mais forte. O artista publicou vários livros sobre a cultura, religião e valores de todo o Maranhão, mas São Luís é a menina dos olhos.

Cultura e povo eternizados em belas fotografias. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Cultura e povo eternizados em belas fotografias. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

E assim, de diferentes ângulos, eles se rendem aos encantos da ‘Ilha Bela’.

Fonte original da notícia: G1 MA




Santos (SP) poderá ter museu de arte


Vereadores aprovaram projeto de lei que autoriza a construção do equipamento no estacionamento da Pinacoteca Benedito Calixto.

Museu de Arte deve ser erguido, pela Fundação Benedito Calixto, no estacionamento da pinacoteca. Foto: Matheus Tagé/DL

Museu de Arte deve ser erguido, pela Fundação Benedito Calixto, no estacionamento da pinacoteca. Foto: Matheus Tagé/DL

Santos poderá ganhar um museu de arte. A Câmara de vereadores aprovou ontem em 1ª discussão, o projeto de lei que autoriza a construção do equipamento no estacionamento da Pinacoteca Benedito Calixto.

O projeto é de autoria do prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). Ele acresce um dispositivo à lei 2.164/2003, que autoriza a Fundação Benedito Calixto, que administra a pinacoteca, a levantar o prédio no terreno onde é o estacionamento.

Segundo o dispositivo, o museu terá que seguir um projeto arquitetônico já aprovado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa).

Na defesa do projeto, o prefeito disse que “a construção do museu agregará valor e promoverá uma série de iniciativas no campo da museologia, formação artística e didática no Município”. Ainda segundo o chefe do Executivo santista, o local “constituirá um Centro de Cultura, difusor de conhecimento e cultura”.

O projeto ainda precisa se aprovado em segunda discussão, na sessão de quinta-feira. Caso seja aprovado, ele seguirá para a sanção de Paulo Alexandre Barbosa.

Cadastro

A Baixada Santista possui, ao menos, 25 museus. A região faz parte do projeto piloto Cadastro Estadual de Museus, lançado em julho deste ano.

O principal objetivo da iniciativa do Sistema Estadual de Museus é sistematizar informações sobre os espaços museológicos paulistas a fim de contribuir com o desenvolvimento e formulação de políticas públicas para o setor.

Por Bruno Gutierrez

Fonte original da notícia: Diário do Litoral




Tombado pelo Patrimônio Histórico, Cine Vila Rica de Ouro Preto (MG) será revitalizado


O imóvel foi inaugurado em 1886. (Foto: Divulgação/Ufop)

O imóvel foi inaugurado em 1886. (Foto: Divulgação/Ufop)

O Cine Vila Rica, em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, deve ficar de cara nova em breve. O imóvel, tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, será revitalizado. O anúncio oficial dos investimentos, que serão realizados pela Codemig em parceria com a Secretaria de Cultura e Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), foi feito durante a 11ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOp).

O imóvel foi inaugurado em 1886. Ele se tornou um dos mais importantes equipamentos de arte e cultura da cidade. A sala sedia uma programação contínua de filmes, eventos artísticos-culturais nacionais e internacionais, como o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana, Fórum das Letras, Fotógrafos em Ouro Preto, CineOP, entre outros.

O Cine Vila Rica será reformado e vai ganhar novos equipamentos. A intenção do governo de Minas é transformar o espaço em uma sala de exibição de referência no estado e do Brasil.

“A expansão do mercado exibidor, com abertura de salas no interior, é uma das linhas mais importantes da política do governo estadual, que elegeu o audiovisual e a indústria criativa como prioridades para a expansão da matriz econômica mineira. Ouro Preto e o Cine Vila Rica se encaixam perfeitamente nisso”, afirma Marco Antônio Castelo Branco, presidente da Codemig.

Por João Henrique do Vale

Fonte original da notícia: em.com.br




Justiça determina obras de revisão no Teatro Municipal de Sabará (MG), o segundo mais antigo do país


Ação civil pública do Ministério Público de Minas Gerais denunciou omissão da prefeitura na realização de manutenções elétrica e hidráulica, além de desinfestação de traças e cupins. Espaço, que era a antiga Casa de Ópera, recebeu Dom Pedro I e II.

Teatro Municipal de Sabará é o segundo mais antigo do país. (Foto: Acervo IER/Divulgação)

Teatro Municipal de Sabará é o segundo mais antigo do país. (Foto: Acervo IER/Divulgação)

A prefeitura de Sabará, na Grande BH, terá 90 dias para realizar a revisão de todo o sistema elétrico, hidráulico e estrutural do edifício do Teatro Municipal (antiga Casa de Ópera), incluindo a desinfestação de traças e cupins. A Justiça acatou pedido em ação civil pública das promotorias de Defesa do Patrimônio Público de Sabará e de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais, que denunciou a falta de manutenção do espaço, que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A decisão obriga o município a cumprir seu dever constitucional de preservação do patrimônio cultural, corrigindo as graves irregularidades constatadas em vistorias realizadas pela Coordenadoria Municipal de Defesa Civil e por técnicos do Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPE-MG).

Conforme relatórios técnicos dos órgãos, o teatro – segundo mais antigo do Brasil em atividade – apresenta estrutura deficiente, problemas sérios no sistema de drenagem de água e nas instalações elétricas, o que coloca em risco o bem cultural e seus frequentadores.

Na ação civil, os promotores destacaram que o município tem conhecimento da deterioração e dos riscos que a situação do teatro apresenta para a segurança do público. “No entanto, permanece omisso quanto à necessidade de realização de ações urgentes.”

“É notório que o município não tem desempenhado a contento o seu múnus constitucional no sentido de zelar pelo patrimônio cultural local e de adotar as medidas cabíveis para a sua preservação”, destaca a ação.

De acordo com a Justiça, embora o município tenha apresentado ao MP um plano de restauração do teatro, elaborado em 2014, não foi juntado ao processo nenhum documento que confirmasse a alegação de que as obras seriam viabilizadas pelo programa PAC Cidades Históricas.

E, apesar de ter informado que o processo licitatório estava em andamento, o município não apresentou sequer a minuta do edital de licitação para contratação de empresa especializada para a execução da obra. A decisão estabelece multa diária de RS5 mil, em caso de descumprimento das medidas estabelecidas. Ao final das obras, deve ser apresentado laudo comprobatório da manutenção assinado por profissional especializado.

Espaço recebeu Dom Pedro I e seu filho Dom Pedro II

O Teatro Municipal de Sabará foi inaugurado em 1819 e é parte importante do acervo histórico, arquitetônico e de arte e ornamentação barroca que compreende 62 bens tombados pelos órgãos competentes nos níveis federal, estadual e municipal.

Em 1831, a antiga “Casa de Ópera” recebeu a visita do imperador Dom Pedro I e, em 1881, de Dom Pedro II. Em 2012, foi eleita uma das Sete Maravilhas da Estrada Real.

Fonte original da notícia: em.com.br




Rituais de fé preservados


Tradição – Parte da identidade brasileira, ritos como simpatias e benzeções se perpetuam.

a Pesquisa - Thais Mol e Luciana Tanure desenvolvem o projeto “Simpatias da Dalva”, em BH.

Pesquisa – Thais Mol e Luciana Tanure desenvolvem o projeto “Simpatias da Dalva”, em BH.

Até por volta dos 7 anos de idade, o projetista Filipe Rodrigues Figueiredo, 25, era gago. Para solucionar o problema, seu pai recorrer a uma simpatia: deu dois dentes de alho para o menino comer e, em seguida, despejou duas garrafas d’água gelada em sua cabeça. Foi tiro e queda. “Eu brinco que ele podia ter usado só metade da receita porque hoje eu falo rápido demais”, diz Figueiredo.

Quando tinha a mesma idade, a dona de casa Serafina Terezinha Pereira, 78, mais conhecida como Dona Fininha, conta que trouxe o pai de volta do mundo dos mortos, ainda em sua cidade natal, São João Evangelista, no Vale do Rio Doce. “Ele morreu às 15h. Passamos o resto do dia preparando seu enterro e, à meia-noite, chegou um homem em nossa casa que conversou comigo e pediu pra entrar. Ele me ensinou um remédio com folha de maracujá e disse para eu dar pro meu pai por nove dias. Às 3h, ele ressuscitou e nós nunca mais vimos o tal homem, nem conseguimos saber nada sobre ele. Meu pai, por sua vez, viveu por muitos e muitos anos”, conta Dona Fininha, que ali descobriu seu dom para a cura e se tornou benzedeira.

Livro de simpatias por Dalva.

Livro de simpatias por Dalva.

Traço marcante da cultura brasileira, sobretudo da mineira, a crença nos saberes e fazeres populares de cura por meio de rituais é uma herança de nossa formação miscigenada. “Alguns estudos apontam que, no período colonial, a fusão de elementos da tradição indígena, negra e europeia deu origem a esse aspecto de nossa identidade, que também tem a ver com o fato de que o serviço de assistência à saúde era precário e não alcançava toda a população”, explica Luis Molinari Mundim, gerente de patrimônio imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). “Por isso, as simpatias, benzeções, uso de plantas e chás têm a ver, acima de tudo, com a questão do cuidado. Tudo se mistura numa tentativa de oferecer bem-estar, alívio para as pessoas”, afirma Mundim.

Por mais que a sociedade tenha se transformado muito, essas tradições vão se modificando, mas não se perdem com o passar do tempo, como esclarece Mundim. “Seus elementos fundadores permanecem nos dias atuais, como no caso das benzeções, que ainda são muito fortes no nosso país, especialmente em Minas Gerais. Mas elas vão sendo ressignificadas, não são estanques”, afirma.

Missão de vida - Dona Fininha, mãe do músico Ségio Pererê, benze há mais de 70 anos.

Missão de vida – Dona Fininha, mãe do músico Ségio Pererê, benze há mais de 70 anos.

Foi com o intuito de promover uma renovação dessas práticas, combinando a tradição oral com a cultura, a arte e a tecnologia atuais que foi criado o projeto Simpatias da Dalva. Conduzida pelas pesquisadoras belo-horizontinas Thais Mol, 39, e Luciana Tanure, 38, a iniciativa parte do material deixado por Dalva Moreira Borges (1928-1988), dona de casa mineira radicada no Rio de Janeiro que realizava práticas populares de cura e as registrava em bilhetes endereçados a seu marido e numa caderneta intitulada “Simpatias de A a Z”, que continha rituais para encontrar saúde, casamento, filhos, dinheiro, trabalho.

“Dalva era uma mulher de classe média, urbana, cosmopolita – tanto é que foi de Divinópolis para o Rio, numa época em que essa era uma cidade de ouro – vivia uma vida normal no seu apartamento, mas intimamente se valia desses processos. Suas simpatias têm mais ênfase no desejo de amor, a paixão era algo muito central em sua vida”, afirma Thais. “Nós queremos explorar essa história de que a simpatia existe nos ambientes mais diversos e trazer isso pra hoje. Numa época em que falamos tanto de empoderamento, nesses ritos em que nos apropriamos da situação e agimos com mais consciência do gesto, da palavra, do ato, do olhar, o corpo se empodera”.

No último dia 14, foi realizada uma “Ciranda de conversas sobre ritualizações no cotidiano” como parte do processo que resultará num livro, a ser lançado até o fim deste ano, como fruto da pesquisa que engloba o Simpatias da Dalva. “Queremos valorizar esse saber, que é brasileiro. E também queremos que as pessoas criem seus próprios rituais. Pode ser que muita gente não faça uma receita de simpatia inteira, mas todo mundo faz alguma coisa, seja colocar uma espada-de-são-jorge na frente de casa ou pendurar um terço no carro. Esse é o paradoxo de hoje, por mais tecnológicos que estejamos nos tornando, crenças como o budismo e a ioga se espalharam pelo mundo no século XX. Saberes ancestrais como esses se difundem em conjunto com o desenvolvimento da ciência, uma coisa não elimina a outra. Steve Jobs (1955-2011), que criou um dos produtos mais ‘avant garde’ da contemporaneidade (ele foi o fundador da Apple), era budista. Nada exclui nada”, analisa Thais.

Ainda que se transformem e se adaptem, perdurando à medida que o tempo passa, rituais como simpatias, benzeções e manipulação de ervas tendem a se tornar menos visíveis, explica Luis Molinari Mundim, gerente de patrimônio imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). “

Ainda que se transformem e se adaptem, perdurando à medida que o tempo passa, rituais como simpatias, benzeções e manipulação de ervas tendem a se tornar menos visíveis, explica Luis Molinari Mundim, gerente de patrimônio imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). “

Professor de psicologia cognitiva na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, o belo-horizontino André Souza confirma a hipótese da proponente do projeto Simpatias da Dalva. Coautor de uma pesquisa que investiga como a cognição humana funciona com relação a rituais e religiosidades, ele realizou experimentos relacionados às simpatias tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, inclusive em Belo Horizonte.

“Uma frente teórica diz que nosso sistema cognitivo está sempre buscando controle da situação e, para isso, buscamos explicações para tudo à nossa volta. Nas situações de descontrole, a probabilidade de acreditarmos na simpatia é maior porque assim as controlaríamos”, explica. “O que acontece é que a tecnologia pode justamente dar essa sensação de descontrole. Com um acesso muito grande à informação, muitas vezes ela chega até nós pouco estruturada, o que pode nos provocar insegurança e fazer com que nos agarremos a outros meios de compreensão e a superstição seria um deles”.

A pesquisa ainda demonstra que a crença em superstições e religiosidade são altamente cognitivas e todo ser humano vai apresentá-las em alguma medida. “Acreditar ou não nos rituais não é coisa de gente com pouca escolaridade ou baixo nível de conhecimento, faz parte do nosso sistema cognitivo. E se eles funcionam de fato ou não, pouco importa. O que importa é a forma como as pessoas os percebem”, acrescenta o professor.

Herança

Filho de Dona Fininha, o músico Sérgio Pererê acredita que, de alguma forma, herdou o dom da mãe. “Segui o caminho da arte, que também é um tipo de cura. O cantar, o tocar e o compor são formas de vencer, de curar”, diz. Ele acredita que enquanto a natureza resistir, os rituais de cura vão perdurar. “O que vai nos garantir a vida está na natureza, assim como a benzeção, a cura, a arte, a fé, e tudo isso é mais antigo que nós. Enquanto existir uma plantinha verde, vai existir a fé, a benzeção, os rituais, porque isso passa de geração pra geração, de modo silencioso”.

No universo de cada um 

Desde muito criança, Serafina Terezinha Pereira, 78, a Dona Fininha, percebeu que tinha uma ligação misteriosa com a natureza. “Eu falava com minha mãe que uma árvore me chamava, mas ela não acreditava. Um dia eu saí atrás dessa voz. Andei um dia inteiro e acabei chegando nessa árvore. Embaixo dela tinha uma gata bonita, da cara pintada, deitada. Quando voltei para casa soube que todos estavam atrás de mim. Me falaram que aquela gata era a onça que os lavradores estavam procurando. A partir desse dia, comecei a ser chamada para benzer”, conta.

Desde então, já são mais de sete décadas dedicadas à benzeção, tendo ajudado um homem que se arrastava a voltar a andar, uma mulher com um machucado grave na perna, e até benzido o set de filmagens da série global “Subúrbia” (2012) – do qual ela participou – e seu diretor, Luiz Fernando Carvalho, que dirige atualmente a novela “Velho Chico”. “Eu sinto e a fala vem. É uma fala completamente diferente de qualquer uma, muito suave, macia, é um tipo de segredo espiritual que você só sabe na hora de fazer a oração”, explica a benzedeira, cujo marido também tinha o dom da cura e com ele benzeu por mais de 30 anos, sem nunca aceitar pagamentos.

Dona Fininha acredita que foi Nossa Senhora do Rosário, de quem é devota fervorosa, quem lhe concedeu o dom, para ajudá-la a enfrentar as adversidades. “Ela me ajudou a salvar muitas vidas na minha terra (São João Evangelista, no Vale do Rio Doce). Eu sou muito feliz e grata por isso”, diz.

Um de seus cinco filhos, o músico Sérgio Pererê afirma que a fé transmitida pelos pais é um referencial muito grande para ele e seus irmãos. “A crença deixou de ser uma coisa relacionada à ida a uma missa ou culto e passou a ser algo presente no nosso dia a dia. Crescemos vendo a cura constantemente. O que as pessoas chamam de milagre nós víamos o tempo todo. Inclusive demorei muito tempo para saber o que era um hospital”, conta.

De uma maneira análoga, o projetista Filipe Rodrigues Figueiredo, 25, que diz ter tido sua gagueira curada por uma simpatia, também é uma pessoa aberta à fé. “Simpatia mesmo eu só lembro de ter feito mais uma, que aprendi no espiritismo. Para resolver uma desavença no trabalho, peguei um papel, escrevi o nome do colega que não gostava de mim de trás pra frente, pus dentro de uma banana caturra e levei ao congelador. Na mesma semana começamos a nos entender”, lembra. “Mas eu tenho uma espiritualidade forte, fui médium até os 17 anos, sou muito aberto à fé. Se pudesse, faria um curso para conhecer um pouco de cada religião”.

Entender o mundo

Assim como eles, as proponentes do projeto Simpatias da Dalva, Thais Mol, 39, e Luciana Tanure, 38, também têm afinidade pessoal com o universo dos rituais. “Tem a ver com meu interesse em entender como o mundo funciona. Se existe uma Lua que mexe com as marés, ela também mexe com meus fluidos, também sou tocada. Meu olhar é voltado à compreensão desses fenômenos para aí poder lidar, manipular os elementos a meu favor, saber que algo acontece e eu posso atuar ali”, afirma Thais.

Já, para Luciana, a admiração vem da tentativa de promover uma cura, um encontro, um acontecimento desejado dentro de uma realidade. “De certa forma, é lidar com o real de cada um, o íntimo, o particular, o universo mágico de cada percurso de vida. Eu gosto de ritualizar e acho que os rituais nos ensinam”, diz.

Mesmo André Souza, professor de psicologia cognitiva na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, tem esse traço forte em sua formação. “Minha mãe sempre gostou muito de simpatias. Quando eu era criança, fazia muitas. Por exemplo: dormir com um livro aberto sob o travesseiro e de camisa azul para ir bem numa prova. Mesmo depois de mais velho, quando ia ao Mineirão, eu procurava sentar sempre no mesmo lugar porque onde eu ficava determinava se meu time ia ganhar”, conta.

Por Jéssica Almeida

Fonte original da notícia: O Tempo




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Fonte original da notícia: Diário do Nordeste