Crânio encontrado no Brasil altera a história da ocupação das Américas

Análises morfológicas sugerem a ocorrência de duas ondas migratórias.

Crânio encontrado em cidade mineira contesta teoria de apenas uma migração para América do Sul - Mauricio de Paiva

Crânio encontrado em cidade mineira contesta teoria de apenas uma migração para América do Sul – Mauricio de Paiva

Um crânio encontrado no sítio arqueológico Lapa do Santo, em Lagoa Santa, Minas Gerais, pode reescrever a história da ocupação das Américas. Análises morfológicas sugerem que em vez de uma, foram ao menos duas grandes ondas migratórias que chegaram ao continente há milhares de anos. Essas populações vindas da Ásia cruzaram o estreito de Bering e desceram pela costa da América do Norte, até chegar à América do Sul.

— Quando você olha para os dados genéticos contemporâneos, a sugestão, particularmente para a América do Sul, era de uma onda de migração e que os povos indígenas sul-americanos eram todos descendentes dessa onda — disse Noreen von Cramon-Taubadel, professor de Antropologia na Universidade de Buffalo, nos EUA, e líder do estudo publicado no início do mês na revista “Science Advances”. — Mas os nossos dados sugerem que existiram ao menos duas, senão mais ondas de pessoas entrando na América do Sul.

O debate sobre o modelo de ocupação das Américas é antigo na comunidade acadêmica. Hoje, existe quase um consenso de que os primeiros humanos entraram no continente há pelo menos 15 mil anos, e dispersaram rapidamente para a América do Sul, pela costa do Pacífico. Estudos arqueológicos indicam, no entanto, a existência de uma diferenciação incomum na morfologia cranial dos povos sul-americanos, em relação a outras regiões do mundo.

Muitos estudos baseados em análises genéticas de povos nativos sul-americanos do passado e contemporâneos apoiam a tese de uma única migração para a parte Sul do continente, com a diferenciação subsequente pelo isolamento de diferentes grupos humanos. Isto porque, quando um mesmo grupo se separa em dois, que não mais se relacionam, cada um deles começa a desenvolver assinaturas genéticas únicas, e crânios diferentes — e por essa teoria todos os povos indígenas modernos da América do Sul descendem de apenas uma onda de dispersão.

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Porém, ressaltam os pesquisadores, existem poucos dados genéticos disponíveis sobre povos “paleoamericanos”, que chegaram ao continente provavelmente durante o Pleistoceno, era geológica encerrada há 12 mil anos com o fim do último período glacial. “Também é necessário notar que, apesar de todos os povos do passado terem um ancestral, nem todas as populações deixam descendentes. Então, os “paleoamericanos” não necessariamente contribuíram para a história genética dos nativos americanos contemporâneos”.

— Fazendo uma analogia com o teste de paternidade, seria bom usarmos amostras genéticas para fazer comparações, mas o DNA desses povos antigos não está disponível. Então, nós usamos a morfologia craniana — explicou o paleantropólogo brasileiro André Strauss, professor na Universidade de Tubinga, na Alemanha, e coautor do estudo. — A boa notícia é que existe uma correlação entre a morfologia craniana e o DNA.

A tese sustentada por Cramon-Taubadel, Strauss e Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio, é que uma primeira onda migratória chegou ao Sul do continente provavelmente entre 20 mil e 15 mil anos atrás, ainda no Pleistoceno, e foi extinto ou teve uma contribuição marginal para a genética dos nativos modernos. Um segundo grupo chegou depois, entre 12 mil e 10 mil anos atrás, já no Holoceno, e se estabeleceu na região dando origem aos povos indígenas encontrados pelos europeus no Novo Mundo.

Da Ásia para a América na pré-história

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— Pela morfologia, encontramos uma variedade humana muito diferente desses nativos mais recentes — disse Strauss. — O crânio que analisamos data de entre dez mil e oito mil anos. Existem indícios de que populações dessas duas ondas migratórias coexistiram, mas esse não foi o tema do estudo.

Ancestral comum fora da América

Além disso, as análises indicam que os “paleoamericanos” compartilham um ancestral comum com os nativos sul-americanos modernos fora do continente.

— Todos os seres humanos vieram para a América do Nordeste Asiático, cruzando o estreito de Bering — disse Strauss. — Essas duas populações têm a mesma origem, mas vieram em momentos diferentes.

O conflito de dados entre a morfologia e a genética alimenta o debate sobre como os primeiros humanos chegaram às Américas. O trio de pesquisadores sustenta a teoria de duas ondas migratórias, afirmando que as conclusões são similares a outras pesquisas morfológicas, mas por uma metodologia inovadora. Até então, cientistas buscavam por similaridades entre a morfologia de ossadas pré-históricas com os nativos modernos.

Cramon-Taubadel e seus colegas fizeram o caminho inverso. Eles olharam para os nativos modernos como descendentes possíveis de muitos ramos de uma árvore genealógica teórica e usaram a estatística para determinar onde a amostra melhor se encaixava. O método tem a vantagem de não predeterminar modelos de dispersão, mas considerar todos os padrões possíveis de ascendência.

— Foi um estudo de ancestralidade, como quando uma pessoa quer saber quem é seu tataravô. Mas em vez de indivíduos, nós tratamos de populações de 10 mil, 15 mil anos atrás — disse Strauss.

Crânio ainda no sítio arqueológico de Lapa do Santo. Foto: André Strauss

Crânio ainda no sítio arqueológico de Lapa do Santo. Foto: André Strauss

Por Sérgio Matsuura 

Fonte original da notícia: O Globo




Este é o rosto de uma mulher de 3.700 anos

Ela parece uma pessoa qualquer, dessas que a gente cruza na rua – mas foi enterrada na Idade do Bronze, há milhares de anos.

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Observe com atenção a mulher da foto acima. Ela poderia estar sentada do seu lado no metrô, ou passar na sua frente na rua; poderia até ser sua prima – você provavelmente não notaria nada de diferente nela. Mas essa ruiva foi enterrada há pelo menos 3.700 anos, na Escócia, e a imagem é apenas uma reconstituição digital do rosto da mulher, baseado em um crânio encontrado nos anos 80.

A dona dos ossos foi batizada de Ava, uma abreviação de Achavanich, sítio arqueológico onde ela foi descoberta. Pelo que os cientistas puderam compreender analisando o tamanho e o estado da ossada, a mulher tinha 1,67 m de altura, e algo entre 18 e 22 anos quando morreu – embora a causa da morte seja desconhecida. Ava fazia parte da cultura Beaker, uma civilização que viveu na Idade do Bronze, entre 2.900 A.C. e 1.900 A.C., e que tinha como característica a confecção de vasos campaniformes – arredondados e decorados.

A moça foi encontrada em 1987 por arqueólogos escoceses, em uma cova cavada em rocha dura – algo incomum para o povo, que geralmente enterrava os mortos na terra, com uma estaca ou uma pedra servindo de lápide. Isso deve ter dado um trabalhão e demorado muito tempo, o que indica que, de alguma forma, as pessoas daquela comunidade já sabiam que Ava estava para morrer – do contrário, não ia dar tempo de enterrá-la antes de ela começar a se decompor.

A história de Ava fica ainda mais interessante: seu crânio, diferente dos demais, é achatado na parte de trás e no topo, como se tivesse sido amassado antes do enterro. Todo esse cuidado com os restos mortais de Ava levam a acreditar que ela tenha sido alguém realmente importante para aquela cultura. Só que, com os vestígios que os cientistas têm por enquanto, é impossível descobrir por quê.

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Reconstruir o rosto de Ava deu o maior trabalho para o artista forense responsável pelo projeto, Hew Morrison, da Universidade de Dundee, no Reino Unido. Primeiro, ele aplicou uma fórmula matemática sobre o volume do crânio, para calcular o formato da mandíbula da mulher, que havia sido destruída pelo tempo.

Aí, usando um programa de computador, Morrison determinou as camadas de músculos, o que ajudou a descobrir a grossura da pele em cada ponto do rosto. A espessura dos lábios foi definida pelo tanto de esmalte nos dentes, e o formato da boca segue o da mordida – um pouquinho torta -, e o resto das feições, como as bochechas e o nariz levemente caído para a esquerda de Ava, seguiu os músculos.

Reconstruir um rosto tão antigo, porém, não é um trabalho exato: como acontece em um retrato falado, o artista tem alguma liberdade para criar em cima das informações científicas, já que nem todas as características podem ser descobertas observando os ossos. Os arqueólogos não tinham como sacar, por exemplo, qual era a cor dos olhos ou dos cabelos de Ava, e Morrison teve de adivinhar que, por ser uma mulher nórdica, as cores claras seriam mais prováveis – por causa da falta de sol.

Agora, os arqueólogos pretendem continuar estudando os ossos e a cova de Ava, para tentar descobrir mais sobre ela e seu povo. Se você quiser, pode acompanhar o trabalho dos caras pelo Facebook ou pelo blog que eles criaram – e os restos da mulher de 3.700 anos estão no museu Caithness Horizons, em Thurso, Escócia.

Por Helô D’Angelo, editado por Carol Castro

Fonte original da notícia: Super Interessante




Crânio em Minas é registro mais antigo de decapitação nas Américas

Ossos que incluíam mãos decepadas foram datados em cerca de 9.000 anos. Indivíduo provavelmente teve cabeça arrancada em ritual depois de sua morte.

O crânio decepado achado na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. (Foto: Danilo Bernardo)

O crânio decepado achado na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. (Foto: Danilo Bernardo)

Um grupo de arqueólogos da USP encontrou numa caverna na região de Lagoa Santa (MG) sinais do mais antigo caso de decapitação já registrado nas Américas.

As evidências do procedimento estão num crânio, datado em 9.000 anos, achado enterrado sob uma laje de calcário na gruta de Lapa do Santo. Além de ter a cabeça cortada, as mãos do indivíduo haviam sido decepadas.

Lagoa Santa é um dos sítios arqueológicos mais importantes das Américas e local onde foi encontrado o fóssil de Luzia, remanescente humano mais antigos já achado no Brasil, com 11.500 anos.

O crânio decepado havia sido retirado do local em 2007, junto com outros coletados na região, mas só após passar por preparação e análise detalhada os cientistas conseguiram elucidar o procedimento ao qual o indivíduo foi submetido. A descoberta está descrita em um estudo publicado hoje pela revista científica “PLoS One”.

Corpo ausente
“Na época, gente estava começando a escavar, encontramos o crânio, e estávamos esperando encontrar o resto do corpo. Mas continuamos escavando, e nada de corpo”, contou Strauss ao G1. “Mas o processo é lento. A gente leva cerca de 20 dias para fazer uma escavação como essa, e levamos quatro dias até entender o que estava acontecendo. A única explicação para aquilo que a gente estava vendo era um caso de decapitação.”

Não está claro o que ocorreu, mas os cientistas afirmam que todos os indícios apontam para a hipótese de que o homem foi decapitado depois de morto, num ritual de sepultamento. O indivíduo, além disso, parecia pertencer ao mesmo grupo que habitava o local. As hipóteses contrariam aquilo que seria a suspeita mais comum, de que a cabeça era usada como um troféu de guerra, para exibir inimigos capturados.

O crânio estava a 55 cm da superfície, com as mãos amputadas sobre a face dispostas em sentidos opostos. Marcas de corte nas vértebras e na mandíbula, além do sumiço do osso hioide do pescoço indicaram que se tratava de uma decapitação.

O cientista André Strauss. (Foto: Adriano Gambarini)

O cientista André Strauss. (Foto: Adriano Gambarini)

O trabalho, coordenado pelo bioantropólogo brasileiro André Strauss, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolucionária, da Alemanha, foi liderado no Brasil pelo grupo de Walter Neves, da USP.

Antes do ritual descoberto pelo grupo em Lapa do Santo, o caso mais antigo de decapitação que se conhecia no continente era de povos dos Andes peruanos, cerca de 4.000 anos atrás.

A demora entre a descoberta do esqueleto e a publicação científica da descoberta — um intervalo de sete anos — não foi incomum para um trabalho desta magnitude, diz Strauss.

Equipamentos dos bioantropólogos na boca da gruta de Lapa do Santo. (Foto: Andersen Lyrio)

Equipamentos dos bioantropólogos na boca da gruta de Lapa do Santo. (Foto: Andersen Lyrio)

“Só para fazer a limpeza, remontagem e identificação dos esqueletos levamos um ano e meio para cada um. Depois tivemos que fazer os trabalhos de datação, com vários especialistas envolvidos”, conta. “Apesar de o tema ser de tabloide, o estudo foi um trabalho antropologicamente cuidadoso.”

Por Rafael Garcia

Fonte original da notícia: G1, em São Paulo




Após 70 anos ‘engavetado’, parente distante do jacaré é descoberto no Rio

Cranio do crocodilomorfo Sahitisuchus fluminensis, ancestral do jacaré. Divulgação

Cranio do crocodilomorfo Sahitisuchus fluminensis, ancestral do jacaré. Divulgação

Depois de mais de 70 anos armazenado em museu do Rio por falta de incentivo do governo, fóssil inédito de “parente distante de jacaré” é identificado pela primeira vez no Brasil. O crânio do animal foi encontrado numa pedreira de São José, em Itaboraí, município fluminense, entre as décadas de 40 e 60, mas só há um ano pesquisadores receberam financiamento para o estudo.

Segundo o paleontólogo do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Alexander Kellner, a descoberta é importante para a ciência mundial porque a nova espécie sobreviveu ao período de extinção da maior parte dos dinossauros e dos crocodilomorfos [grupos antigos de répteis] – há 65 milhões de anos. Batizado de Sahitisuchus fluminensis, que significa o crocodilo guerreiro do Rio de Janeiro, o fóssil é o mais antigo dos répteis encontrados até hoje no Estado.

“Através dessa descoberta a gente consegue entender quais foram e como eram esses animais que sobreviveram à grande extinção dos dinossauros. Agora, saber as características desse animal é um dos grandes desafios da paleontologia”, disse Kellner, em entrevista à imprensa na manhã desta terça-feira, no Museu de Ciências da Terra, na Urca, zona sul carioca, onde o fóssil estava armazenado.

A pesquisa apontou que o animal era um grande predador carnívoro, tinha dentes afiados, pertencia a um grupo menor de répteis chamado de Sebecidae, que já possui outros representantes da mesma idade na Argentina e Bolívia, e ocupava o topo da cadeia alimentar na região de Itaboraí. Pesquisadores explicam que a cidade fluminense é conhecida como um dos principais depósitos a nível mundial de fósseis de mamíferos.

O crânio encontrado mede 32 centímetros. Os pesquisadores estimam que o animal tivesse cerca de dois metros de comprimento. A causa de extinção dele, no entanto, ainda é um mistério.
Desenvolvido nos laboratórios do Museu Nacional da UFRJ, o estudo foi financiado pela Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) com investimentos de cerca de R$ 8 milhões.

De acordo com informações de funcionários do Museu de Ciências da Terra, ainda há centenas de fósseis armazenados em salas do espaço no aguardo por incentivos do governo. Especialistas dizem, porém, que fósseis tão completos como o do Sahitisuchus, composto por crânio, mandíbula e vértebras do pescoço, são extremamente raros, e não há mais nenhum desse tipo guardado com eles.

Concepção artística do Sahitisuchus fluminensis, um dos crocodilomorfos mais preservados do mundo. Divulgação

Concepção artística do Sahitisuchus fluminensis, um dos crocodilomorfos mais preservados do mundo. Divulgação

O resultado da pesquisa desenvolvida por Kellner, André Pinheiro, da UERJ (Universidade Estadual do Rio), e Diogenes de Almeida Campos, do Museu de Ciências da Terra, foi publicado na última edição da revista científica “PLoS One’. Por Diana Brito

Fonte: Folha de S. Paulo




Um rosto para a múmia

Pesquisador e artista gráfico reconstituem digitalmente em 3D o crânio e as feições da múmia Tothmea. O trabalho, feito com técnica inédita, instiga o interesse do público pela história da jovem egípcia, exposta em museu curitibano.

Brasileiros usaram técnica inédita para reconstruir o rosto da múmia egípcia Tothmea. (foto: Cícero Moraes)

Expostas nos museus, é difícil de imaginar que um dia as múmias já foram seres humanos. Por mais preservadas que estejam, o aspecto cadavérico e o corpo muitas vezes encoberto por bandagens lembram mais monstros de filmes de terror. Para mudar essa ideia, pesquisadores investem na reconstrução facial das múmias. Aqui no Brasil, ganhamos mais uma, a da múmia egípcia Tothmea.

A múmia feminina, que está exposta, desde 1995, no Museu Egípcio da Ordem Rosacruz, em Curitiba, teve o rosto recriado digitalmente em 3D pelo arqueólogo Moacir Santos, do Campo Universitário Campos de Andrade, e o designer Cícero Moraes.

Datada do século 6 a.C., Tothmea foi encontrada em 1881 junto com outras 38 múmias, entre as quais Seti I, Ramsés III e a Rainha Nefertari. Antes de chegar ao Brasil, passou pelas mãos de diferentes instituições dos Estados Unidos. Quando Santos se debruçou para estudá-la, a múmia já não tinha a maior parte das suas bandagens e estava com os ossos do rosto quebrados.

Para fazer a reconstituição facial em 3D, o pesquisador teve que recompor os ossos da face, juntando e colando-os como num quebra-cabeça. Normalmente, nas reconstituições feitas fora do país, são usadas imagens de tomografia para gerar um modelo tridimensional do esqueleto, que serve como base para recriar a aparência externa da múmia.

Arqueólogo restaura os ossos do rosto da múmia egípcia Tothmea. (Foto: Liliane Cristina Coelho)

Mas as imagens de tomografia de Tothmea disponíveis tinham sido feitas antes de os ossos do rosto serem restaurados, em 1999, e não tinham o detalhamento necessário. “Tivemos que usar nossa criatividade e improvisar”, diz o designer Cícero Moraes.

Para preencher as lacunas, os pesquisadores tiraram fotografias de diferentes ângulos do crânio de Tothmea e as usaram para gerar uma figura tridimensional com um software livre. Como a múmia ainda tem algumas bandagens cobrindo parte do crânio, os pesquisadores usaram também as imagens de tomografia que tinham para determinar o contorno dos ossos.

Com a forma de todo o crânio desvendada, os pesquisadores aplicaram à anatomia óssea cálculos já estabelecidos para recompor os relevos faciais de pessoas de etnias africanas. Assim obtiveram uma imagem tridimensional de toda a cabeça da múmia, levando em consideração os músculos, a camada de gordura e a pele.

“Com base em alguns pontos cranianos, é possível calcular certos aspectos da face, como a projeção do nariz”, explica Santos. “Outras características, como a forma e a distribuição dos dentes, nos permitem saber o tamanho aproximado da boca e dos lábios, por exemplo.”

Assim como muitos egípcios, Tothmea tinha a cabeça raspada e provavelmente usava uma peruca no seu dia a dia. Para deixá-la mais parecida com a aparência que devia ter em vida, os pesquisadores inseriram na reconstituição uma peruca como as usadas na época e um colar, também baseado no tipo de joia do período. “A reconstituição é a mais fidedigna possível, baseada nos dados materiais que temos e na literatura científica, até mesmo esses detalhes de acessórios foram inseridos com pesquisa histórica”, diz Santos.

Quem foi Tothmea?

A vida de Tothmea não está totalmente esclarecida pelos pesquisadores, tampouco a causa de sua morte. Pela análise anatômica de seus ossos e pela observação do nível de desgaste de seus dentes, Santos calcula que ela tenha morrido por volta dos 25 anos de idade. Pelas características de seu embalsamamento e pelos registros históricos de sua descoberta, o pesquisador também estima que a jovem tenha vivido provavelmente no século 6 a.C., no chamado período Intermediário egípcio.

“Não sabemos muito sobre sua vida, até mesmo seu nome verdadeiro não é conhecido”, diz o arqueólogo. “Ela recebeu o apelido de ‘Tothmea’ de um de seus donos, o senhor Farrar, em 1888, como homenagem aos faraós Tothmés que governaram o Egito durante a 18ª dinastia, entre os anos de 1504 e 1425 a.C. Ainda assim, ela é uma das múmias mais bem documentadas que temos no Brasil.”

O pesquisador, que estudou a fundo as documentações existentes sobre a múmia, conta que reportagens de jornais da época em que foi encontrada a descreviam como uma sacerdotisa de Isis. Mas ele ressalta que a informação não pode ser tomada ao pé da letra, pois, na época que Tothmea viveu, já não existiam mais sacerdotisas egípcias. “Existe a possibilidade de que ela tenha sido cantora ou musicista de um templo egípcio, mas para ter certeza precisaríamos das inscrições de seu caixão, que já se perdeu há muito tempo.”

Mesmo sem muitos detalhes sobre a vida da múmia, Santos acredita que a reconstituição digital tem instigado o interesse do público por sua história. “Antes da reconstrução, as pessoas olhavam para Tothmea apenas como uma múmia”, diz. “Agora conseguimos com que elas vejam que ela já foi uma pessoa um dia, que teve uma vida. Conseguimos humanizá-la e com isso torná-la mais próxima dos visitantes.” Por Sofia Moutinho

Fonte: Ciência Hoje




RS – Candelariense de milhões de anos

Pesquisadores descobrem pedaço do crânio do dicinodonte, herbívoro do período Triássico.

A descoberta de fragmentos do crânio de um dicinodonte – um ancestral dos mamíferos de mais de 220 milhões de anos – acrescenta mais um fóssil para a lista de Candelária. A cidade do Vale do Rio Pardo tem 27 pontos onde foram encontrados fósseis de 30 espécimes de animais do período Triássico.

Na terça-feira, uma equipe do Projeto de Prospecção e Coleta de Vertebrados Fósseis da UFRGS fez o trabalho de retirada do fóssil de um bloco de rocha sedimentar. O fragmento do dicinodonte foi localizado pelo curador do Museu Municipal Aristídes, Carlos Rodrigues, e pelo voluntário do órgão Belarmino Steffanello, na localidade de Botucaraí, às margens da rodovia Santa Cruz do Sul-Candelária (RSC-287).

O animal foi identificado como Jachaleria candelariensis por uma equipe da universidade. Herbívoro, o dicinodonte podia pesar até 300 quilos. A peça foi levada para o museu do município, onde será feito o trabalho de remoção de rochas para expor toda a superfície do osso.

A dupla formada por Steffanello e Rodrigues já tem um longo caminho na descoberta de fósseis. Paleontólogos amadores e movidos pela preservação do patrimônio, promovem expedições de busca de novas descobertas em Candelária.

Desde a união da dupla, em pouco mais de uma década o número de afloramentos fossilíferos (nome dado aos lugares onde os fósseis são encontrados) passou de 12 para 27 no município. Com isso, de acordo com Rodrigues, o acervo do Museu Municipal Aristídes Carlos Rodrigues tornou-se um dos mais importante do país sobre o período Triássico.

Projeto conta com 15 voluntários

Rodrigues e Steffanello fazem expedições quinzenais a regiões como Botucaraí, onde fóssil foi achado.

Pelo menos duas vezes por mês Belarmino Steffanello e Carlos Rodrigues promovem expedições pelo interior de Candelária. O trabalho dos dois amigos ganha reconhecimento quando mais pessoas se interessam pela preservação e busca de fósseis. Neste ano foi criada a Malha de Proteção do Patrimônio Cultural, com 15 voluntários.

O trabalho rendeu ao museu parcerias importantes com universidades do Estado, como a UFRGS. Para Cesar Leandro Schultz, professor de paleontologia da instituição, o trabalho da dupla potencializa a quantidade de material encontrado.

– Depois que começamos o trabalho, nenhum fóssil mais saiu de Candelária. Claro, eles saem para estudo nas universidades, mas retornam para o museu. Antes disso, muita coisa foi levada embora, inclusive para fora do país – conta Rodrigues.

De coloração avermelhada, o solo característico do período Triássico se estende no Estado desde Bom Retiro do Sul, no Vale do Taquari, até a região de Mata na Região Central.

O dicinodonte

– Nome Cientifico: Jachaleria candelariensis.
– É ancestral dos mamíferos. Herbívoro de mais de 3m de comprimento, pesava até 300kg.
– Vivia nas proximidades de cursos d’água e convivia com secas e inundações sazonais.

Fonte original da notícia




MP manda proteger fósseis em área de plantação de cana

O Ministério Público Federal (MPF) deu cinco dias de prazo para que técnicos do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) visitem, cerquem e façam a segurança de sítios paleontológicos da região Noroeste do Estado de São Paulo que estão sendo ameaçados por plantações de cana-de-açúcar.

O prazo foi dado pelo procurador da República de Jales, Thiago Lacerda Nobre, que abriu procedimento investigatório para levantar os efeitos nocivos da monocultura da cana nessas áreas.

Os sítios ficam nos municípios de General Salgado, Auriflama e São João de Iracema, onde em 2001 pesquisadores encontraram o crânio do Baurusuchus salgadoensis, um crocodilo que viveu há 90 milhões de anos na região e que agora, reconstituído inteiramente, faz parte de um dos mais importantes acervos da paleontologia brasileira.

De acordo com Nobre, o cultivo da cana estaria colocando em risco os cemitérios de fósseis e comprometendo novas descobertas. Em alguns casos, as plantações estão a menos de 50 metros de distância dos cemitérios e os fósseis, enterrados a 30 centímetros de profundidade.

Com isso, segundo os pesquisadores, o manejo do solo para preparação e plantio da cana e o tráfego de máquinas pesadas, podem destruir os fósseis e mudar o trajeto das águas de chuva, causando erosões nos jazigos. “Além disso, há informações de que fósseis estariam sendo retirados por curiosos”, disse.

Além de pedir que as medidas de proteção sejam tomadas de forma imediata, Nobre também acionou as prefeituras dos três municípios para saber quais ações elas tomaram para proteger os sítios e pediu ao Iphan um laudo sobre os fósseis existentes nessas áreas.

“A proteção do patrimônio arqueológico deve ser feito pelas três esferas, União, Estado e municípios”, disse.
Nobre disse que se as medidas solicitadas não forem tomadas dentro do prazo estipulado, pretende abrir inquérito civil e firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para que as áreas sejam preservadas. Segundo ele, embora sejam particulares, as áreas podem ser desapropriadas ou tombadas para preservação do patrimônio arqueológico.