Congonhas (MG) – Restaurada, igreja barroca de Alto Maranhão deve ser reaberta em agosto

Templo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) foi interditado em 2009 por questão de segurança.

Francisco Trindade agradece a restauração da Igreja de Nossa Senhora de Ajuda, apoiada por escoras há oito anos e agora quase pronta para exibir belezas como o altar dedicado à padroeira e pinturas do teto. (Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Os braços se abrem de satisfação, os olhos brilham e, num momento de contemplação, poucas palavras resumem tanta alegria. Depois, de joelhos, o aposentado Francisco Pereira Trindade, de 68 anos, reverencia a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, marco religioso e cultural do distrito de Alto Maranhão, em Congonhas, na Região Central. Há pouco mais de oito anos, diante do templo barroco então escorado com madeira, conforme registrou o Estado de Minas, o sentimento do ex-coordenador do Conselho Comunitário de Pastoral era bem diferente: preocupação com a segurança dos fiéis, medo de desabamento da construção e tristeza com uma possível perda do monumento do século 18. Agora, com a restauração em fase final, Francisco é só elogios. “Melhorou muito, né? Está mais perto do original. A obra redescobriu as maravilhas de nossa igreja.”

Interditado em 2009 por questão de segurança, o templo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) há 39 anos e distante sete quilômetros do Centro da cidade deverá reabrir as portas em agosto, antes do dia 15, quando milhares de pessoas participam da festa da padroeira. Desde aquele ano, ouviu-se um grande clamor dos moradores de Alto Maranhão para o início dos serviços, que foi executado numa parceria entre prefeitura local e Iepha ao custo de R$ 2 milhões. Segundo o presidente do Conselho de Patrimônio de Congonhas, Maurício Geraldo Vieira, havia realmente risco de desabamento devido à movimentação das paredes. Para resolver os sérios problemas, a prefeitura, inicialmente, trocou toda a madeira do telhado, refazendo a cobertura, enquanto o Iepha se encarregou do trabalho da drenagem no entorno.

“A situação era de muita fragilidade. Mesmo com a execução dos serviços, o movimento das paredes continuou, exigindo estudos e diagnóstico feitos por especialistas. O laudo mostrou a falta de massa nas paredes e na base da igreja, o que demandou o preenchimento desses vazios com microcimento injetado em alta pressão”, afirma Maurício. Na sequência, foram conduzidos os projetos de recuperação do piso, da parte elétrica, de luminotécnica e outro contra descargas elétricas. “Só está faltando o de pânico-incêndio, em fase de conclusão para ser encaminhado à aprovação dos bombeiros”, acrescenta.

Entusiasmado com o resultado, embora de olho em todos os detalhes, Francisco chama a atenção para dois pontos de infiltração que não foram resolvidos e também para a quantidade de morcegos que insistem em visitar a nave. Maurício explica que, antes da entrega do prédio à comunidade, será passado um pente-fino no interior da igreja, de forma a deixar tudo perfeito. Francisco faz questão de destacar o trabalho do Ministério Público, por meio dos promotores de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda, Vinícius Alcântara Galvão e Karina Arca, na investigação das causas de abalo e trincas na igreja, creditados, em 2009, a explosões numa mineradora, o que foi descartado.

Forro.
Enquanto o trabalho de engenharia era realizado, a equipe de uma empresa de conservação e restauro contratada pelo Iepha se ocupou da recuperação do forro, transformando o consistório (sala de reuniões) da igreja em ateliê. Também conforme documentou o EM, estavam ali 21 peças ou caixotões, medindo 103cm x 84cm, com pinturas representando a Ladainha de Nossa Senhora; depois, mais três foram recuperados na sede do Iepha em BH incluídos no conjunto de 25 caixotões. Apenas um não foi recolocado, devido à perda avançada na policromia e, por isso, os restauradores optaram por deixar o espaço com a madeira nua.

Olhando o forro, Francisco se recorda do dia em que um ornamento de madeira se desprendeu e só não foi ao chão porque ficou seguro pela mão de um anjo de trombeta e da primeira reunião comunitária, em 2008, pedindo socorro. “Estava tudo comido de cupim.” Ao lado, a pesquisadora e estudante da história da arte, Maria da Paz Pinto, também natural do distrito de Alto Maranhão e mergulhada em levantamentos históricos sobre o templo, ressalta a importância dele para a comunidade. “Aqui há uma grande devoção a Nossa Senhora da Ajuda, e não uma simples tradição. Esta igreja é muito preciosa no conjunto da arquitetura colonial religiosa mineira”, observa a pesquisadora, envolvida num documentário sobre o distrito e seu monumento principal. “Este lugar é muito antigo, um dos primeiros arraiais de Minas. Um mapa de 1717 já mostrava o local, que tinha o nome de Redondo.”

Memorial. Maria da Paz adianta que um dos objetivos da comunidade é criar um memorial no espaço do consistório, com exposição de oratórios, casulas (vestimenta sacerdotal), alfaias (paramentos e adornos de igreja), ex-votos (objeto para reconhecimento de graça alcançada), como quadros – “já temos dois, datados de 1746 e 1757” – e outras peças que pertenceram às irmandades religiosas. Num canto, a pesquisadora mostra um arcaz (móvel com gavetões), que será restaurado. “O patrimônio mineiro é precioso. “Minas consagrou o Brasil na história da arte sacra”, resume, destacando o empenho na empreitada do titular da paróquia de São José Operário, padre Eduardo Bastos.

Filha da organista Maria Lina de Rezende, que tocava na igreja na década de 1930, e irmã de Maria da Paz, a ministra da eucaristia Maria da Ajuda Pinto Gomes, de 69, conta que recebeu este nome em homenagem à padroeira de Alto Maranhão. “Alcancei muitas graças”, destaca a devota, que não esconde a vontade de ver, o mais rápido possível, a igreja cheia de gente, principalmente nos domingos. Enquanto esse grande dia não chega, os católicos assistem às missas e participam das demais celebrações em um salão do lado da igreja, que é vinculada à Paróquia de São José Operário. Na mesa do altar da igreja, as irmãs mostram a imagem do Cristo Crucificado, que tem articulação nos braços e pode ser visto após a retirada de duas portinholas.

O prefeito de Congonhas, José de Freitas Cordeiro (Zelinho), se declara emocionado “por estarmos perto do dia da reabertura da igreja, que compõe nosso rico patrimônio artístico, histórico e arquitetônico e que tem grande importância devocional”. E mais: “A localidade merece atenção por ser cortada pelo Caminho Velho da Estrada Real”. Já a diretora de Proteção e Memória do Iepha, Françoise Jean de Oliveira Souza, explica que o templo erguido em meados do século 18 é um importante exemplar remanescente da arquitetura religiosa do período colonial. “A edificação apresenta, interna e externamente, os elementos típicos dos templos mineiros setecentistas. Além disto, a capela corresponde a um importante registro histórico do período da exploração do ouro em Minas. Implantada em posição privilegiada, situa-se em um platô de onde se tem uma bela visão da paisagem local, integrando-se harmoniosamente a seu entorno, que guarda características arquitetônicas dos arraiais de mineração”.

O sexo dos anjos

Um detalhe curioso chama a atenção nos altares laterais e colaterais da Igreja Nossa Senhora da Ajuda, no distrito de Alto Maranhão, em Congonhas. Os famosos anjinhos barrocos têm genitália, contrariando o ditado de que eles não têm sexo. Algumas esculturas são femininas, outras, masculinas (foto), embora a parte íntima de um deles (de madeira) tenha sido quebrada. “São chamados de anjos atlantes ou simplesmente atlantes, pois sustentam as colunas. Não é muito comum ver dessa forma nas igrejas mineiras”, observa o diretor de Patrimônio de Congonhas, Luciomar Sebastião de Jesus. Triste é que as imagens dos altares foram roubadas há muitos anos e não recuperadas: Santo Antônio, Nossa Senhora do Rosário, Santana Mestra, São Benedito, Santa Efigênia e São Domingos. No altar-mor, fica a réplica da padroeira e a original, muito bem guardada.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Belo Horizonte (MG) – Edifício Niemeyer passa por reformas depois de 20 anos

Um dos ícones do conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade e de Belo Horizonte, edifício das inconfundíveis curvas volta a passar por reforma.

Depois de anos esperando por patrocínio, moradores decidiram bancar reforma emergencial, mas não perdem a esperança de encontrar ajuda. (Foto: Leandro Couri/EM/DA Press)

Um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte, desenhado pelo grande artista da arquitetura brasileira Oscar Niemeyer, finalmente começou a ter a fachada restaurada. A obra modernista com marquises em ondas que remetem a montanhas mineiras – um dos ícones do conjunto arquitetônico e paisagístico da Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul da capital mineira –, pedia socorro para corrigir os estragos feitos pelo tempo há pelo menos cinco anos. Após uma longa espera por patrocínio, os moradores se cansaram e decidiram desembolsar a verba do próprio condomínio para começar a limpeza da fachada e voltar a exibi-la como o modelo original.

Tombado como patrimônio histórico nos níveis municipal, estadual e federal, o edifício foi construído no início dos anos 1950, depois da entrega à cidade do complexo da Pampulha, também de autoria de Niemeyer. Formado por 22 apartamentos, o edifício teve os primeiros dos problemas atuais detectados em 2011. Na época, a obra resultou em um orçamento caro, inacessível aos condôminos, em torno de R$ 1 milhão. A maratona teve início depois que um projeto foi elaborado e enviado ao Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de BH, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Em 2012, o projeto de restauração das fachadas e áreas comuns do Edifício Niemeyer foi aprovado pelo Iepha e também pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte, no qual o instituto tem assento. Após a aprovação, o documento foi encaminhado ao Ministério da Cultura, para que o condomínio pudesse se candidatar a benefício da Lei Rouanet e procurar um patrocinador na iniciativa privada.

Reinaldo da Matta Machado, síndico do edifício, conta que o pedido foi deferido em Brasília, mas não apareceu investidor interessado. Os moradores se cansaram de esperar e decidiram arcar com os custos com o caixa do próprio condomínio, aprovando o orçamento de R$ 450 mil e iniciando a restauração neste mês. “A maior dificuldade foi eu mostrar aos condôminos que o sonho do patrocínio via Lei Rouanet não iria se concretizar, assim consegui convencer todos que nós mesmos teríamos de resolver o problema da fachada”, afirma. Para o síncido, nenhum interessado apareceu por causa da crise econômica do país. “O projeto inicial incluía uma reforma mais completa, por exemplo, com a troca das janelas. Mas, no orçamento levantado na época seríamos incapazes de arcar sem patrocínio. Quando percebemos que a situação só piorava e nenhuma verba seria incluída, decidimos fazer uma restauração com as questões mais urgentes”, afirmou Reinaldo.

O síndico explica que se trata de uma manutenção geral da fachada, mantendo a originalidade do prédio. “O projeto engloba lavar o prédio, recolocar pastilhas e ladrilhos hidráulicos e acabar com os pedaços de fachada que caem do edifício. Havia o risco, até mesmo, de queda de pequenos fragmentos em cima de um pedestre”, contou o administrador. As obras começaram neste mês e tiveram como ponto de partida a retirada de partes soltas. O síndico contou que última recuperação havia ocorrido pelo menos 20 anos atrás. A obra atual deve levar de 10 a 12 meses para ser finalizada.

O morador Marcos Neves, de 66 anos, que vive no prédio desde a década de 1960, conta que a restauração era um desejo de todos os condôminos e comemorou o início da obra. “Essa reforma é muito importante. Concordo com a condição de manter detalhes originais, pois o prédio é de BH. Vemos o Edifício Niemeyer em cartões-postais, catálogos, cartões de ônibus… Mas não tivemos nenhuma ajuda. É tudo do nosso bolso, e não vai sair barato não”, disse o morador. Com orgulho, o integrante da terceira família a se mudar para o prédio diz: “É uma obra tão bonita, que temos que preservá-la para a cidade”.

Um tributo às linhas curvas

Oscar Niemeyer (1907-2012) nasceu no Rio de Janeiro, mas foi em Belo Horizonte, especialmente na Pampulha, que fez seus primeiros projetos de repercussão internacional. Entre 1942 e 1944, o então prefeito Juscelino Kubitschek o convidou para projetar o conjunto da Pampulha. Dez anos depois, o arquiteto projetou o famoso Edifício Niemeyer, localizado na Praça da Liberdade, Região Centro-Sul de BH. As montanhas mineiras foram a inspiração para as curvas do edifício, uma arquitetura considerada avançada para a época. Entrou para a história uma das frases de Niemeyer que resumem os traços de sua obra: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”. O Edifício Niemeyer faz parte do conjunto arquitetônico e paisagístico da Praça da Liberdade, protegido por tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) desde 1977, e integra o Conjunto da Obra de Oscar Niemeyer, que se encontra com processo aberto para proteção na esfera estadual.

Por Larissa Ricci

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Iepha-MG conclui obras de preservação do patrimônio cultural em Brumal, distrito de Santa Bárbara

Termo de Ajustamento de Conduta garantiu a recuperação de fachadas do núcleo histórico e de importante igreja tombada.

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O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) finalizou as obras de restauração e reforma da Capela do Senhor dos Passos, em Brumal, distrito de Santa Bárbara, incluindo o adro, o cruzeiro, a imagem do Senhor dos Passos e o sacrário. Foram também recuperadas as fachadas de treze edificações situadas na Rua Principal e na Praça Santo Amaro. O município faz parte do território Metropolitano do estado.

Totalizando o valor de R$637.243,67, o recurso investido veio de um Termo de Compromisso firmado com o Ministério Público de Minas Gerais. A recuperação dos bens culturais teve o acompanhamento técnico do Iepha-MG durante todo o processo, que contou com a colaboração e apoio da comunidade local. A restauração da imagem do Senhor dos Passos, datada do século 19, teve sua conclusão no final de 2016.

Para a presidente do Iepha-MG, Michele Arroyo, a conclusão das obras em Brumal reforça ainda mais o compromisso do Governo de Estado de Minas Gerais de preservar o patrimônio cultural dos mineiros. “Minas Gerais possui um acervo cultural muito rico, presente na memória das pessoas, por isso precisamos concentrar os nossos esforços na preservação desses bens históricos”, ressalta a presidente.

Núcleo histórico de Brumal

A origem do município de Santa Bárbara está relacionada à exploração de ouro, no início do século 18, com o descobrimento de minas pelo bandeirante Antônio da Silva Bueno, o que impulsionou o povoamento da região. Embora as minas de ouro do arraial tenham inicialmente se apresentado pobres, o povoado de Brumal consolidou-se na primeira metade do século XVIII, tendo a Capela do Senhor dos Passos sido erguida no século 19.

Em fevereiro de 1831, Brumal recebeu a visita ilustre de Dom Pedro I e da Imperatriz D. Amélia, que, a caminho do Santuário do Caraça, pernoitaram no arraial. No ano de 1881, foi a vez de Dom Pedro II visitar Brumal. A proteção do Centro Histórico de Brumal ocorreu em abril de 1989, por meio do seu tombamento estadual.

Fonte original da notícia: IEPHA




Centro histórico de Perdões poderá se tornar patrimônio de Minas Gerais

Cidade possui casarões e até igrejas com mais de 200 anos de existência. Moradores querem preservação, mas se preocupam com futuro delas.

Casarões históricos de Perdões podem se tornar patrimônio do Estado. (Foto: Reprodução EPTV)

Casarões históricos de Perdões podem se tornar patrimônio do Estado. (Foto: Reprodução EPTV)

O Centro de Perdões (MG) pode se tornar, em breve, patrimônio protegido do Estado de Minas Gerais. O Conselho Estadual de Proteção abriu um processo de estudo para o tombamento do centro histórico do município, que possui casarões e até igrejas com mais de 200 anos de existência.

O que não falta é história nas construções que fazem parte do centro. O prédio onde hoje funciona o museu municipal e também uma rádio, já foi usado como fórum e até como a cadeia da cidade.

“É bem estranho, a gente chega aqui de manhã, o trabalho começa 5h, por saber que aqui já foi cadeia, a gente fica assim.. mas já acostumou também, já há 17 anos que a gente está trabalhando da emissora e pra gente é um privilégio estar trabalhando na memória da cidade, é um prédio que tem uma estrutura neoclássica, é um prédio muito bonito”, disse o radialista Rodrigo Fidélis.

Construções que, assim como na maioria das cidades, foram surgindo ao redor de igrejas. Uma delas fica no entorno da matriz do Senhor Bom Jesus de Perdões. Um prédio de 1790, que já passou por alterações, mas foi restaurado para recuperar as características originais.

Pelo menos duas décadas antes, os moradores viram surgir a igrejinha do Rosário. Na época, a então matriz de Perdões já chamava a atenção pelo estilo jesuítico.

“Nós tínhamos uma torre aqui na lateral da igreja, uma torre que determinava que essa igreja foi construída no estilo jesuítico, na última reforma descobrimos isso e todo mundo admira a igreja, todo mundo quer estar presente nela porque ela é pequenininha, aconchegante e isso nos faz querer participar dela, estar com ela”, disse o produtor cultural Bruno Costa.

Perdões possui casarões e até igrejas com mais de 200 anos de existência. (Foto: Reprodução EPTV)

Perdões possui casarões e até igrejas com mais de 200 anos de existência. (Foto: Reprodução EPTV)

Para proteger essas igrejas, os casarões e até imagens sacras, o município já fez um tombamento, em 2003, de 12 bens públicos e particulares. Mas agora o Conselho Estadual de Patrimônio Cultural (Conep) também está fazendo um estudo para avaliar a necessidade do tombamento pelo estado não só desses bens, mas de todo o centro histórico da cidade.

“O histórico percebeu que Perdões tem um acervo cultural muito grande e importante, e eles decidiram fazer esse estudo de um possível tombamento do centro histórico, o que para nós é muito importante, a gente fica muito feliz com essa notificação. O estado está reconhecendo que a cidade tem um valor histórico interessante”, disse o chefe de sessão do patrimônio histórico da cidade, Amauri Donizetti Leite.

A abertura desse estudo já foi publicada no Diário Oficial de Minas Gerais. Desde então, qualquer alteração nos bens tem que ser informada ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, o Iepha. Entre os moradores, o tombamento divide opiniões. “O Estado que tombou passa a ter direito na casa e os que são herdeiros como ficam?”, perguntou a aposentada Iracema Barbosa Pinheiro.

Quem já mora em uma dessas casas há pelo menos quatro gerações, quer manter a estrutura do mesmo jeito em que ela se encontra.

“Essa casa foi construída pelo meu bisavô, Coronel Joaquim Francisco, que era da Guarda Nacional de Dom Pedro II. Dele passou para minha avó, da minha avó passou para minhas tias e das minhas tias passou para mim, eu já sou a quarta geração que estou com a casa. A preservação é importante porque é a memória da cidade, um povo sem memória não existe”, define a aposentada Olinda Teixeira Macêdo.

Fonte original da notícia: G1 Sul de Minas




Centro Histórico de Grão Mogol (MG) é tombado pelo patrimônio estadual

Título encerra uma década de espera e torcida dos habitantes de um dos municípios mais antigos da Região Norte de Minas.

Iepha/MG - Divulgação

Iepha/MG – Divulgação

Depois de uma espera de 10 anos, os moradores de Grão Mogol, uma das cidades mais antigas do Norte do estado, veem o núcleo histórico local ser tombado pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais (Conep). Em reunião na terça-feira, na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha), os conselheiros aprovaram o título por unanimidade, garantindo proteção para os bens do município, cuja primeira povoação surgiu no fim do século 18. Agora, já são 11 localidades mineiras com o tombamento estadual.

Durante a reunião, o secretário de estado da Cultura e presidente do Conep, Angelo Oswaldo, destacou a importância do tombamento do núcleo histórico para os mineiros. “Grão Mogol é uma significativa cidade histórica, com valores patrimoniais e culturais muito característicos da região mineradora, tornando-se um dos pontos importantes de exploração do diamante. O município desenvolveu um processo sociocultural de grande significado, que é reconhecido agora como patrimônio de todos os mineiros”, disse. Ele acrescentou que o reconhecimento do Centro Histórico de Grão Mogol como bem cultural de Minas “deve ser recebido com muita alegria por toda comunidade”.

Já a presidente do Iepha-MG, Michele Arroyo, ressaltou que a atuação do instituto no Norte de Minas contribuiu para o tombamento do Centro Histórico de Grão Mogol. “Nos últimos anos, o Iepha realizou um trabalho intenso em parceria com as comunidades locais e universidades, com o objetivo de pesquisar e compreender a região do Rio São Francisco como patrimônio cultural de Minas Gerais. O tombamento de Grão Mogol reafirma um momento do Iepha de olhar para a diversidade dos centros históricos que o estado tem”, disse. Ela observou que este contexto permite fortalecer o diálogo com o poder público em relação à preservação do patrimônio cultural da cidade.

Preservação
O tombamento de Grão Mogol entusiasmou o secretário municipal de Cultura de Grão Mogol, Rogério Augusto Reis Figueiredo. “A cidade foi tombada pelo município, há dois anos, e agora ganha mais esta proteção. É muito importante para preservar os monumentos que contam nossa história e impedir a descaracterização. Há muitos prédios em ruínas e acreditamos que o tombamento, além de dar mais visibilidade a nossa cidade, poderá trazer recursos para a restauração”, disse.

Com 17 mil habitantes e 167 anos como cidade, embora seja dos tempos coloniais, Grão Mogol tem com um dos principais monumentos a Matriz de Santo Antônio, toda construída em pedra. Rogério chama a atenção, e faz o convite, para que todos visitem o presépio da cidade, “o maior existente ao ar livre”, localizado no sopé de uma serra e com as imagens também de pedra. Além do interesse do Iepha, ele destaca a participação decisiva do promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda, ex-coordenador da Promotoria Estadual de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC) e hoje atuando na comarca de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Membro do Conep, o professor da Universidade de Montes Claros, Denilson Meireles, ressalta a relevância dos trabalhos realizados pelo Iepha na Região Norte. Para ele, a região recebe merecido reconhecimento do estado. “O inventário cultural do Rio São Francisco, produzido pela equipe do Iepha, somado ao tombamento do Centro Histórico de Grão Mogol, demonstra o quanto o Norte de Minas contribui com a sua diversidade para o fortalecimento da cultura mineira”, disse o professor.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: em.com.br




Belo Horizonte (MG) – Infiltrações pioram situação da Igrejinha da Pampulha e Iphan busca alternativas

Marcelo Prates/Hoje em Dia / Marcelo Prates/Hoje em Dia

Marcelo Prates/Hoje em Dia/Marcelo Prates/Hoje em Dia

Depois de ter a reformada adiada para novembro de 2017, a situação da Igrejinha da Pampulha está piorando cada vez mais. Devido às fortes chuvas que atingem Belo Horizonte desde o último mês, as infiltrações aumentaram e começaram a apodrecer as placas curvas de madeira do forro original. Para tentar amenizar o problema, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizou uma vistoria nessa segunda-feira (19) com o objetivo de avaliar a situação do imóvel e sugerir medidas provisórias.

Segundo a chefe de gabinete do Iphan,  Rosângela Guimarães, a maior preocupação do órgão é saber o tamanho do estrago que existe no bem para depois analisar quais medidas podem ser tomadas até que as obras de restauro sejam feitas. No entanto, ela lembra que a Igreja de São Francisco de Assis é “uma propriedade privada e o instituto não tem poder para interferir no que vai ser feito ou não, mas cabe a gente a ajudar na guarda do patrimônio brasileiro”, afirma.

Por enquanto, o Iphan trabalha na elaboração do relatório, que ainda não tem previsão de ser entregue. Rosângela explica que após concluir a redação do documento, o órgão solicitará também uma vistoria do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e do Departamento de Memória e Patrimônio. “Queremos fazer uma análise em conjunto, porque eles também são responsáveis pelo tombamento do bem”.

Audiência

A decisão de realizar essa avaliação foi tomada na última sexta-feira (16), após uma uma audiência no Ministério Público de Minas Gerais que reuniu representantes do Iphan, da Arquidiocese de Belo Horizonte e Fundação Municipal de Cultura (FMC).

Durante a sessão, a Arquidiocese, verdadeira guardiã do imóvel, se comprometeu por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que também irá monitorar o estado da capela, especialmente do forro que reveste o teto e das obras de arte que se encontram no interior.

Os casamentos ficarão mantidos como estavam e a Arquidiocese disponibilizará a igreja, sem falta, para a Sudecap a partir do dia 20 de novembro de 2017.

Por Ana Cláudia Ulhôa

Fonte original da notícia: Hoje em Dia




Folia de Reis será declarada patrimônio imaterial de Minas Gerais

Após um ano de pesquisas, o Iepha vai apresentar ao Conep um estudo que identificou, no estado, cerca de 1,5 mil grupos de folias de reis, pastorinhas, terno, charola e outros.

Pelo costume da família, Antônio de Carvalho se considera um descendente dos foliões. (Foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Pelo costume da família, Antônio de Carvalho se considera um descendente dos foliões. (Foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Ainda bem criança, o menino se encantava com as danças, roupas, músicas e, principalmente, com a tradição que avós, tios e primos mais velhos levavam para a frente do presépio. Hoje, mais de seis décadas depois – e sempre com muita participação e fé – Antônio Pinto de Carvalho, de 69 anos, morador de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, se emociona, e ao mesmo tempo se alegra, ao segurar a bandeira dos Três Reis Magos e louvar José, Maria e o Menino Jesus. Integrante do grupo de folia de reis “Os capela nova” (assim mesmo, com apenas o artigo no plural), o aposentado, casado, pai de cinco filhos e avô seis vezes, acredita que é fundamental manter o costume católico e aplaude a decisão do Conselho Estadual de Patrimônio (Conep) que, em 6 de janeiro, Dia de Reis, vai declarar as folias de reis como patrimônio cultural imaterial de Minas.

“A Folia de Reis é um respeito ao nascimento de Jesus. Até o dia 6, nosso grupo visita os presépios de Betim, cantando e tocando viola, violão, acordeão, caixa e chocalho”, conta Antônio com entusiasmo, enquanto vai vestindo a roupa vermelha e colocando, sobre o rosto, a máscara feita de couro e chita, para representar os reis Belchior, Baltazar e Gaspar, que visitaram o menino Jesus na gruta de Belém. Fazendo a quarta voz no grupo e tocando violão, o aposentado diz que se considera um “verdadeiro descendente” dos foliões, tal a tradição na família.

Já incorporando o personagem, Antônio canta um versinho “São José e Nossa Senhora, no bolsinho que trazia, partiu um lenço em quatro pedaços, e o Menino já cobria” e diz que participa da folia há 60 anos. “Precisamos manter essa manifestação cultural tão importante. Na atualidade, há jovens que gostam e outros que preferem, infelizmente, as drogas”, afirma o aposentado, que é voluntário num grupo de recuperação e prevenção de dependentes químicos.

Pesquisa. Depois de um ano de pesquisas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) vai apresentar ao Conep, no dia 6, um estudo que identificou, no estado, cerca de 1,5 mil grupos de folias de reis, pastorinhas, terno, charola e outros, informa a presidente da instituição, Michele Arroyo. Conforme o levantamento, os grupos de 285 municípios foram cadastrados, abrangendo todos os 17 territórios estaduais demarcados pela atual gestão. Com 106 grupos, Uberaba, na Região do Triângulo, é o município com maior número de grupos cadastrados. Em seguida, João Pinheiro, na Região Noroeste do estado, aparece com 34.

As folias existem em Minas desde os tempos coloniais, encontrando terreno fértil primeiro nas fazendas, depois no meio urbano, sempre no período natalino. “É fundamental a presença de um presépio para essa manifestação cultural”, afirma Michele, destacando que a condição de patrimônio imaterial vai criar um diálogo maior com as comunidades, de forma a verificar as necessidades de cada uma, que podem ser falta de recursos, de roupas, instrumentos ou transporte. “Trata-se de uma forma de zelar pela manifestação, com políticas de salvaguarda. Por isso mesmo, estamos com a exposição de presépios no Circuito Liberdade, na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul da capital.”

Visitação. Em iniciativa inédita e parceria com os municípios, o Iepha está proporcionando a visitação a diversos presépios de Minas. Por meio do Circuito de Presépios e Lapinhas de Minas, 250 deles (residenciais e comunitários), montados em 150 cidades estarão abertos ao público até 6 de janeiro. Um guia online com endereços e horários para visitação está disponível no site www.iepha.mg.gov.br.

Na capital, os espaços que compõem o Circuito Liberdade, o Palácio Cristo Rei e o Servas, na Praça da Liberdade, também recebem presépios que podem ser visitados. O Centro de Arte Popular Cemig e o MM Gerdau Museu das Minas e do Metal organizaram exposições de presépios, reunindo peças de diversos autores em seus espaços. No Dia de Reis, encerrando o ciclo natalino, diversos grupos farão um cortejo na Praça da Liberdade, convidando o público a participar da festa.

Segundo o Iepha, Várzea da Palma, na Região Norte, tem nove presépios cadastrados no guia online e se destaca por apresentar o maior número de espaços abertos aos visitantes. Em seguida, estão Carmo do Cajuru, no Centro-Oeste, com oito, Jaboticatubas, na Região Metropolitana de BH e Medina, no Vale do Jequitinhonha, com sete, Oliveira, no Centro-Oeste com seis e outros três municípios com cinco: Barão de Cocais (metropolitana), Piranguçu (sul) e Jequitinhonha.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: em.com.br




IEPHA-MG publica edital para restauração do Vapor Benjamim Guimarães

Bem cultural é um dos últimos exemplares de embarcação a vapor ainda em funcionamento no Brasil.

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A Secretaria de Estado de Cultura, por meio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico de Minas Gerais (Iepha-MG), irá recuperar o Vapor Benjamim Guimarães, embarcação centenária situada na cidade de Pirapora, território norte do Estado. A iniciativa é uma determinação do governador Fernando Pimentel e atende a uma demanda da comunidade da região.

No dia 31 de agosto foi publicado edital de licitação para a contratação do projeto executivo de reforma e restauração da embarcação, protegida por tombamento pelo Iepha-MG desde agosto de 1985. Serão investidos pelo Governo do Estado cerca de R$ 85.000,00 (oitenta e cinco mil reais).  A partir do projeto executivo, na segunda etapa, será licitada a contratação de serviços técnicos especializados de engenharia naval. Entre os reparos necessários, está a recuperação do casco, do sistema de esgoto dos porões, revisão do gerador, pintura geral, entre outros. A estimativa dos custos da intervenção é de R$3 milhões.

Vapor Benjamim Guimarães

A embarcação foi construída nos Estados Unidos, no Vale do Mississipi, e trazida ao Brasil em 1913, para a bacia do Rio Amazonas. Na década de 20 passou a navegar no Rio São Francisco onde recebeu o nome de Benjamim Guimarães em homenagem ao patriarca da firma que adquiriu o vapor.

Reconhecido oficialmente como patrimônio cultural municipal e estadual, o vapor foi tombado pelo Iepha-MG em 1985 e incorporado ao patrimônio histórico do município de Pirapora em 1997. Responsável pela atração de um grande número de turistas para a região, a embarcação movimenta a economia local e é um referencial na navegação comercial do Rio São Francisco.

Benjamim Guimarães possui capacidade para 140 pessoas e é um dos últimos exemplares de embarcação a vapor ainda em funcionamento no Brasil, com sistema movido a lenha e caldeira, impulsionado a vapor e roda-popa. Por sua importância histórica e cultural para o vale do Rio São Francisco, o vapor já foi palco de gravações de novelas de televisão, em rede nacional, e ultimamente tem sido usado como palco para apresentações artísticas e culturais como a orquestra sinfônica, entre outros.

Fonte original da notícia: IEPHA MG




Produtores culturais reclamam de interdição de teatro de Varginha (MG)

Durante reforma, Teatro Capitólio ficará fechado por dois meses. Espetáculos que já estavam agendados devem ser remarcados.

Teatro Capitólio irá passar por reformas em Varginha. (Foto: Reprodução EPTV)

Teatro Capitólio irá passar por reformas em Varginha. (Foto: Reprodução EPTV)

O Teatro Capitólio em Varginha (MG) passará por uma reforma e ficará com as portas fechadas nos meses de agosto e setembro. Os espetáculos que já estavam agendados deverão ser remarcados. Medida que não agradou os produtores culturais que alegam que não foram informados da interdição do local.

O custo total do restauro está previsto em R$ 38.202,36, provenientes do ICMS cultural,  recurso gerado pelos projetos culturais qualificados executados pela fundação. A primeira etapa da obra consiste nos serviços preliminares de demolições dos pisos e revestimentos e retiradas de louças, vidros e portas danificadas. A última reforma dos camarins foi em 2002, quando o espaço recebeu novo piso e todas as portas foram trocadas.

“O IEPHA [Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico], o IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], o CODEPAC [Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural] e o Ministério Público do Meio Ambiente exigem e impõem a preservação e a conservação do patrimônio cultural. Então, o que nós estamos fazendo não é opcional ou não depende de querer ou não querer”, explica o diretor da Fundação Cultural da cidade, Francisco Graça de Moura.

Ainda de acordo com o diretor da fundação, todas as apresentações marcadas para o período de reforma poderão ser remarcadas a partir do mês de outubro. “Nós temos que ter instalações dignas e corretas que, inclusive, é uma demonstração do respeito que a cidade tem pelos artistas”, disse ele.

A interdição temporária do teatro pegou alguns produtores de surpresa. É o caso de Ivanei Salgado ,que desde o ano passado tinha feito uma reserva do espaço. Agora ele terá que mudar os planos. “Os produtores culturais envolvidos com datas marcadas no teatro deveriam ter sido consultados para que juntos chegássemos a uma solução. Ser comunicado por e-mail ou com carta-padrão não é a forma adequada de se dialogar com os produtores”, alegou.

Fonte original da notícia: G1 Sul de Minas




Rituais de fé preservados

Tradição – Parte da identidade brasileira, ritos como simpatias e benzeções se perpetuam.

a Pesquisa - Thais Mol e Luciana Tanure desenvolvem o projeto “Simpatias da Dalva”, em BH.

Pesquisa – Thais Mol e Luciana Tanure desenvolvem o projeto “Simpatias da Dalva”, em BH.

Até por volta dos 7 anos de idade, o projetista Filipe Rodrigues Figueiredo, 25, era gago. Para solucionar o problema, seu pai recorrer a uma simpatia: deu dois dentes de alho para o menino comer e, em seguida, despejou duas garrafas d’água gelada em sua cabeça. Foi tiro e queda. “Eu brinco que ele podia ter usado só metade da receita porque hoje eu falo rápido demais”, diz Figueiredo.

Quando tinha a mesma idade, a dona de casa Serafina Terezinha Pereira, 78, mais conhecida como Dona Fininha, conta que trouxe o pai de volta do mundo dos mortos, ainda em sua cidade natal, São João Evangelista, no Vale do Rio Doce. “Ele morreu às 15h. Passamos o resto do dia preparando seu enterro e, à meia-noite, chegou um homem em nossa casa que conversou comigo e pediu pra entrar. Ele me ensinou um remédio com folha de maracujá e disse para eu dar pro meu pai por nove dias. Às 3h, ele ressuscitou e nós nunca mais vimos o tal homem, nem conseguimos saber nada sobre ele. Meu pai, por sua vez, viveu por muitos e muitos anos”, conta Dona Fininha, que ali descobriu seu dom para a cura e se tornou benzedeira.

Livro de simpatias por Dalva.

Livro de simpatias por Dalva.

Traço marcante da cultura brasileira, sobretudo da mineira, a crença nos saberes e fazeres populares de cura por meio de rituais é uma herança de nossa formação miscigenada. “Alguns estudos apontam que, no período colonial, a fusão de elementos da tradição indígena, negra e europeia deu origem a esse aspecto de nossa identidade, que também tem a ver com o fato de que o serviço de assistência à saúde era precário e não alcançava toda a população”, explica Luis Molinari Mundim, gerente de patrimônio imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). “Por isso, as simpatias, benzeções, uso de plantas e chás têm a ver, acima de tudo, com a questão do cuidado. Tudo se mistura numa tentativa de oferecer bem-estar, alívio para as pessoas”, afirma Mundim.

Por mais que a sociedade tenha se transformado muito, essas tradições vão se modificando, mas não se perdem com o passar do tempo, como esclarece Mundim. “Seus elementos fundadores permanecem nos dias atuais, como no caso das benzeções, que ainda são muito fortes no nosso país, especialmente em Minas Gerais. Mas elas vão sendo ressignificadas, não são estanques”, afirma.

Missão de vida - Dona Fininha, mãe do músico Ségio Pererê, benze há mais de 70 anos.

Missão de vida – Dona Fininha, mãe do músico Ségio Pererê, benze há mais de 70 anos.

Foi com o intuito de promover uma renovação dessas práticas, combinando a tradição oral com a cultura, a arte e a tecnologia atuais que foi criado o projeto Simpatias da Dalva. Conduzida pelas pesquisadoras belo-horizontinas Thais Mol, 39, e Luciana Tanure, 38, a iniciativa parte do material deixado por Dalva Moreira Borges (1928-1988), dona de casa mineira radicada no Rio de Janeiro que realizava práticas populares de cura e as registrava em bilhetes endereçados a seu marido e numa caderneta intitulada “Simpatias de A a Z”, que continha rituais para encontrar saúde, casamento, filhos, dinheiro, trabalho.

“Dalva era uma mulher de classe média, urbana, cosmopolita – tanto é que foi de Divinópolis para o Rio, numa época em que essa era uma cidade de ouro – vivia uma vida normal no seu apartamento, mas intimamente se valia desses processos. Suas simpatias têm mais ênfase no desejo de amor, a paixão era algo muito central em sua vida”, afirma Thais. “Nós queremos explorar essa história de que a simpatia existe nos ambientes mais diversos e trazer isso pra hoje. Numa época em que falamos tanto de empoderamento, nesses ritos em que nos apropriamos da situação e agimos com mais consciência do gesto, da palavra, do ato, do olhar, o corpo se empodera”.

No último dia 14, foi realizada uma “Ciranda de conversas sobre ritualizações no cotidiano” como parte do processo que resultará num livro, a ser lançado até o fim deste ano, como fruto da pesquisa que engloba o Simpatias da Dalva. “Queremos valorizar esse saber, que é brasileiro. E também queremos que as pessoas criem seus próprios rituais. Pode ser que muita gente não faça uma receita de simpatia inteira, mas todo mundo faz alguma coisa, seja colocar uma espada-de-são-jorge na frente de casa ou pendurar um terço no carro. Esse é o paradoxo de hoje, por mais tecnológicos que estejamos nos tornando, crenças como o budismo e a ioga se espalharam pelo mundo no século XX. Saberes ancestrais como esses se difundem em conjunto com o desenvolvimento da ciência, uma coisa não elimina a outra. Steve Jobs (1955-2011), que criou um dos produtos mais ‘avant garde’ da contemporaneidade (ele foi o fundador da Apple), era budista. Nada exclui nada”, analisa Thais.

Ainda que se transformem e se adaptem, perdurando à medida que o tempo passa, rituais como simpatias, benzeções e manipulação de ervas tendem a se tornar menos visíveis, explica Luis Molinari Mundim, gerente de patrimônio imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). “

Ainda que se transformem e se adaptem, perdurando à medida que o tempo passa, rituais como simpatias, benzeções e manipulação de ervas tendem a se tornar menos visíveis, explica Luis Molinari Mundim, gerente de patrimônio imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). “

Professor de psicologia cognitiva na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, o belo-horizontino André Souza confirma a hipótese da proponente do projeto Simpatias da Dalva. Coautor de uma pesquisa que investiga como a cognição humana funciona com relação a rituais e religiosidades, ele realizou experimentos relacionados às simpatias tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, inclusive em Belo Horizonte.

“Uma frente teórica diz que nosso sistema cognitivo está sempre buscando controle da situação e, para isso, buscamos explicações para tudo à nossa volta. Nas situações de descontrole, a probabilidade de acreditarmos na simpatia é maior porque assim as controlaríamos”, explica. “O que acontece é que a tecnologia pode justamente dar essa sensação de descontrole. Com um acesso muito grande à informação, muitas vezes ela chega até nós pouco estruturada, o que pode nos provocar insegurança e fazer com que nos agarremos a outros meios de compreensão e a superstição seria um deles”.

A pesquisa ainda demonstra que a crença em superstições e religiosidade são altamente cognitivas e todo ser humano vai apresentá-las em alguma medida. “Acreditar ou não nos rituais não é coisa de gente com pouca escolaridade ou baixo nível de conhecimento, faz parte do nosso sistema cognitivo. E se eles funcionam de fato ou não, pouco importa. O que importa é a forma como as pessoas os percebem”, acrescenta o professor.

Herança

Filho de Dona Fininha, o músico Sérgio Pererê acredita que, de alguma forma, herdou o dom da mãe. “Segui o caminho da arte, que também é um tipo de cura. O cantar, o tocar e o compor são formas de vencer, de curar”, diz. Ele acredita que enquanto a natureza resistir, os rituais de cura vão perdurar. “O que vai nos garantir a vida está na natureza, assim como a benzeção, a cura, a arte, a fé, e tudo isso é mais antigo que nós. Enquanto existir uma plantinha verde, vai existir a fé, a benzeção, os rituais, porque isso passa de geração pra geração, de modo silencioso”.

No universo de cada um 

Desde muito criança, Serafina Terezinha Pereira, 78, a Dona Fininha, percebeu que tinha uma ligação misteriosa com a natureza. “Eu falava com minha mãe que uma árvore me chamava, mas ela não acreditava. Um dia eu saí atrás dessa voz. Andei um dia inteiro e acabei chegando nessa árvore. Embaixo dela tinha uma gata bonita, da cara pintada, deitada. Quando voltei para casa soube que todos estavam atrás de mim. Me falaram que aquela gata era a onça que os lavradores estavam procurando. A partir desse dia, comecei a ser chamada para benzer”, conta.

Desde então, já são mais de sete décadas dedicadas à benzeção, tendo ajudado um homem que se arrastava a voltar a andar, uma mulher com um machucado grave na perna, e até benzido o set de filmagens da série global “Subúrbia” (2012) – do qual ela participou – e seu diretor, Luiz Fernando Carvalho, que dirige atualmente a novela “Velho Chico”. “Eu sinto e a fala vem. É uma fala completamente diferente de qualquer uma, muito suave, macia, é um tipo de segredo espiritual que você só sabe na hora de fazer a oração”, explica a benzedeira, cujo marido também tinha o dom da cura e com ele benzeu por mais de 30 anos, sem nunca aceitar pagamentos.

Dona Fininha acredita que foi Nossa Senhora do Rosário, de quem é devota fervorosa, quem lhe concedeu o dom, para ajudá-la a enfrentar as adversidades. “Ela me ajudou a salvar muitas vidas na minha terra (São João Evangelista, no Vale do Rio Doce). Eu sou muito feliz e grata por isso”, diz.

Um de seus cinco filhos, o músico Sérgio Pererê afirma que a fé transmitida pelos pais é um referencial muito grande para ele e seus irmãos. “A crença deixou de ser uma coisa relacionada à ida a uma missa ou culto e passou a ser algo presente no nosso dia a dia. Crescemos vendo a cura constantemente. O que as pessoas chamam de milagre nós víamos o tempo todo. Inclusive demorei muito tempo para saber o que era um hospital”, conta.

De uma maneira análoga, o projetista Filipe Rodrigues Figueiredo, 25, que diz ter tido sua gagueira curada por uma simpatia, também é uma pessoa aberta à fé. “Simpatia mesmo eu só lembro de ter feito mais uma, que aprendi no espiritismo. Para resolver uma desavença no trabalho, peguei um papel, escrevi o nome do colega que não gostava de mim de trás pra frente, pus dentro de uma banana caturra e levei ao congelador. Na mesma semana começamos a nos entender”, lembra. “Mas eu tenho uma espiritualidade forte, fui médium até os 17 anos, sou muito aberto à fé. Se pudesse, faria um curso para conhecer um pouco de cada religião”.

Entender o mundo

Assim como eles, as proponentes do projeto Simpatias da Dalva, Thais Mol, 39, e Luciana Tanure, 38, também têm afinidade pessoal com o universo dos rituais. “Tem a ver com meu interesse em entender como o mundo funciona. Se existe uma Lua que mexe com as marés, ela também mexe com meus fluidos, também sou tocada. Meu olhar é voltado à compreensão desses fenômenos para aí poder lidar, manipular os elementos a meu favor, saber que algo acontece e eu posso atuar ali”, afirma Thais.

Já, para Luciana, a admiração vem da tentativa de promover uma cura, um encontro, um acontecimento desejado dentro de uma realidade. “De certa forma, é lidar com o real de cada um, o íntimo, o particular, o universo mágico de cada percurso de vida. Eu gosto de ritualizar e acho que os rituais nos ensinam”, diz.

Mesmo André Souza, professor de psicologia cognitiva na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, tem esse traço forte em sua formação. “Minha mãe sempre gostou muito de simpatias. Quando eu era criança, fazia muitas. Por exemplo: dormir com um livro aberto sob o travesseiro e de camisa azul para ir bem numa prova. Mesmo depois de mais velho, quando ia ao Mineirão, eu procurava sentar sempre no mesmo lugar porque onde eu ficava determinava se meu time ia ganhar”, conta.

Por Jéssica Almeida

Fonte original da notícia: O Tempo