Porto Alegre (RS) – Climatização conserva patrimônio histórico de 97 anos do Palácio Piratini

“Com poucos recursos para todas as áreas, buscamos parceiros e conseguimos viabilizar esta obra”, afirmou Sartori – Foto: Karine Viana/Palácio Piratini

No dia em que o Palácio Piratini comemora 97 anos, o governo do Estado também celebra uma conquista importante para conservar o acervo histórico do prédio: a entrega das obras de climatização do segundo pavimento da Ala Governamental. O projeto vinha sendo discutido e elaborado há anos e nesta quinta-feira (17) foi inaugurado, após cinco meses de trabalho.

Com a climatização, o mobiliário, a decoração de época, e, principalmente, os 23 murais do artista italiano Aldo Locatelli, a maioria localizada nos salões Negrinho do Pastoreio e Alberto Pasqualini, serão preservados. Como o Palácio Piratini é um prédio tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico  do Estado (Iphae) e pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o projeto precisou ser aprovado por ambos.

A obra foi totalmente financiada pela Lei Rouanet, também conhecida como Lei de Incentivo à Cultura, não gerando qualquer custo para o cofre do Estado. O proponente do projeto, junto ao Ministério da Cultura, foi o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, que ficou responsável pela captação dos recursos necessários. O valor é de aproximadamente R$ 2,2 milhões.

“Lá atrás, em 1896 e em 1909, quando foram lançadas as duas pedras fundamentais para a construção do Palácio Piratini, a orientação era para que este prédio fosse o edifício público mais belo e majestoso de todo o Brasil. A sede do governo gaúcho é, com certeza, um dos mais belos e majestosos prédios públicos do país. Aqui, temos as obras de Aldo Locatelli, agora preservadas com a nova climatização”, assegurou o governador José Ivo Sartori durante a solenidade.

Sartori destacou que, ao completar 97 anos, o Palácio Piratini, patrimônio dos gaúchos, ganha uma grande e muito esperada obra: a climatização dos salões principais da sede do governo, que, segundo o governador, é uma obra extremamente necessária nos tempos atuais e planejada há mais de 10 anos.

“Somos um governo de atitude, que busca um Estado eficiente e moderno. Somos também um governo de parcerias. Com poucos recursos para todas as áreas, buscamos parceiros e conseguimos viabilizar esta obra”, afirmou Sartori.

O projeto, do arquiteto Edegar Bitencourt da Luz, foi elaborado de maneira a causar a menor intervenção possível. O sistema foi implantado sobre os forros de estuque existentes nos ambientes e as casas de máquinas ficam sobre a cobertura da Ala Governamental. A execução da obra foi da empresa Arquium Construções e Restauro.

Para o presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS, Miguel do Espírito Santo, esse investimento foi extremamente necessário. “A obra entregue hoje ao Rio Grande do Sul é de superlativa significação. É pertinente a preservação do mais importante símbolo do estado, o Palácio do governo, sede de nossas mais caras tradições e das mais importantes decisões em atenção à causa pública”, explicou.

Segundo o presidente, o Instituto também é parceiro do governo do Estado em outros dois projetos culturais, já contemplados pela Lei Rouanet e em fase de captação de recursos. Entre eles, está o restauro de peças do mobiliário histórico da sede do governo e a montagem da estrutura da Oficina de Restauro do Palácio Piratini.

O secretário da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Victor Hugo, disse que a entrega do governo para a sociedade é resultado de parcerias que dão certo. “Uma demonstração clara à sociedade rio-grandense de que governos podem fazer mais do que políticas de governo. Que governos podem fazer política de Estado. E é isso que estamos vivendo”, admitiu.

O presidente do Instituto de Previdência do Estado do RS, José Guilherme Klimann, foi um dos coordenadores do projeto, enquanto esteve como secretário adjunto da Casa Civil, e destacou o trabalho em equipe e a superação de entraves ao longo do tempo. “Fazer intervenções em um prédio como o Palácio Piratini não é tarefa simples. Exige o máximo de cuidado e uma fiscalização muito grande. Topamos o desafio e aqui está o resultado plenamente exitoso”, destacou.

Durante a cerimônia de comemoração dos 97 anos do Palácio Piratini, o Coral do Banrisul fez uma apresentação aos convidados. Eles interpretaram Negrinho do Pastoreio, Boi Barroso e Os Homens de Preto, com a regência do maestro Gil de Roca Sales.

Décadas de história

O Palácio Piratini foi construído por determinação do presidente Júlio de Castilhos para substituir o antigo Palácio de Barro. O primeiro projeto para o novo palácio era de autoria do arquiteto Affonso Hebert, da Secretaria de Obras Públicas, e a pedra fundamental foi lançada em 27 de outubro de 1896. Ainda nos alicerces, as obras foram suspensas. E em 20 de setembro de 1909 uma segunda pedra fundamental foi lançada para o projeto do arquiteto francês Maurice Gras.

Em 17 de maio de 1921, o prédio foi ocupado, mas sem inauguração oficial e em caráter parcial, pois a Ala Residencial e os jardins não estavam prontos. Somente na década de 1970 o Palácio foi dado como concluído.

Em 1955, um decreto do governador Ildo Meneghetti oficializou o nome Palácio Piratini, uma homenagem à primeira capital da República Rio-grandense (1836-1845) durante o episódio da Revolução Farroupilha (1835-1845). A sugestão da denominação ‘Palácio Piratini’ foi feita pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

Os lustres de cristal dos salões são réplicas dos usados no Palácio de Versalhes e as esculturas da fachada principal e posterior da Ala Governamental são de autoria do francês Paul Landowski, criador do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.

Em 1951, o pintor italiano Aldo Locatelli foi contratado para pintar os murais nas paredes e no forro dos salões.

Em 1986, o Palácio Piratini foi tombado pelo Iphae. E, em 2000, integrando o sítio histórico da Praça da Matriz, passou a ter a proteção do Iphan.

Fonte original da notícia: Portal do Governo do Estado do Rio Grande do Sul




Niterói (RJ) – Fechado, Museu Antonio Parreiras, no Ingá, ganha site

Desde 2012 o espaço não recebe visitação do público, e as obras de reestruturação continuam paradas.

Retrato de Antonio Parreiras foi feito em 1902 – Divulgação

Será lançado hoje — Dia Internacional dos Museus — o site museuantonioparreiras.rj.gov.br do Museu Antonio Parreiras (MAP), que vive um impasse em sua sede física no Ingá. Na web, o público terá acesso a informações sobre a instituição e seu acervo, composto por centenas de obras, fotos e documentos do pintor que dá nome ao local. O endereço virtual, conquistado com patrocínio da Associação de Amigos do Museu Antônio Parreiras, foi a alternativa encontrada pela administração para manter o contato com os visitantes, que não têm acesso às dependências do espaço cultural desde 2012, quando foi fechado devido a infiltrações que ameaçavam sua estrutura. Desde então, uma série de entraves atrasa o término das obras de intervenção e de modernização do local.

— Este site é uma maneira de voltarmos a falar com o nosso público. Muita gente acha que paramos, mas mantemos um trabalho constante para preservação das obras, de monitoramento e pesquisa. Também emprestamos peças para que sejam expostas em mostras pelo país — afirma a diretora do museu, Kátia de Marco.

No site, o visitante poderá acompanhar registros da vida e da obra de Antonio Parreiras, antigo residente da casa transformada em museu em 1942. Animações apresentam peças mais emblemáticas do acervo e histórias de coleções de Parreiras; e revelaram curiosidades do Jardim Histórico, do ateliê e da Vila Olga, que também integram parte da área do museu.

‘Árvore Morta’ foi pintada por Parreiras em 1936 – Divulgação

Segundo Kátia, os padrões de acessibilidade universal implementados na construção do site permitem ainda experiências aos visitantes com deficiências visual, auditiva e de mobilidade.

— Estamos abrindo espaço para sermos visitados por novos públicos, que talvez não tivessem suas necessidades atendidas na visita presencial — comemora.

Sem previsão para visita presencial

As obras do Museu Antonio Parreiras começaram em 2014 e foram interrompidas em 2016. Em 2012, o Ministério da Cultura (MinC) e a Secretaria Estadual de Cultura firmaram convênio de R$ 6.250.000 para recuperação e restauro do museu. Deste valor, R$ 5 milhões seriam financiados pelo órgão federal em cinco parcelas; e o restante, pelo órgão estadual.

A tela ‘Flor do Mal’ foi feita em 1918 por Parreiras – Divulgação

De acordo com o MinC, o primeiro repasse à Secretaria de Cultura foi feito em novembro de 2012, e as parcelas seguintes seriam entregues após a prestação de contas da secretaria estadual. Em nota, o MinC afirma que essa prestação não foi feita, e por isso os demais repasses foram suspensos. O ministério esclarece, ainda, que um outro fator foi a interpretação de que houve terceirização da obra, que está sob comando da Empresa de Obras Públicas do Rio (Emop).

A Secretaria Estadual de Cultura já solicitou que o Minc reconsidere a interpretação sobre a terceirização da obra, uma vez que a Emop é uma empresa estadual. O pedido está em análise do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A secretaria informa também que a prestação de contas sobre o repasse da primeira parcela já foi realizada, mas acrescenta que, por questões técnicas de execução da obra, foi solicitado um ajuste nos planos de trabalho, que também está em análise.

Por Daniela Kalicheski

Fonte original da notícia: O Globo




Em Antônio Prado (RS), preservação dos bens históricos passa pela educação patrimonial

Projetos de conscientização buscam contornar a falta crônica de recursos para a manutenção dos imóveis tombados da cidade mais italiana da Serra.

Pesquisador Fernando Roveda trabalha com kits educativos que são distribuídos para as escolas da rede pública do município. Foto: Lucas Amorelli/Agencia RBS

Ainda falta muito para que o maior patrimônio arquitetônico da imigração italiana no Brasil esteja nas condições em que ele merece. A preservação dos 48 imóveis tombados no Centro Histórico de Antônio Prado depende dos sempre escassos recursos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da boa vontade de seus proprietários, muitos dos quais ainda se ressentem das restrições de uso impostas pelo governo federal na década de 1980.

Mesmo com todas as dificuldades, porém, é possível afirmar que a cidade caminha lentamente para uma conciliação com sua história. Um dos responsáveis diretos por essa mudança de visão é o pradense Fernando Roveda. Em 30 anos de atuação junto ao patrimônio, o Mestre em Turismo e Hospitalidade pela UCS resgatou praticamente sozinho a identidade das casas tombadas.

— Quanto mais tu conhece, mais tu preserva — justifica.

Conheça, a seguir, os caminhos e desafios para a preservação do patrimônio histórico da cidade mais italiana da Serra. Clique na imagem abaixo para ler.

Por Lucas Demeda

Fonte original da notícia: Pioneiro




Salvador (BA) mapeia 409 casarões com risco de desabamento

Apesar da iniciativa de vistoria e monitoramento mais constante, solução da maioria das situações detectadas ainda esbarra em burocracia.

Fachada do antigo casarão na Praça Cairu, na Cidade Baixa, em Salvador (BA) – 24/05/2017. Fernando Vivas/Folhapress

De 437 casarões antigos de Salvador, 409 têm algum grau de risco de desabamento — pouco mais de 60% (ou 266) entram nas categorias de perigo “muito alto” e “alto”; outros 143 estão têm risco “médio” ou “baixo”. Esses são os dados mais recentes de uma série de vistorias da Defesa Civil de Salvador (Codesal), que desde o ano passado decidiu atualizar o que já havia sido coletado sobre o tema e gerado um relatório, em 2009.

As informações sobre esses imóveis estão agora organizadas com uma tecnologia e protocolos capazes de ajudar a mantê-las sempre em dia, aumentando a eficiência da prevenção. Pelo menos, em tese. O cenário, entretanto, indica que não é tão improvável acontecer uma tragédia. Nem todas as edificações vistoriadas são históricas, muito menos localizadas no Pelourinho, o famoso miolo turístico da capital baiana. Existem construções espalhadas por vários bairros.

O diretor-geral da Codesal, Sosthenes Macêdo, avisa que a proposta do atual formato do chamado Projeto Casarões é acompanhar de forma mais dinâmica a evolução do conjunto de risco, detectando mais rapidamente ocorrências, como um eventual incêndio ou o desabamento de uma parede, para ajustar as medidas a serem tomadas. Se há risco de catástrofe e não existem empecilhos, ele diz que pôr abaixo pode ser a saída.

Apesar da iniciativa de vistoria e monitoramento mais constante, a maioria das situações detectadas não é de solução simples e rápida. A informação apurada pode pedir uma série de providências, que envolvem diferentes instâncias, incluindo Justiça e secretarias municipais e estaduais, além de órgãos específicos.

O primeiro passo é sempre localizar e notificar o proprietário, algo que Macêdo garante ser feito como “ato contínuo”. Às vezes, o dono é uma pessoa física; em outras, o poder público. Em geral, as intervenções não são imediatas. Há altas chances de o imóvel ser espólio. É comum o proprietário não ter dinheiro para fazer manutenção, como um dos casarões já demolidos, segundo Macêdo.

Quando é casarão tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ou pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac-Ba), o imbróglio se torna mais complexo. A reforma e a manutenção, afinal, devem seguir normas específicas.

Conforme conta o diretor-geral da Codesal, existe, inclusive, um empenho de criar estratégias que não só facilitem a recuperação e o uso de imóveis históricos nessa situação, como a incentivem. “O sujeito que reformou um casarão degradado para instalar ali uma pousada ou um comércio poderia passar a usufruir de benefício (de isenção fiscal)”, exemplifica.

Com os casarões antigos, o risco é até mais previsível, conforme acredita Macêdo. “O episódio de São Paulo acendeu ainda mais a luz amarela para outras edificações que não necessariamente sejam, em tese, de risco”, diz, em referência ao prédio que desabou durante um incêndio no centro de São Paulo na madrugada de 1º de maio.

O levantamento da população em risco morando em imóveis condenados não é tarefa das mais fáceis. Encaram-se, segundo ele, muitas variáveis para confirmar se ali, de fato, mora alguém. Macêdo cita também o método da ocupação volante, com gente “que gira de um imóvel a outro”. Assim, não é raro alguém realmente deixar determinada casa em risco, mas a mesma passar a ser habitada por outro.

Coordenador do Movimento Sem Teto de Salvador-Bahia (MSTS-Ba), Ildemário Proença avalia que, em um cenário de crise, milhões de desempregados, muitos prédios abandonados e “sem perspectiva de recursos para novas moradias”, não acha nada improvável que “essas ocupações se intensifiquem”.

As construções escolhidas, em geral, estão em condições precárias – “minimizadas pelas próprias famílias que ocupam”. Como demonstra a realidade de fatos já ocorridos, diante de uma ocorrência trágica, é sempre difícil identificar com precisão se foi culpa do dono ou qual instância falhou mais. “Se houver um sinistro, não pode é responsabilizar as famílias nem nosso movimento. Nós não obrigamos ninguém a ocupar nem cobramos taxas.”

Por Dagmar Serpa

Fonte original da notícia: Veja




Construção de resort em Pirenópolis (GO) é acusada de crime ambiental

Segundo Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente, as obras do eco resort Quinta de Santa Bárbara danificaram nascentes na cidade goiana.

Empreendimento com 192 apartamentos está sendo construído onde funciona a Pousada Quinta Santa Bárbara, ao lado da Igreja Nosso Senhor do Bonfim. Foto: BSA Arquitetura/Divulgação

A construção de um resort no centro histórico de Pirenópolis (GO), que virou motivo de revolta dos moradores da cidade em 2015, voltou a causar polêmica. Uma das empresas que participa das obras do eco resort Quinta de Santa Bárbara, a B3 Incorporadora e Construtora, e um dos sócios, Josemar Borges Jordão, foram indiciados pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema).

Existem cinco nascentes na região do empreendimento, de acordo com a delegacia, e quatro tiveram características originais alteradas. O delegado titular da Dema, Luziano de Carvalho, explicou que as nascentes apresentam supressão de APP. Uma delas está em estágio de assoreamento, provocado pela movimentação de terra gerada nas obras de instalação da rede pluvial e o entulho das demolições da antiga pousada, feitas pela empresa.

A Dema afirmou que o resort não possui licença para permanecer instalado no local. As investigações da delegacia também constataram que foi jogado veneno em uma área próxima ao que os peritos classificaram como a nascente principal.

Em julho de 2016, o juiz Sebastião José da Silva, do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) chegou a suspender o alvará de construção do Quinta de Santa Bárbara. Contudo, em dezembro do mesmo ano, o próprio TJGO cassou a decisão dada pelo juiz, e liberou a construção do resort. Após pedido do Ministério Público do Estado de Goiás (MP/GO), entretanto, a Dema fez uma nova investigação e alegou crime ambiental por construção em área não edificável e por impedir ou dificultar a regeneração natural de Área de Preservação Permanente (APP).

Grupo rebateu acusações
O engenheiro Hullian Reis Chaves, um dos responsáveis pelas obras de infraestrutura, garantiu que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizou o projeto do resort. O advogado do grupo que constrói o Quinta de Santa Bárbara, Diego Amaral, afirmou que a licença está em vigor, e deve vencer até julho, mas um pedido de renovação foi feito ainda no ano passado.

O advogado também disse que um laudo feito em março deste ano mostrou que a área ao redor do resort conta com apenas uma nascente. Diego garantiu que está ela sendo preservada, assim como sua APP. Apesar disso, o grupo firmou acordo com o MP/GO, e durante um ano, não irá construir nos outros locais apontados como nascente. Uma perícia judicial será feita para avaliar se as regiões se tratam ou não de pontos de brotamento de água. A empresa pagará R$ 40 mil ao município goiano.

Diego Amaral comentou que o grupo dará continuidade ao projeto original, respeitando o acordo firmado com o MP/GO. Até o momento, o grupo concluiu as obras de infraestrutura e de reforma do Café, na entrada da propriedade.

Por Augusto Fernandes

Fonte original da notícia: Correio Braziliense




História e tradição: Patrimônio Cultural de Pelotas (RS) é reconhecido pelo Iphan

O sal e o açúcar, o material e o imaterial, o rural e o urbano. A interligação entre opostos é o fio que escreve as mais variadas histórias. Uma dessas histórias, responsável pela formação da identidade do povo brasileiro, é a da atual cidade de Pelotas (RS), que nasceu no século XVIII, a partir de um pequeno povoado e se desenvolvia em função da produção do charque: pedaços de carne salgada secos ao sol. Foi com a implantação das primeiras charqueadas que a economia regional prosperou, integrando o Rio Grande do Sul ao mercado nacional e dando à cidade de Pelotas o título de uma das mais importantes do interior do país durante o século XIX.

Foi também o charque que possibilitou a chegada ao Sul do país de uma riqueza nacional: o açúcar. Assim, além de ser considerada a cidade do charque, Pelotas recebeu também o título de capital nacional do doce, especialmente em função da produção doceira, oriunda do intercâmbio charque-açúcar. Os navios que levavam o charque para o Nordeste traziam de volta grandes quantidades de açúcar, transformados, no interior dos casarões pelotenses, em doces finos, confeccionados geralmente à base de ovos, conforme a melhor tradição portuguesa.

Este cenário – da cidade dos doces no Estado do churrasco – esteve na pauta do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, na última reunião, que foi realizada no dia 15 de maio, na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília. Pela primeira vez, nesses 80 anos de dedicação à preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro, os conselheiros vão trabalhar, a um só tempo, os dois instrumentos de proteção: o tombamento e o registro. Ou seja, os aspectos arquitetônicos e artísticos que caracterizam o Conjunto Histórico de Pelotas estarão associados ao modo de fazer os doces das Tradições Doceiras da Região de Pelotas e Antiga Pelotas (Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo, Turuçu).

Para a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, essa reunião do Conselho Consultivo já é um reflexo dos debates realizados durante a celebração dos 80 anos do Instituto, em especial o Seminário Internacional O Futuro do Patrimônio, e marca uma nova etapa na gestão do Patrimônio Cultural Brasileiro. “A integração entre o material e o imaterial é imprescindível para se entender a dimensão das nossas tradições, das nossas memórias e da nossa identidade como nação brasileira, que é fruto de uma rica diversidade étnica, cultural e religiosa, que interage e se integra perfeitamente em nossas manifestações, em nosso Patrimônio Cultural. Um não existe sem o outro. Uma cidade, mesmo a mais linda e rica, é vazia sem suas tradições, sem a manifestação de seu povo. E é isso que vamos vivenciar nessa reunião do Conselho Consultivo, quando os conselheiros poderão conhecer como se consolidou o desenvolvimento da cidade de Pelotas, onde sal e doce, material e imaterial, andam lado a lado, juntos, valorizando sua cultura e garantindo seu desenvolvimento econômico”, conclui Kátia Bogéa.

O Conjunto Histórico de Pelotas
Quatro praças, um parque, a Chácara da Baronesa e a Charqueada São João integram o Conjunto Histórico de Pelotas e têm significativo valor histórico, artístico e paisagístico. É essa riqueza cultural que se deseja preservar. Dessa forma, caso aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, o Conjunto Histórico de Pelotas pode ser inscrito em três Livros do Tombo: Livro do Tombo Histórico, Livro do Tombo de Belas Artes e Livro do Tombo Arqueológico, etnográfico e paisagístico.

Uma característica particular do Conjunto Histórico de Pelotas é que, considerando o sistema municipal de patrimônio cultural estabelecido pelo Plano Diretor de Pelotas, será desnecessária a delimitação de poligonal de entorno, uma vez que o bem protegido pelo Iphan está totalmente inserido nas Zonas de Preservação do Patrimônio Cultural, que após análise verificou-se assegurar a preservação da vizinhança e ambiência da coisa tombada, nos termos do Decreto-Lei 25/1937.

As Tradições Doceiras

Pelotas encontra-se no epicentro de uma região doceira que abarca uma multiplicidade de saberes e identidades sob a forma de duas tradições: a de doces finos e a de doces coloniais. O doce desempenha um papel peculiar na composição da sociedade regional, sendo um elemento cultural que amarra a diversidade de grupos étnicos e sociais que a compõe.

Na sua maioria, essas doceiras e doceiros compreendem seu ofício como a continuidade das trajetórias de suas famílias, num templo ampliado. Essa relação está posta, sobretudo, no meio rural, entre os produtores de doces de frutas, que se encontram profundamente ligados à região colonial, como um espaço de vivências, trabalho e afetos. Assim, a possibilidade de registro das Tradições Doceiras de Pelotas e Antiga Pelotas, contemplando o espaço de ocorrência das duas tradições doceiras e os sentidos que a elas são atribuídos, por grupos detentores, se justifica tendo em vista seu valor identitário e a relação demonstrada entre o saber doceiro e o território referido.

Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural
O Conselho que avalia os processos de tombamento e registro é formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, antropologia, arquitetura e urbanismo, sociologia, história e arqueologia. Ao todo, são 22 conselheiros, que representam o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Ministério da Educação, o Ministério do Turismo, o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), o Ministério do Meio Ambiente, Ministérios das Cidades, e mais 13 representantes da sociedade civil, com especial conhecimento nos campos de atuação do Iphan.

Fonte original da notícia: IPHAN




Iphan vê risco a tombamento de Brasília (DF) em reforma de viaduto que desabou no Eixão

Órgão analisa croquis elaborados pelo governo do DF. UnB foi consultada para dar palavra final.

Bloco do Viaduto da Galeria dos Estados no dia em que desabou, em fevereiro deste ano. Foto: Antônio Araújo/Trilux/Estadão Conteúdo

O projeto para a construção do novo viaduto na Galeria dos Estados tem risco de ferir o tombamento de Brasília. Os croquis elaborados pelo governo foram levados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para análise. Para o órgão não dar a palavra final sozinho, a Universidade de Brasília (UnB) foi consultada sobre o risco de ameaça ao ideais da cidade.

Croqui que mostra diferença entre viaduto original e de novo projeto do GDF; parte em vermelho é ‘extra’. Foto: Reprodução

De acordo com os esboços do novo viaduto, os oito pilares da estrutura ficarão com dimensões – e desenho – maiores do que o original (veja ilustração acima). Em vez de ficarem com um formato em “Y”, eles vão ganhar em extensão, ficando em um formato mais retangular. O governo afirmou que o projeto ainda está em fase de finalização, mas não justificou o porquê da mudança.

Esse projeto está em análise no Iphan desde 12 de abril. O órgão tem até 90 dias para dizer se ele fere ou não o tombamento. Caso entender que as modificações feitas no projeto original são significantes, o governo terá de se justificar porque uma alteração “só poderá se realizar na perspectiva de promover melhorias e benefícios ao espaço urbano”.

Estado original do viaduto, em ilustração feita pelo GDF. Foto: Reprodução

“A preocupação do Iphan, em consonância com os critérios de preservação estabelecidos para a área tombada pelo governo federal, é que não se promova alterações urbanísticas, arquitetônicas e paisagísticas desnecessárias naquele setor”, explicou ao G1 o superindentente do instituto, Carlos Madson Reis.

Nas próprias palavras do Iphan, seria possível reconstruir o viaduto nos mesmos moldes do original. “Acredita-se que, com a tecnologia estrutural de hoje, mais avançada que a da época de sua construção, é possível manter-se à tipologia e à forma arquitetônica original para durar bem mais tempo.”

Como deve ficar o pilar do viaduto, de acordo com projeto do GDF. Foto: Reprodução

Além da preocupação com o tombamento, o instituto também tem questionamentos quanto à segurança. “Antes de tudo, o viaduto tem que ser seguro sob o ponto de vista estrutural”, declarou o Iphan.

Consulta à UnB

Oficialmente, o Iphan alega que a consulta aos institutos de engenharia e arquitetura da UnB é um procedimento “natural”. No entanto, professores ligados à análise do projeto do GDF ouvidos pelo G1 dizem que o chamamento foge do padrão.

“Em mais de sete anos em que trabalho aqui, isso nunca aconteceu”, declarou um professor de arquitetura, sob condição de anonimato. “Isso mostra a peculiaridade do assunto”, continuou.

Segundo um professor de engenharia que também preferiu não revelar o nome, a UnB confirmou ao Iphan que o projeto feito pelo governo é diferente do que existia antes da queda do viaduto no Eixão Sul, em 6 de fevereiro.

“Ele não está voltando ao projeto original. O traçado é claramente diferente. Esteticamente falando, seria possível, sim, voltar ao mesmo desenho de antes. Como engenharia, mudaria totalmente. Existem várias outras técnicas e tecnologias, que poderiam trazer um desempenho melhor.”

Até a publicação desta reportagem, os professores da UnB já tinham feito ao menos uma reunião com o Iphan para explicar esses pontos.

Polêmica

Imagem mostra pilares que restaram no viaduto da Galeria dos Estados. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Dentro do próprio meio acadêmico, não existe consenso sobre o conceito de ferir o tombamento de Brasília. Por exemplo, se um projeto tiver como proposta o de fazer uma “restauração”, então a reconstrução deve ocorrer nos mesmos moldes da original. Porém, se a ideia é fazer uma nova “intervenção”, o desenho pode ser modificado.

Segundo o professor de arquitetura da UnB Frederico Flósculo, a polêmica sobre o tombamento é “irracional”. “Eu entendo que em determinados casos, a geometria poderia, sim, mudar. Isso não causaria prejuízo algum. O Iphan deveria era ser muito mais ativo e se preocupar em exigir do governo uma planilha com cronograma de manutenção das estruturas.”

Já o professor de engenharia da UnB aposentado João Carlos Teatini de Souza qualificou o projeto do GDF de “monstrengo” e “aberração”. “Do jeito que os pilares eram, você tinha grande visibilidade pelos dois lados. Esse novo pilar vai impedir a visibilidade. Vai precisar de um reforço violento de fundação.”

Segundo o governo, a licitação para a reforma do viaduto só deve sair após conclusão do projeto – que depende do aval do Iphan. “A licitação para reforma do viaduto será realizada pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER), utilizando os recursos do orçamento do governo de R$ 50 milhões previsto para obras emergenciais.”

Tombamento

No Brasil, o respeito ao tombamento – e à preservação desse legado – é fiscalizado pelo Iphan. Em Brasília, Ouro Preto, Olinda, Rio de Janeiro, há o tombamento reconhecido pelo Iphan e pelo governo local. Em Brasília, o tombamento também é reconhecido pela Unesco como patrimônio mundial.

“O que é tombado são as características urbanísticas, os valores, os atributos que dão cara a essa cidade”, explicou o superintendente do Iphan em entrevista ao G1 em fevereiro.

Por Gabriel Luiz

Fonte original da notícia: G1 DF




Com chafariz que virou casa, Rio tem 192 bens históricos em risco

Levantamento identificou estátuas, fazendas e outros locais abandonados, destruídos ou com perigo de desabamento.

Estátua Equestre de Dom Pedro I (1862): Um dos índios da escultura de Louis Rochet, na Praça Tiradentes, está sem a lança há mais de quatro anos. A peça foi vista à venda em um antiquário no Centro. Felipe Fittipaldi/Veja Rio

Josefa Rosa de Jesus mora em uma casa com sala e dois quartos no Catumbi. O imóvel tem relógio da Light na porta e contas pagas em dia, além de espaço suficiente para a aposentada e seus dois cachorros. Seriam detalhes à toa, exceto por uma particularidade. O endereço é, na verdade, parte de uma relíquia. A antiga construção, erguida no século XVIII, é assinada por Mestre Valentim, pioneiro nome das artes no Brasil colonial, e, desde 1938, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Batizado de Chafariz do Lagarto, por causa do réptil de ferro na fachada que outrora cuspia água, o local já estava abandonado quando a nova moradora chegou, em 2010. “Uma vez encontrei um cara com um martelo na mão, prestes a roubá-lo”, conta a senhora sergipana, há mais de cinquenta anos no Rio. A transformação de um tesouro arquitetônico no humilde lar de dona Jô, como é mais conhecida a ex-moradora de rua, é algo, no mínimo, descabido. É, também, a ponta de um problema bem maior. Um levantamento do grupo SOS Patrimônio, realizado no estado entre janeiro e março de 2018, identificou 192 bens históricos abandonados, destruídos ou sob o risco de desabar. Nessa lista estão o próprio Chafariz do Lagarto e seu vizinho, o Chafariz Paulo Fernandes. A 120 metros da residência de dona Jô, a torre, com mais de 200 anos de existência, também foi invadida e redecorada — sua área interna abriga cômodos alugados a 300 reais por mês.

Fazenda Colubandê (1618): Em janeiro de 2017, um painel de 4 metros de largura que enfeitava a Capela de Santana na propriedade, em São Gonçalo, foi furtado. Selmy Yassuda/Veja Rio

A pesquisa do SOS Patrimônio reuniu 600 especialistas. Junto das fotos dos bens, eles compartilharam a localização indicada pelo GPS do celular no momento do clique, o que garante a autenticidade dos registros. Estátuas, igrejas e casarões estão ameaçados pelas mais diversas razões. Muitas vezes, mendigos arrancam peças dos monumentos para revendê-las. Foi assim com os fios de cobre da Fazenda Capão do Bispo, em Del Castilho, levados em fevereiro. Entre os locais que sofrem com o descaso das autoridades está a Fazenda Machadinha, em Quissamã. Lá, uma parede caiu há um ano e não foi refeita. “Até a casa do barão de Vassouras, uma das sedes do Iphan no estado, encontra-se aos pedaços”, afirma o historiador Claudio Mello, integrante do grupo de estudiosos. Na Zona Sul, o Relógio da Glória marca 13h50 há um ano, mas, como se sabe, o tempo não para. A murada em seu entorno, erguida pelo prefeito Pereira Passos em 1906, exibe 207 marcas de pichação. Na Praça Tiradentes, a vítima é a primeira escultura pública do Brasil: uma das lanças dos índios que protegem a estátua equestre de dom Pedro I foi roubada há mais de quatro anos. “Cheguei a vê-la em um antiquário da Rua do Senado”, conta o restaurador Marconi Andrade, fundador do SOS Patrimônio. Ao tentar resgatá-la, ele soube que a peça havia sido vendida a um colecionador de São Paulo. Para complicar, o orçamento estadual encolheu. A previsão de gastos públicos com patrimônio cultural diminuiu de 20,3 milhões de reais, entre 2012 e 2015, para 14,8 milhões, de 2016 a 2019.

Passeio Público (1783): O primeiro parque público das Américas, no Centro, foi reaberto em junho do ano passado, mas já apresenta sinais de degradação. Selmy Yassuda/Veja Rio

Ao redor do mundo, monumentos são testemunho da história. Muitas vezes, servem, inclusive, para revisá-la. Foi o que aconteceu em Barcelona, onde, em março, a prefeitura removeu uma estátua dedicada ao traficante de escravos Antonio López. No Rio, o grande desafio é apostar no oposto: despertar a simpatia da população por peças importantes e, assim, estimular a sua preservação. Quanto mais os moradores entenderem o significado dos nossos monumentos, mais chances teremos de mantê-los inteiros. “O Rio é a cidade com maior número de monumentos da América Latina. Não há condições de ter um guarda em cada estátua”, diz Washington Fajardo, urbanista e e­­x-presidente do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural. Uma política de longo prazo e uma administração livre da influência do mercado imobiliário, entre outros atores interessados nos rumos do nosso patrimônio, são objetivos a atingir. “Sem isso, vamos sempre depender do ministro para frear o Geddel”, resume o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, em referência ao caso do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que pediu demissão após sofrer pressões para liberar a construção de um prédio em uma área tombada de Salvador.

Chafariz da Glória (1772): Relíquia do Brasil colônia, vira balcão para camelôs durante a semana. Aos sábados e domingos, o cenário é apenas de abandono. Felipe Fittipaldi/Veja Rio

Chafariz do Lagarto (1786): No Catumbi, a obra de Mestre Valentim, um dos mais importantes escultores brasileiros do século XVIII, foi ocupada há oito anos por uma moradora de rua. Selmy Yassuda/Veja Rio

Por Saulo Pereira Guimarães

Fonte original da notícia: Veja Rio




Tradição doceira e arquitetura de Pelotas (RS) são patrimônio nacional? Iphan vai decidir em maio

Caso se confirme, será a primeira vez na história que o instituto faz a distinção, de forma simultânea e no mesmo lugar, de um patrimônio material e outro imaterial.

Mercado Público de Pelotas. Isadora Neumann/Agencia RBS

Em menos de um mês, a cidade de Pelotas, no sul do Estado, poderá ser alvo de um ato de preservação inédito no Brasil. Em 15 de maio, o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidirá se o conjunto histórico do município e o modo de fazer doces da região vão se tornar patrimônio nacional ao mesmo tempo. Caso se confirme, será a primeira vez na história do Iphan que será realizado de forma simultânea, em um mesmo lugar, o reconhecimento de um patrimônio material (o conjunto arquitetônico) e o registro de um patrimônio imaterial (a tradição doceira).

— O Iphan, há algum tempo, tem estimulado que os processos sejam pensados não como material e imaterial, mas no sentido de patrimônio cultural. Em Pelotas, optamos por fazer um estudo geral porque se percebeu a importância do ciclo do charque, que permitiu a chegada do açúcar e fez com que a cidade desenvolvesse uma cultura própria. Não tinha sentido tratar de forma isolada — explicou Andrey Rosenthal Schlee, diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan.

A análise conjunta parte do princípio de que a produção de charque, principal atividade econômica de Pelotas entre o final do século 18 e o começo do século 20, teve influência direta sobre o desenvolvimento da tradição doceira na região. Isso porque, a venda de carne para o Nordeste permitia o acesso ao açúcar produzido nesses Estados, que era trazido pelos mesmos navios.

A concepção do parecer que será avaliado pelos conselheiros — 23 pessoas, entre representantes de instituições públicas, privadas e da sociedade civil — teve origem em quatro processos isolados em que cidadãos pelotenses que pediam o tombamento de diferentes partes da cidade e em um inventário sobre a tradição doceira elaborado entre 2006 e 2008. Natural de Pelotas, o atual diretor do Iphan esteve diretamente envolvido: antes de trabalhar no órgão — quando assumiu como professor de arquitetura da Universidade de Brasília, em 2002 —, ele solicitou o reconhecimento do centro histórico da cidade como patrimônio nacional.

O documento elaborado pelo Iphan demandou um estudo que envolveu pelo menos três superintendentes no Rio Grande do Sul e diversos técnicos do órgão que vieram de Brasília para avaliar os prédios históricos e conhecer o processo de fabricação de doces. A proposta prevê o tombamento do que foram definidos como sete setores: as praças Cipriano Rodrigues Barcelos, Coronel Pedro Osório, José Bonifácio e Piratinino de Almeida, o Parque Dom Antônio Zattera, a Charqueada São João e a Chácara da Baronesa. Ela descreve as características arquitetônicas de cada um dos lugares e estabelece diretrizes para a preservação desses locais e de prédios importantes do entorno, como o Mercado Público Central, a Catedral São Francisco de Paula e o Teatro Sete de Abril, entre dezenas de outros _ alguns deles já tombados ou inventariados em outras esferas. A partir de um eventual tombamento nacional, os locais passarão a ter a gestão compartilhada entre o poder público municipal e o governo federal.

Já o registro da tradição doceira como patrimônio imaterial abarca, além de Pelotas, municípios próximos — a chamada “Antiga Pelotas”, que envolve  Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo, São Lourenço e Turuçu . O reconhecimento prevê um plano de salvaguarda do modo de produzir doces na região, com ações que visam à manutenção da preservação e transmissão de conhecimento de uma geração a outra. Será contemplada tanto a produção dos chamados doces finos, que fizeram a fama da cidade e estão ligados à área urbana e à tradição europeia, quanto os doces coloniais, desenvolvidos principalmente zona rural e vinculados à história dos imigrantes europeus e dos negros trazidos como escravos à época do ciclo do charque. Caso ocorra, este será o segundo bem imaterial do Rio Grande do Sul reconhecido pelo Iphan: o único até hoje foi a Tava, lugar de referência para os Guarani-Mbyá, registrado no Livro dos Lugares — a tradição doceira deverá entrar no chamado Livro dos Saberes.

“Espero que seja um começo”, diz arquiteta que pediu tombamento de sítio charqueador

A reunião que decidirá pelo reconhecimento ou não do patrimônio cultural pelotense em nível federal é um desdobramento de uma série de ações pontuais realizadas ao longo das últimas décadas para preservar a memória de uma das mais importantes cidades do Estado.

O primeiro tombamento realizado pelo Iphan foi em 1955: o obelisco construído em homenagem a Domingos José de Almeida, por sua participação na Revolução Farroupilha. Em nível municipal, um dos primeiros marcos em termos de volume foi um inventário da década de 1980 que previu a proteção de mais de 1 mil imóveis. Atualmente, Pelotas possui um dos maiores acervos de estilo eclético do Brasil, com cerca de 1,3 mil prédios inventariados.

A elite intelectual da cidade esteve entre os principais defensores do patrimônio, principalmente, através de estudos da Universidade Federal de Pelotas, cuja Faculdade de Arquitetura elaborou o inventário municipal e outros cursos, através do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, elaboraram pesquisas que destacam o valor cultural e relevância histórica de diferentes aspectos do município.

Professora aposentada da UFpel, a arquiteta Ester Gutierrez dedica-se, desde a década de 1990, ao estudo das charqueadas na cidade. Depois de contribuir com um projeto da prefeitura para delimitar áreas de interesse cultural em Pelotas, ela foi, cerca de uma década atrás, a primeira cidadã a pedir o tombamento do chamado sítio charqueador, região às margens do Arroio Pelotas onde se estabeleceram dezenas de fábricas de charque. Em maio, poderá ter parte de seu pedido deferido: a Charqueada São joão, uma das mais antigas da cidade, está entre os setores que podem virar patrimônio nacional.

—  Acho que é louvável, mas é uma coisa pontual. Espero que seja o começo de um processo de reconhecimento que permita ações de conservação mais amplas — avaliou a professora aposentada.

Por Bruna Vargas

Fonte original da notícia: Gaúcha ZH




Jundiaí (SP) – Complexo Fepasa se transforma na casa da cultura jundiaiense

Imóvel é o único patrimônio no município com tombamento a nível nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Complexo Fepasa é a nova casa da cultura em Jundiaí. Foto: Prefeitura de Jundiaí/Divulgação

No decorrer do último ano, a Unidade de Gestão de Cultura (UGC) providenciou diversas ações para recuperar e permitir a ocupação pública do Complexo Fepasa, imóvel de propriedade da Prefeitura de Jundiaí e o único patrimônio no município com tombamento a nível nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Como resultado, o Complexo ganhou a Sala Jundiaí de espetáculo (com 307 lugares) e a sala multiuso Hermeto Pascoal e sistematizaram-se as salas dos Relógios e B1. Dessa forma, mais de 300 artistas de 12 grupos musicais e teatrais fazem uso semanal e gratuito do espaço. Sem contar os cerca de 600 alunos que frequentam as oficinas culturais gratuitas promovidas pela UGC, as reuniões de Conselhos, as apresentações da Cia. de Teatro e as capacitações de educadores da rede municipal pelo programa “Laboratorium”.

O espaço é também palco de eventos importantes, como festivais e mostras, como o Enredança e o Festeju, as eleições das Cortes do Carnaval, da Festa da Uva e LGBT, exposições, treinamentos do efetivo da Guarda Municipal e ensaios de dança do Time Jundiaí de idosos.

Até chegar a esse estágio, o espaço ocupado pela UGC passou por manutenção, limpeza e higienização, eliminação de focos de dengue e roedores, além da instalação de iluminação e câmeras de monitoramento. Providenciaram-se também o fechamento de ingressos, contratação de controladores de acesso, reposição de telhas e de mais de 400 vidros. Após triagem, foram retirados mais de 60 caminhões de lixo acumulado (inservíveis descartáveis) e destinados os demais itens, como mobílias, para o almoxarifado criado no local.

O gestor da Unidade de Cultura, Marcelo Peroni, afirmou que triagem de acervo e materiais foi conduzida com cuidado e zelo. “A fim de valorizar o patrimônio, quisemos tornar o Complexo a nova casa da cultura, um espaço cada vez mais ocupado, de convivência entre cidadãos e artistas jundiaienses.”

Ampliação

A área administrativa da UGC está sendo ampliada para melhoria de atendimento às pessoas, passando a ocupar mais uma ampla sala que recebeu os serviços de manutenção, higienização e dedetização.

Com a mudança para o complexo, a UGC reestruturou o Centro de Memória e o Departamento de Patrimônio Histórico, na ala em que se encontra também o Museu da Cia. Paulista. Ainda no sentido da preservação do patrimônio foram realizadas a higienização, dedetização e reparo da sala conhecida como “Arquivo da Presidência”, que recebeu a transferência de livros e documentos do acervo.

Restauração

Peroni destaca a seleção em primeira fase de projeto de restauração pelo Fundo Interesses Difusos (FID), da Secretaria Estadual da Justiça e da Defesa da Cidadania. “Se formos contemplados na fase futura, o projeto é fazer uso da verba de R$ 1 milhão para restaurar o telhado do bloco central”. E acrescenta: “Desde a mudança da UGC para cá o Iphan demonstra seu contentamento pelo zelo ao patrimônio, mas ainda temos de cumprir com a regulamentação de um Plano Diretor para o Complexo, uma espécie de planejamento de ações futuras.”

Quanto ao armazenamento de alguns materiais em estado crítico de conservação, a UGC esteve em Brasília em reunião com a coordenação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), recebeu a visita técnica do mesmo e aguarda parecer do para dar a devida destinação aos materiais.

Já em parceria com a Companhia de Informática de Jundiaí (CIJUN) será instalada nos próximos meses a rede Conect@do de conexão gratuita à internet, como a já instalada em terminais e parques municipais.

Atualmente, no local, além da Unidade de Gestão de Cultura, estão a Sala Jundiaí de espetáculos, o Museu da Cia. Paulista, o serviço de Cadastro Único da Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS), serviços da Unidade de Gestão de Mobilidade e Transporte, a sede da Guarda Municipal, a Fundação Municipal de Ação Social (Fumas), o Poupatempo, a Fatec e o Centro de Educação e Lazer para Melhor Idade (Celmi).

Fonte original da notícia: Especial Publicitário – Por Prefeitura de Jundiaí – G1