Juiz de Fora (MG) – UFJF anuncia acordo com MPF para reabertura do Cine-Theatro Central


TAC libera 1º andar até que obras do 2º e 3º andares sejam realizadas. Corpo de Bombeiros encontrou inadequações em vistoria no ano passado.

Balcão nobre, galeria e camarotes seguem interditados, aguardando o início das obras de adequação do espaço interno. (Foto: Roberta Oliveira/G1)

Balcão nobre, galeria e camarotes seguem interditados, aguardando o início das obras de adequação do espaço interno. (Foto: Roberta Oliveira/G1)

O Cine-Theatro Central poderá agendar novos espetáculos a partir de agora, mas apenas com o primeiro andar liberado para funcionar. A medida consta no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pela Reitoria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e o 4º Batalhão de Bombeiro Militar em reunião no Ministério Público Federal nesta segunda-feira (27).

Os segundo e terceiro andares do prédio estão interditados desde outubro de 2016 após uma vistoria do Corpo de Bombeiros constatar irregularidades. De acordo com a instituição, o piso térreo, que inclui as áreas das plateias A e B, pode receber 1.232 espectadores.

De acordo com a Diretoria de Imagem Institucional, desde então, foram realizados apenas os espetáculos previamente agendados. O TAC formalizado nesta segunda-feira ratificou o acordo, que libera a realização de novos eventos, apenas com a capacidade da plateia do primeiro andar. A UFJF se comprometeu a dar sequência às obras que precisam ser feitas.

Conforme acordado em outubro, a universidade elaborou o projeto que prevê todas as reformas exigidas. O texto agora aguarda a aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), já que o teatro é um bem tombado. O G1 aguarda retorno do instituto.

Em seguida, o projeto será encaminhado para o Corpo de Bombeiros em Belo Horizonte. Depois disso a UFJF poderá iniciar as obras. Quando tudo estiver concluído, o local passará por nova vistoria para ser liberado.

Inadequações
Os andares interditados comportam o balcão nobre, a galeria e os camarotes. Em outubro, a a tenente do Corpo de Bombeiros Priscila Adonay explicou que algumas inadequações nos corrimãos e nos guarda-corpos foram encontradas.

“Esse dois pavimentos não atendem ao que é previsto em legislação. Já o primeiro atende as normas, contém iluminação de emergência e sonorização se for necessário a evacuação das pessoas”, explicou.

A UFJF confirmou que as adaptações do espaço interno incluem também obras na escada de acesso aos banheiros do terceiro pavimento, dependem de autorização do Iphan.

De acordo com os Bombeiros, as intervenções eram cobradas há oito anos. No período, todos os eventos realizados no espaço tiveram autorizações provisórias.

Mais de 1.200 espectadores que podem ocupar o piso térreo. (Foto: Roberta Oliveira/G1)

Mais de 1.200 espectadores que podem ocupar o piso térreo. (Foto: Roberta Oliveira/G1)

Fonte original da notícia: G1 Zona da Mata




Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Congonhas (MG), é restaurada


Obras foram custeadas pelo PAC das Cidades Históricas. Construída no século XVIII, a igreja tem obras de Aleijadinho.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Congonhas, passou por restauração e será devolvida à comunidade. (Foto: Iphan/Divulgação)

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Congonhas, passou por restauração e será devolvida à comunidade. (Foto: Iphan/Divulgação)

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Congonhas, na Região Central de Minas Gerais, um dos símbolos do barroco mineiro, passou por obras de restauração e será devolvida à comunidade nesta quinta-feira (30).

Construída no século XVIII, ela tem trabalhos de Aleijadinho e do pai dele, o arquiteto português Manoel Francisco Lisboa. A igreja é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O projeto de restauração custou cerca de R$ 1,4 milhão. O investimento faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas. Os bens artísticos do interior da matriz, como o retábulo do altar-mor, a tribuna da capela-mor e o Arco do Cruzeiro, foram recuperados.

Congonhas está entre as oito cidades mineiras contempladas com investimentos do PAC Cidades Históricas.

Fonte original da notícia: G1 MG




O 10º Seminário Patrimônio Cultural acontece esse mês em Ouro Preto (MG)


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Do dia 24 a 28 de abril, a Fundação de Arte de Ouro Preto | FAOP promove o 10º Seminário Patrimônio Cultural | Conservação e Restauração no Século XXI, em Ouro Preto. O tema deste ano é “Formação e Prática Profissional”, visando a profissionalização do mercado de restauro.

O evento é voltado para profissionais, gestores culturais, professores, estudantes e demais interessados nos processos, desafios e possibilidades da conservação e restauração do patrimônio cultural material. Além disso, o Seminário conta com debates, conferências, minicursos, exposições e mais atividades.

Sobre o Núcleo de Conservação e Restauração

O curso surgiu com o famoso restaurador Jair Afonso Inácio, na década de 1970. É considerada a primeira experiência na formação de profissionais de forma regular no Brasil. Em 1981, foi dividido em disciplinas, com ênfase na conservação e restauração de três suportes: escultura policromada, pintura de cavalete e papel. Até hoje, é o único curso formal reconhecido pelo MEC nessas três especificidades. A grade curricular do curso é distribuída em cinco módulos semestrais, com carga horária total de 1552 horas, incluindo o estágio curricular.

Fonte original da notícia: FAOP




Secretaria de Cultura de Ouro Preto (MG) investiga origem de imagem de Cristo do século 19


Peça foi encontrada em uma gaveta, passa por restauração e vai compor acervo de capela em Ouro Preto. Prefeitura também quer saber quem foi o doador do objeto.

O secretário Zaqueu Astoni mostra o Cristo e a cruz em madeira, encontrados em espaço próximo à capela. (Foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)

O secretário Zaqueu Astoni mostra o Cristo e a cruz em madeira, encontrados em espaço próximo à capela. (Foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)

Tempo de quaresma, descoberta e restauração. Uma imagem de Cristo crucificado, do século 19, foi encontrada no Casarão Rocha Lagoa, sede da Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio, no Centro Histórico da cidade, e já seguiu para restaurado na Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), vinculada à Secretaria de Estado da Cultura. A peça em madeira, com 50 centímetros de altura, estava dentro de uma gaveta, em meio a outros objetos, num espaço próximo à capela. “Foi uma grande surpresa. A gaveta estava fechada, tudo indica há muito tempo, num local antes usado como almoxarifado. Assim que ficar pronto, vamos pôr a peça sacra no lugar de destaque que merece”, disse, ontem, o secretário municipal de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto, Zaqueu Astoni Moreira.

Segurando o crucifixo com todo o cuidado, Zaqueu explica que há partes quebradas e outras coladas, embora sem a intervenção adequada do trabalho de restauração. O serviço está a cargo do restaurador e professor da Faop Sílvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira, responsável, com sua equipe, pela recente recuperação das pinturas de São Luís Rei da França e São Eduardo Rei da Inglaterra, do século 18, da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. “Estamos investigando a origem do crucifixo e quem o doou à Secretaria de Cultura e Patrimônio”, explicou Zaqueu, adiantando que o restauro da peça será concluído até a Páscoa. Uma missa de reentronização será celebrada na capela por dom Francisco Barroso Filho, conhecido como dom Barroso e residente em Ouro Preto.

Localizada no térreo do imponente Casarão Rocha Lagoa, a capela vai ganhar iluminação especial e alguns reparos para ser visitada por moradores e turistas e frequentada pelos funcionários. O secretário mostra o teto em policromia, do século 18, doado ao município pelo ex-prefeito e atual secretário estadual de Cultura Angelo Oswaldo.

Cerimônias. O momento não poderia ser mais oportuno para recuperar a peça, já que, em 1º de abril, começam as cerimônias do Setenário das Dores (veja programação), na Igreja de Nossa Senhora das Dores, da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no Bairro de Antônio Dias. A cada ano, as celebrações solenes da Semana Santa em Ouro Preto se alternam entre essa paróquia (ano ímpar) e a de Nossa Senhora do Pilar (ano par), ambas no Centro Histórico. Em outras cidades mineiras do Ciclo do Ouro, como Sabará e Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, as meditações e rezas das Sete Dores de Maria enchem as igrejas.

Histórico.
O Casarão Rocha Lagoa fica na Rua Teixeira Amaral, ladeira de acesso às igrejas São José e São Francisco de Paula e rodoviária de Ouro Preto. De provável construção datada do fim do século 18, o sobrado recebeu esse nome por ter sido residência, já na segunda metade do século 19, da tradicional família Amaral e Rocha Lagoa, representada principalmente pelo senador Francisco Rocha Lagoa e sua esposa, Amélia Amaral Rocha Lagoa, filha do coronel Francisco Teixeira Amaral.

De acordo com o Inventário de Proteção do Acervo Cultural (Ipac), a mais antiga referência ao imóvel data de 1806. Naquele ano, consta do Livro de Tombos de Terrenos Foreiros a informação de que “Vicência Moreira de Oliveira possuía uma casa na rua da ladeira que segue para a capela de São José”. O documento destaca ainda que a primeira referência direta ao coronel Francisco Teixeira Amaral se deu em 1872.

Setenário das Dores
Confira a programação

» Ouro Preto
Local: Igreja de Nossa Senhora das Dores, no Centro Histórico
De 1º a 7 de abril, às 19h, com a participação do Coral Pio X

» Santa Luzia
Local: Paróquia Santuário de Santa Luzia, no Centro Histórico
Segunda-feira, às 17h – Mutirão de confissões na Matriz
Dia 1º de abril, às 19h – Missa solene de abertura do Setenário de Nossa Senhora das Dores
Dia 2, às 19h – Primeira Dor (Profecia de Simeão), seguida de missa
De 3 a 8, às 19h30 – Meditação e reza de Nossa Senhora das Dores

» Sabará
Local: Igreja de São Francisco, no Largo de São Francisco, no Centro Histórico
De 2 a 8, às 19h, com participação da Orquestra Santa Cecília na abertura e no encerramento. No dia 8, haverá a procissão do Depósito de Nossa Senhora das Dores, em direção às Mercês
Local: Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na Praça Getúlio Vargas
De 2 a 8, às 19h

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Climatizadores instalados em igreja geram polêmica em Divinópolis (MG)


Equipamentos funcionam no Santuário para diminuir calor, aponta paróquia. Conselho vê ameaça à pintura histórica; MP foi informado e pediu detalhes.

Operários instalam climatizadores no Santuário de Santo Antônio. (Foto: Flávio Flora/Agora)

Operários instalam climatizadores no Santuário de Santo Antônio. (Foto: Flávio Flora/Agora)

Um sistema de climatização instalado no Santuário de Santo Antônio, em Divinópolis, tem causado preocupação para o Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico (Conphap). Apesar de o equipamento diminuir o calor durante as missas celebradas no templo, o uso dele pode oferecer riscos à pintura interna, que é formada por afrescos tombados.

O conjunto de equipamentos começou a funcionar no dia 10 de março e para evitar problemas, uma alerta foi feita à Promotoria de Justiça de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, que pediu explicações à paróquia.

De acordo com Anisio Fonseca de Azevedo, que integra o Conselho Paroquial Administrativo e que coordenou as obras de instalação dos climatizadores, muitos fieis reclamavam do calor que sentiam durante missas.

“Após diversos estudos, optamos por instalar o climatizador evaporativo, que não lança gotas de água junto com o ar, uma vez que a água é utilizada para umedecer colmeias de celulose que se localizam atrás da hélice”, explicou, acrescentando que os aparelhos serão usados apenas durante eventos.

Mas, o Conphap questiona essa afirmação. Quando começou a funcionar, integrantes do órgão estiveram no Santuário para verificar o funcionamento dos climatizadores, que começou a ocorrer em fase de testes.

João Batista Rodrigues, arquiteto e consultor do órgão, explicou que um técnico emitido pela empresa que fabrica os climatizadores indica que ele funciona criando umidade dentro do imóvel. “Isso não vai gerar um efeito colateral na pintura interna de um dia para o outro. Mas, a médio prazo, de mais ou menos um ano, vão surgir umidade e mofo na pintura. Isso vai ser um dano ao patrimônio”, afirmou.

Karine Mileibe, historiadora e secretária do Conphap, afirma que o órgão não foi consultado sobre a instalação antes de as obras começarem. De acordo com ela, o órgão precisa ser consultado sempre que alguém pensa em executar uma mudança ou alteração em bens tombados pelo patrimônio histórico e cultural.

“A pintura interna, feita em 1988, é tombada pelo Município. Isso a torna protegida por lei, sendo proibida toda e qualquer descaracterização. Algo que pode danificar a pintura interna a longo prazo precisa ser avaliado”, acrescentou.

Vista externa do Santuário de Santo Antônio após instalação de climatizadores. (Foto: Flávio Flora/Agora)

Vista externa do Santuário de Santo Antônio após instalação de climatizadores. (Foto: Flávio Flora/Agora)

A presidente do Conphap, Sonia Terra, disse que os motivos alegados pelo arquiteto e pela historiadora apontam incertezas técnicas da obra e possíveis consequências ruins dela. Por isso, um pedido de ajuda foi enviado ao Ministério Público. “Consideramos a instalação desses climatizadores como um crime contra a cultura. Por isso, enviamos um ofício à Promotoria de Justiça de Patrimônio Cultural. Ainda não manifestaram nada”, comentou.

Especialista em restauro
O G1 ouviu também a restauradora Thaís Gontijo Venuco. Formada em Conservação e Restauro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestranda em Ambientes Construídos pela Escola de Arquitetura da mesma instituição, ela atua como gerente de Memória e Patrimônio da Secretaria de Cultura de Divinópolis e conhece as características da pintura interna do Santuário.

“Conforme foi dito pelo responsável pela instalação dos climatizadores, os equipamentos não vão expelir água como ocorre em um ar-condicionado. Mas, o resfriamento do ar é feito por uma colmeia por onde a água passa. Através disso, entra umidade não em forma líquida, mas em vapor. Quando o ar quente entrar em contato com a superfície fria, pode ocorrer condensação de água. O dano que isso pode causar não é visível de hoje para amanhã. É algo que ocorre a longo prazo”, justificou.

A especialista critica também a afirmação de que os climatizadores só serão ligados durante as missas. “Isso gera um problema ainda maior, porque a pintura vai sofrer constantes variações de temperatura. A pintura interna do Santuário é feita com caseína, que é uma proteína do leite. É uma técnica muito sensível”, acrescentou.

Anisio Fonseca de Azevedo, do Conselho Patrimonial Administrativo, rebateu as críticas à instalação dos climatizadores. “Para que ocorra danos a qualquer estrutura decorativa, mobília ou equipamentos, o ar precisaria estar saturado para assim molhar o ambiente. Como o processo resfria o ar através da evaporação da água, com certeza o mesmo fica carregado com um percentual de umidade levemente acima do ambiente externo, podendo a umidade do ar no interior varia na média entre 40% a 70%. Para este sistema manter o ambiente climatizado com eficiência e não deixar o ar úmido saturar no ambiente, deverão ser mantidas as portas e janelas abertas para ocorrer a renovação de ar. Sem a saturação do ar com umidade, como já dito anteriormente, não haverá dano algum à estrutura, pintura, afrescos e equipamentos dentro do Santuário”, acrescentou.

Plásticos protegem paredes durante obras para instalação de climatizadores no Santuário de Santo Antônio em Divinópolis. (Foto: Flávio Flora/Agora)

Plásticos protegem paredes durante obras para instalação de climatizadores no Santuário de Santo Antônio em Divinópolis. (Foto: Flávio Flora/Agora)

O G1 tentou contato com a 12ª Promotoria de Justiça, que integra a Promotoria de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, mas não obteve retorno. Na tarde desta segunda-feira (20), Anisio Azevedo disse à reportagem que recebeu do Ministério Público um pedido de explicações sobre a instalação dos climatizadores. “Todas as informações que temos estão sendo repassadas. Nós somos os maiores interessados na preservação do Santuário”, finalizou.

Por Ricardo Welbert

Fonte original da notícia: G1 Centro-Oeste de Minas




Crânio encontrado no Brasil altera a história da ocupação das Américas


Análises morfológicas sugerem a ocorrência de duas ondas migratórias.

Crânio encontrado em cidade mineira contesta teoria de apenas uma migração para América do Sul - Mauricio de Paiva

Crânio encontrado em cidade mineira contesta teoria de apenas uma migração para América do Sul – Mauricio de Paiva

Um crânio encontrado no sítio arqueológico Lapa do Santo, em Lagoa Santa, Minas Gerais, pode reescrever a história da ocupação das Américas. Análises morfológicas sugerem que em vez de uma, foram ao menos duas grandes ondas migratórias que chegaram ao continente há milhares de anos. Essas populações vindas da Ásia cruzaram o estreito de Bering e desceram pela costa da América do Norte, até chegar à América do Sul.

— Quando você olha para os dados genéticos contemporâneos, a sugestão, particularmente para a América do Sul, era de uma onda de migração e que os povos indígenas sul-americanos eram todos descendentes dessa onda — disse Noreen von Cramon-Taubadel, professor de Antropologia na Universidade de Buffalo, nos EUA, e líder do estudo publicado no início do mês na revista “Science Advances”. — Mas os nossos dados sugerem que existiram ao menos duas, senão mais ondas de pessoas entrando na América do Sul.

O debate sobre o modelo de ocupação das Américas é antigo na comunidade acadêmica. Hoje, existe quase um consenso de que os primeiros humanos entraram no continente há pelo menos 15 mil anos, e dispersaram rapidamente para a América do Sul, pela costa do Pacífico. Estudos arqueológicos indicam, no entanto, a existência de uma diferenciação incomum na morfologia cranial dos povos sul-americanos, em relação a outras regiões do mundo.

Muitos estudos baseados em análises genéticas de povos nativos sul-americanos do passado e contemporâneos apoiam a tese de uma única migração para a parte Sul do continente, com a diferenciação subsequente pelo isolamento de diferentes grupos humanos. Isto porque, quando um mesmo grupo se separa em dois, que não mais se relacionam, cada um deles começa a desenvolver assinaturas genéticas únicas, e crânios diferentes — e por essa teoria todos os povos indígenas modernos da América do Sul descendem de apenas uma onda de dispersão.

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Porém, ressaltam os pesquisadores, existem poucos dados genéticos disponíveis sobre povos “paleoamericanos”, que chegaram ao continente provavelmente durante o Pleistoceno, era geológica encerrada há 12 mil anos com o fim do último período glacial. “Também é necessário notar que, apesar de todos os povos do passado terem um ancestral, nem todas as populações deixam descendentes. Então, os “paleoamericanos” não necessariamente contribuíram para a história genética dos nativos americanos contemporâneos”.

— Fazendo uma analogia com o teste de paternidade, seria bom usarmos amostras genéticas para fazer comparações, mas o DNA desses povos antigos não está disponível. Então, nós usamos a morfologia craniana — explicou o paleantropólogo brasileiro André Strauss, professor na Universidade de Tubinga, na Alemanha, e coautor do estudo. — A boa notícia é que existe uma correlação entre a morfologia craniana e o DNA.

A tese sustentada por Cramon-Taubadel, Strauss e Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio, é que uma primeira onda migratória chegou ao Sul do continente provavelmente entre 20 mil e 15 mil anos atrás, ainda no Pleistoceno, e foi extinto ou teve uma contribuição marginal para a genética dos nativos modernos. Um segundo grupo chegou depois, entre 12 mil e 10 mil anos atrás, já no Holoceno, e se estabeleceu na região dando origem aos povos indígenas encontrados pelos europeus no Novo Mundo.

Da Ásia para a América na pré-história

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— Pela morfologia, encontramos uma variedade humana muito diferente desses nativos mais recentes — disse Strauss. — O crânio que analisamos data de entre dez mil e oito mil anos. Existem indícios de que populações dessas duas ondas migratórias coexistiram, mas esse não foi o tema do estudo.

Ancestral comum fora da América

Além disso, as análises indicam que os “paleoamericanos” compartilham um ancestral comum com os nativos sul-americanos modernos fora do continente.

— Todos os seres humanos vieram para a América do Nordeste Asiático, cruzando o estreito de Bering — disse Strauss. — Essas duas populações têm a mesma origem, mas vieram em momentos diferentes.

O conflito de dados entre a morfologia e a genética alimenta o debate sobre como os primeiros humanos chegaram às Américas. O trio de pesquisadores sustenta a teoria de duas ondas migratórias, afirmando que as conclusões são similares a outras pesquisas morfológicas, mas por uma metodologia inovadora. Até então, cientistas buscavam por similaridades entre a morfologia de ossadas pré-históricas com os nativos modernos.

Cramon-Taubadel e seus colegas fizeram o caminho inverso. Eles olharam para os nativos modernos como descendentes possíveis de muitos ramos de uma árvore genealógica teórica e usaram a estatística para determinar onde a amostra melhor se encaixava. O método tem a vantagem de não predeterminar modelos de dispersão, mas considerar todos os padrões possíveis de ascendência.

— Foi um estudo de ancestralidade, como quando uma pessoa quer saber quem é seu tataravô. Mas em vez de indivíduos, nós tratamos de populações de 10 mil, 15 mil anos atrás — disse Strauss.

Crânio ainda no sítio arqueológico de Lapa do Santo. Foto: André Strauss

Crânio ainda no sítio arqueológico de Lapa do Santo. Foto: André Strauss

Por Sérgio Matsuura 

Fonte original da notícia: O Globo




Detentos de Ouro Preto (MG) trabalham na conservação do patrimônio


Após passar por treinamento, detentos atuam na conservação do patrimônio, iniciativa que permite a redução das penas e lhes abre portas para refazer a vida na cidade.

Reeducandos roçam jardins do Casarão Rocha Lagoa, numa parceria que diminui os dias passados na prisão e garante economia para a cidade. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Reeducandos roçam jardins do Casarão Rocha Lagoa, numa parceria que diminui os dias passados na prisão e garante economia para a cidade. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Quando sair da cadeia em maio, S., de 35 anos, pai de uma menina, sabe que vai enfrentar o preconceito da sociedade e receber olhares enviesados de muita gente ao revelar que pegou quatro anos por praticar assalto. Mesmo assim, ele pretende conseguir um emprego e ter vida nova na cidade onde nasceu e cumpre pena em regime semiaberto. “Quero trabalhar, ficar por aqui. Espero que as pessoas confiem em mim, me deem oportunidade, um emprego”, diz o detento, deslizando com precisão a roçadeira sobre o gramado do jardim do Casarão Rocha Lagoa, sede da Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio. A exemplo de S., mais oito presos, no mesmo regime, participam do Programa de Liberdade de Assistência ao Encarcerado (Prolae), que lhes deu a chance de aprender um ofício e, agora, de atuar na preservação de monumentos históricos de Ouro Preto.

A iniciativa da prefeitura local foi idealizada em janeiro, quando o país fervilhava com as rebeliões nos presídios do Amazonas e Rio Grande do Norte, que deixaram dezenas de mortos e um clima de insegurança nacional. “Enquanto o Brasil discute a questão carcerária, pensamos na ressocialização e na dignidade humana. Ouro Preto, assim, dá o exemplo com uma ação positiva do reeducando na cidade onde vive. Esses homens foram capacitados, ganharam experiência e poderão ter uma carta de apresentação”, conta o secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira.

O secretário explica que, ao assumir o governo, a nova administração encontrou os cofres públicos vazios e uma dívida alta: “E, aqui, os jardins degradados, tomados pelo mato. Foi então que procuramos o Poder Judiciário e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para, em caráter excepcional, fazer uma parceria e absorver os detentos do Prolae, programa vinculado à direção do presídio de Ouro Preto. Tudo isso só foi possível, acrescenta, graças ao empenho do Executivo municipal e do irrestrito apoio da direção do presídio e do Prolae, da Vara Criminal e da Promotoria de Justiça. “As autoridades envolvidas foram sensíveis às dificuldades enfrentadas pelo município e apoiaram a proposta”, diz Zaqueu.

Sem recursos para faxina geral em monumentos que fazem a beleza da cidade reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, os presos começaram a trabalhar no início do mês passado e seguem nessa lida até maio, cuidando ainda do prédio histórico da Secretaria Municipal de Assistência Social, doado pelo Barão de Camargos, no Bairro Passa-Dez, e outros de relevância. “O serviço inclui limpeza e jardinagem e os custodiados estão fazendo tudo muito direito. Nenhum deles veio obrigado e sim de forma voluntária”, explica Zaqueu.

Orgulho. O grupo de presos, sob a supervisão de um funcionário da prefeitura local, cumpre jornada diária de oito horas, durante cinco dias da semana, recebe alimentação e transporte fornecidos pela prefeitura e, para cada três dias trabalhados tem remição de um dia na pena. “Todos os internos foram selecionados pela direção do Presídio de Ouro Preto”, observa o secretário. O prefeito Júlio Pimenta (PMDB) se mostra satisfeito com o resultado, exibe com orgulho, na tela do celular, a repercussão nas redes sociais e planeja o próximo passo, dentro do Prolae: o emprego dessa mão de obra no restauro de bens tombados. A intenção é firmar um convênio para tornar o programa prática contínua.

Com uniformes diferenciados dos da Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi)/Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), comprados pela prefeitura a pedido do MPMG e da Justiça, os presos se deslocam pelo gramado e jardins do casarão, que se alonga por uma encosta, com muros de pedra seculares dando sustentação. “Estamos planejando uma iluminação especial para que moradores e visitantes conheçam esse patrimônio de Ouro Preto. A vista daqui é muito bonita, podemos ver igrejas, casarões, o Museu da Inconfidência e outras construções dos tempos coloniais”, adianta Zaqueu. Ele lembra que, no Prolae, os reeducandos têm uma série de atividades e cuidam de um viveiro de plantas.

No fim da manhã, o preso S. continua sua tarefa e daqui a pouco vai parar e seguir para o almoço. “Já trabalhei antes de ser preso. Acho que este programa é um exemplo para o Brasil”, afirma com a voz baixa. Interno há quatro anos dentro de uma sentença de 10, por tráfico de drogas, W., de 28, cuja mãe mora em Belo Horizonte, está certo de que o trabalho “distrai a mente, o que para nós é muito melhor”. E afirma que “ninguém fica no crime para sempre”. Seguindo para a refeição, ele acrescenta. “Este aqui é um bom jeito de recomeçar, pois há muito para fazer”.

Histórico. O Casarão Rocha Lagoa fica na Rua Teixeira Amaral, ladeira de acesso às igrejas São José e São Francisco de Paula e rodoviária de Ouro Preto. De provável construção datada do fim do século 18, o sobrado recebeu esse nome por ter sido residência, já na segunda metade do século 19, da tradicional família Amaral e Rocha Lagoa, representada principalmente pelo senador Francisco Rocha Lagoa e sua esposa Amélia Amaral Rocha Lagoa, filha do coronel Francisco Teixeira Amaral.

Conforme o Inventário de Proteção do Acervo Cultural (Ipac), a mais antiga referência ao imóvel data de 1806. Nesse ano, consta do Livro de Tombos de Terrenos Foreiros a informação de que “Vicência Moreira de Oliveira possuía uma casa na rua da ladeira que segue para a capela de São José”. O documento destaca ainda que a primeira referência direta ao coronel Francisco Teixeira Amaral se deu em 1872.

O que diz a lei  – Benefício por trabalhar

A Lei de Execução Penal (7.210/84) dispõe sobre a remição de parte do tempo de cumprimento da pena por estudo ou trabalho. O inciso um do artigo 126 assegura ao condenado no regime fechado ou semiaberto que um dia da pena será descontado para cada 12 horas de frequência escolar (ensinos fundamental, médio, profissionalizante, superior ou de requalificação profissional) divididas, no mínimo, em três dias. Já o inciso dois garante o desconto de um dia a cada três trabalhados. Por sua vez, o artigo 127 determina que, “em caso de falta grave, o juiz poderá revogar até um terço do tempo remido (…), recomeçando a contagem a partir da data da infração disciplinar.”

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Iepha-MG conclui obras de preservação do patrimônio cultural em Brumal, distrito de Santa Bárbara


Termo de Ajustamento de Conduta garantiu a recuperação de fachadas do núcleo histórico e de importante igreja tombada.

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O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) finalizou as obras de restauração e reforma da Capela do Senhor dos Passos, em Brumal, distrito de Santa Bárbara, incluindo o adro, o cruzeiro, a imagem do Senhor dos Passos e o sacrário. Foram também recuperadas as fachadas de treze edificações situadas na Rua Principal e na Praça Santo Amaro. O município faz parte do território Metropolitano do estado.

Totalizando o valor de R$637.243,67, o recurso investido veio de um Termo de Compromisso firmado com o Ministério Público de Minas Gerais. A recuperação dos bens culturais teve o acompanhamento técnico do Iepha-MG durante todo o processo, que contou com a colaboração e apoio da comunidade local. A restauração da imagem do Senhor dos Passos, datada do século 19, teve sua conclusão no final de 2016.

Para a presidente do Iepha-MG, Michele Arroyo, a conclusão das obras em Brumal reforça ainda mais o compromisso do Governo de Estado de Minas Gerais de preservar o patrimônio cultural dos mineiros. “Minas Gerais possui um acervo cultural muito rico, presente na memória das pessoas, por isso precisamos concentrar os nossos esforços na preservação desses bens históricos”, ressalta a presidente.

Núcleo histórico de Brumal

A origem do município de Santa Bárbara está relacionada à exploração de ouro, no início do século 18, com o descobrimento de minas pelo bandeirante Antônio da Silva Bueno, o que impulsionou o povoamento da região. Embora as minas de ouro do arraial tenham inicialmente se apresentado pobres, o povoado de Brumal consolidou-se na primeira metade do século XVIII, tendo a Capela do Senhor dos Passos sido erguida no século 19.

Em fevereiro de 1831, Brumal recebeu a visita ilustre de Dom Pedro I e da Imperatriz D. Amélia, que, a caminho do Santuário do Caraça, pernoitaram no arraial. No ano de 1881, foi a vez de Dom Pedro II visitar Brumal. A proteção do Centro Histórico de Brumal ocorreu em abril de 1989, por meio do seu tombamento estadual.

Fonte original da notícia: IEPHA




Polícia Civil investiga pichação no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG)


Vandalismo em monumento que é destaque do complexo reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco revolta autoridades e cidadãos.

Sujeira ocupa uma área de 20 metros do museu. (Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Sujeira ocupa uma área de 20 metros do museu. (Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Crime contra o patrimônio mundial, agressão à história do Brasil e desrespeito ao povo de Minas e de Ouro Preto, antiga Vila Rica, na Região Central do estado. O Museu da Inconfidência, uma das instituições culturais mais importantes do país, foi alvo de pichação na madrugada de ontem: na lateral direita da construção do século 18, ícone da Praça Tiradentes, no Centro Histórico, uma pessoa ainda não identificada escreveu com spray, sobre as pedras que dão testemunhos de séculos de história, as palavras “patrimônio da humanidade elitista”.

Câmeras de segurança do museu registraram o momento do vandalismo, mas, segundo a Polícia Civil, a a análise da gravação sozinha ainda não permite identificar o autor do crime. Conforme a assessoria da corporação, foi feita perícia e mais investigações estão em andamento para verificar se foi apenas um o autor da ação, classificada como “uma cretinice” pelo diretor do museu, Rui Mourão.

De manhã, equipe da Polícia Militar de Ouro Preto esteve no local e fez o boletim de ocorrência, que foi encaminhado à delegacia local. As informações foram prestadas por um segurança de plantão e as primeiras análises da câmera de vigilância, segundo técnicos do Museu da Inconfidência, vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), mostraram que a pichação ocorreu antes das 6h. As palavras escritas ocupam cerca de 20 metros e podem ser vistas por quem passa pela Rua Antônio Pereira, que desemboca no espaço público tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Chamar este museu de elitista é um absurdo. Está aberto à coletividade e, aos domingos, a entrada é gratuita para os ouro-pretanos”, disse Mourão, referindo-se a um dos termos da pichação e explicando que vai mandar fazer a limpeza assim que possível. “Vamos esperar o resultado da perícia. Estou procurando o produto indicado para retirar a tinta sem causar danos às pedras”, informou. Ele lembrou que se trata da segunda pichação ao museu – a primeira ocorreu em 2010, quando foi escrita uma frase contra um político local.

Mourão disse que é preciso prender o responsável pela sujeira deixada no prédio do Inconfidência, o segundo museu federal mais visitado do país, com 150 mil pessoas/ano, atrás apenas do Museu Imperial, de Petrópolis (RJ). Na avaliação do diretor, trata-se de caso semelhante ao da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, igualmente alvo de pichação há quase 11 meses. Assim como a Pampulha, que detém o conjunto arquitetônico moderno, o Centro Histórico de Ouro Preto é reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade, título concedido em 1980 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Indignação. Moradores locais, turistas estrangeiros e brasileiros e defensores do patrimônio cultural se disseram horrorizados e revoltados com a pichação. Ao verificar bem de perto a sujeira deixada pelo vândalo, a turista francesa Miky Guichot-Perere observou: “É o mesmo que pichar o Louvre”, numa referência ao célebre museu de Paris. “Esta cidade é magnífica, maravilhosa. Já vim a Ouro Preto três vezes e acho tudo muito bonito. Isso que ocorreu não é bom”, afirmou.

A francesa, que trabalha no setor de comunicação, estava acompanhada do casal Vitor Revidiego Lopes, administrador, e Maria Helena, residentes em Artur Moreira, na Região Metropolitana de Campinas (SP). “Esses atos de vandalismo mostram o quanto somos tolerantes com esse tipo de agressão ao patrimônio, alheio e público. A gente fica triste, é uma situação absurda”, afirmou Vitor. Maria Helena acrescentou que fatos dessa natureza devem ser denunciados e os responsáveis, punidos.

Monumento é o segundo museu federal mais visitado do Brasil. (Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Monumento é o segundo museu federal mais visitado do Brasil. (Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Funcionária de uma loja na Rua Antônio Pereira, a poucos metros da pichação, Lucimar das Graças Fernandes contou ter ficado revoltada ao chegar para trabalhar. “É absurdo, pois também ‘queima o filme’ de Ouro Preto, prejudica a nossa cidade.” Os estudantes Guilherme Resende, de 21, aluno de química industrial, natural de Barbacena e há dois anos em Ouro Preto, e Larissa Carvalho, de 20, de engenharia geológica, também criticaram a pichação. “É um protesto inválido. A pessoa que fez isso deveria escrever tais palavras num cartaz e afixá-lo na parede da casa dela. Aqui, jamais”, disse Larissa, fã incondicional do patrimônio de sua cidade. “Tenho um apego gigantesco por Ouro Preto”, resumiu. “Tem que pegar esse vagabundo, fazer ele limpar, pois agrediu o patrimônio brasileiro”, afirmou o aposentado Rubens Tavares dos Santos.

História. Em texto sobre o Museu da Inconfidência, Rui Mourão, que está na direção da instituição há 42 anos, escreveu: “Rompendo tradição que vinha dos tempos do reinado brasileiro de dom João VI, o Museu da Inconfidência foi o primeiro a se instalar fora da faixa litorânea do país. A criação decorreu de uma ação política. Em 1936, o presidente Getúlio Vargas, que planejava a implantação da ditadura do Estado Novo, resolveu se fortalecer junto à população, apresentando-se como defensor de uma das nossas tradições mais sensíveis. Promoveu o repatriamento dos restos mortais dos inconfidentes condenados a degredo na África, onde se encontravam sepultados. As urnas funerárias, na sua chegada, ficaram longamente expostas à visitação pública no Rio de Janeiro. Assinado o Decreto 965, de 20/12/1938, de criação do museu, a transferência das ossadas para Ouro Preto contou com o acompanhamento de Vargas. (…) O governo de Getúlio Vargas mandou vir os originais do 7º volume dos Autos da Devassa, que continha a sentença condenatória de Tiradentes, e duas traves da forca em que pendeu o mártir da Inconfidência, na Praça da Lampadosa”.

Memória
História maculada

Em 21 de março do ano passado, os olhos dos brasileiros se voltaram para a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, joia da arquitetura moderna projetada na década de 1940 por Oscar Niemeyer (1907-2012). O painel de azulejos de Cândido Portinari (1903-1962) e a lateral de mosaicos foram pichados com tinta spray azul e roxa, numa agressão ao bem tombado nas esferas municipal, estadual e federal do patrimônio. Três pessoas foram denunciadas, e duas delas, presas. O Ministério Público de Minas Gerias conseguiu provas indicando que a depredação fora planejada. Depois de estudos e muita discussão, a superfície ficou livre da sujeira e à disposição dos milhares de visitantes que chegam ao local diariamente.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Ouro Preto (MG) tem tesouros históricos escondidos em seus arredores


Em distritos da antiga capital das Gerais se escondem templos centenários ricos em história e desconhecidos até de moradores locais. Pesquisa mapeou um total de 131 igrejas e capelas.

Alex Bohrer listou templos na sede e em 12 distritos de Ouro Preto, como Engenheiro Corrêa, que abriga a Capela de Santo Antônio do Monte. Resultado virou livro. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Alex Bohrer listou templos na sede e em 12 distritos de Ouro Preto, como Engenheiro Corrêa, que abriga a Capela de Santo Antônio do Monte. Resultado virou livro. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Os gritos da seriema protegendo o ninho sinalizam que tem gente na área. À medida que se aproximam os passos, a ave aumenta seu estridente alerta. Numa árvore, cigarras saúdam a manhã com seu canto, enquanto, na paisagem de montanhas, o pico do Itabirito sobressai ao longe como eterna sentinela. O distrito de Engenheiro Corrêa, a 35 quilômetros do Centro Histórico de Ouro Preto, na Região Central, guarda um tesouro, nas cercanias, que poucos visitantes e até moradores da cidade conhecem. Trata-se da Capela de Santo Antônio do Monte, construída no século 18, reformada no 19, com intervenções no 20 e hoje uma construção isolada em área rural do município detentor de bens tombados pela União e reconhecidos como Patrimônio Cultural da Humanidade. A exemplo desse templo, outras igrejas e capelas continuam longe dos olhos de brasileiros e estrangeiros, conforme conta o professor de história da arte e iconografia Alex Bohrer. Depois de oito meses de trabalho, ele concluiu uma pesquisa que identificou 131 igrejas e capelas na sede e 12 distritos de Ouro Preto. O resultado está agora em livro.

“É um estudo bem detalhado, com fotografias coloridas, que servirá também como guia para visitantes. Nesse mergulho pela nossa história, verificamos que há capelas muito mais antigas dos que as matrizes conhecidas de Ouro Preto, como Pilar, Carmo e Nossa Senhora da Conceição. Acredito que o livro poderá nortear futuros tombamentos pelos órgãos de defesa do patrimônio, já que nem todos os monumentos têm esse tipo de proteção individual, diz o professor, que participou, na quinta-feira, no Memorial Minas Vale, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, do lançamento do livro Igrejas e Capelas – Ouro Preto, em caprichada edição trilíngue (português, inglês e francês). O trabalho editorial de Paulo Lemos conta com apresentação do jornalista Mauro Werkema, também autor do texto sobre a Igreja de São Francisco de Assis.

Ao acompanhar a equipe do Estado de Minas nessa viagem pelos espaços sagrados de Ouro Preto, Bohrer explica que foram contempladas capelas e igrejas do século 17 ao 21, notando-se uma característica básica. “É impressionante, pois, nas construções mais recentes, a forma de capela é sempre a mesma. As pessoas seguem o partido (formato) das primitivas”, diz o professor, que leciona no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). Diante da Capela de Santo Antônio do Monte, aonde se chega pelo Caminho Velho da Estrada Real (Vila Rica a São Paulo), ele ressalta a importância da arte religiosa na vida da cidade que, devido à exploração centenária do ouro, sediou templos católicos em todos os distritos (Cachoeira do Campo, São Bartolomeu, Glaura, Miguel Burnier, Engenheiro Corrêa, Lavras Novas, Antônio Pereira, Amarantina, Santo Antônio do Leite, Rodrigo Silva, Santo Antônio do Salto e Santa Rita de Ouro Preto). Em Engenheiro Corrêa, o professor mostra, na parte urbanizada, a Capela de São José, erguida no fim do século e início do 20, de linhas sóbrias e tendências neoclássicas.

Mais antiga. No trabalho, Bohrer, acompanhado dos estudantes bolsistas Tássia Rocha e Jefferson Alexandre, de conservação e restauração, e Thatyanna Mota, de jornalismo, encarregada do registro fotográfico, visitou todas as 131 igrejas, capelas e Passos da Paixão de Cristo. Na caminhada, o grupo esteve na Capela de Santa Quitéria da Boa Vista, datada de cerca de 1680, localizada no distrito de Rodrigo Silva. “Uma orientanda minha no mestrado, Jussara Duarte, descobriu documentação inédita e podemos dizer, sem medo de errar, que essa é a mais antiga de Ouro Preto”, afirma Bohrer, autor de Ouro Preto: Um novo olhar, lançado em 2011.

É impressionante como praticamente a cada esquina surge um novo espaço religioso católico, fruto da ação dos monges e freis e das ordens terceiras ou de leigos. Na pesquisa, Bohrer verificou que a maior parte dos templos foi edificada no século 18, época áurea da mineração (1720-1760) e também apogeu das irmandades. No século 19 houve declínio do período aurífero e fortalecimento da agricultura e chegada da ferrovia, o que favoreceu o surgimento de templos ao longo das linhas de trem. Já no 20 ocorreu a ascensão da metalurgia, como no distrito de Miguel Burnier, onde o destaque vai para a Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora de Calastrois, atualmente em estado crítico de conservação. “De maneira geral, o patrimônio da sede e dos municípios está bem preservado. Há, claro, templos demandando restauro, mas perdeu-se muito pouco. Ha poucas ruínas”, diz o professor.

Dupla devoção. A cerca da casa ainda está enfeitada com bandeiras vermelhas, herança da festa de São Sebastião celebrada dia 20, e parece dar as boas vindas a quem chega ao Morro de São Sebastião, a dois quilômetros da Praça Tiradentes, no Centro Histórico de Ouro Preto. O lugar também é desconhecido da maioria, diz o morador José Carlos da Costa, de 79, natural do distrito de São Bartolomeu e residente no local desde 1962: “Aqui é mesmo bem reservado, mas todo sábado tem missa às 15h; às quartas e sextas, de manhã, tem a reza do terço. É um bom momento para conhecer a igreja construída no século 18”. As duas torres são vazadas e José Carlos explica que havia sinos. Perguntado se é devoto de São Bartolomeu ou de São Sebastião, ele responde sem titubear, como bom mineiro: “Dos dois, mas São Sebastião é meu vizinho, né?”

Alex Bohrer conta que as capelas dos morros são pouco divulgadas e merecem uma visita. É o caso também da Capela de São João, no Morro de São João, mais exatamente na Praça de São João de Ouro Fino. “A primeira data referente à capela é 24 de junho de 1698, quando foi celebrada missa campal no dia de São João”, conta o zelador, Luiz Gordiano Gonçalves, de 70, pertencente à irmandade de São João. Com as chaves na mão, ele diz que a melhor oportunidade para conhecer o templo é durante missa dos domingos, às 17h, e também na celebração em honra do padroeiro. Não muito longe fica o Morro de Santana, onde está a capela de mesmo nome, com um muro de pedras como base.

Joias do Barroco. Escrever sobre Ouro Preto é falar das igrejas que enchem os olhos dos turistas e de orgulho os visitantes, muitos deles surpresos com o número levantado pela equipe. “Não sabiam que eram tantas! As capelas e igrejas são uma bênção para todos nós”, diz  Marta Cordeiro, de 58 anos, aposentada e moradora da Rua Santa Efigênia. Da janela de casa, ela avista a Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em restauração e agora na cor amarelo-ocre.

No distrito de Cachoeira do Campo, onde mora, Bohrer lembra que na praça diante da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré ocorreram momentos decisivos da história de Ouro Preto, como a Sedição de Vila Rica, em 1720, cujo protagonista foi Felipe dos Santos, e a Guerra dos Emboabas. Bohrer lembra que foi dentro da matriz, ainda em construção, em 1708, que o português Manuel Nunes Viana se sagrou, por aclamação popular, primeiro governador das Gerais. Eram tempos da Guerra dos Emboabas e Cachoeira do Campo foi campo da batalha mais sangrenta na disputa pelo ouro. “O que não falta em Ouro Preto é história”, conclui.

Capela de Santa Quitéria da Boa Vista. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Capela de Santa Quitéria da Boa Vista. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Séculos 17 e 18 (Primeira Metade)

Capela de Santa Quitéria da Boa Vista, no distrito de Rodrigo Silva
Capela de Santo Antônio do Monte, no distrito de Engenheiro Corrêa
Capela de São Sebastião, no Morro de São Sebastião
Capela de São João, no Morro de São João

Capela de São João. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Capela de São João. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Século 18 (Segunda metade)

Igreja de São Francisco de Assis
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Igreja de Nossa Senhora das Dores, de Cachoeira do Campo

Século 19

Igreja de São Francisco de Paula, no Centro Histórico
Capela do Bom Despacho, em Cachoeira do Campo

Século 20

Capela de São José, em Engenheiro Corrêa

Capela de São José. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Capela de São José. (Foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas