Cruzeiro da Barra é restaurado e volta à paisagem de Ouro Preto (MG)

Monumento tinha sido quebrado por dois adolescentes e abandonado, mas agora retorna para a celebração da Exaltação à Santa Cruz.

Restaurado após dois anos relegado ao abandono, o cruzeiro foi abençoado na reinauguração. Foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS

A celebração da Exaltação à Santa Cruz contará hoje na paisagem barroca da cidade reconhecida como patrimônio da humanidade com um marco religioso e cultural totalmente restaurado. Foi reinaugurado em Ouro Preto, na Região Central, o Cruzeiro da Barra, que, há dois anos, foi quebrado por dois adolescentes e relegado ao abandono. “A cruz é um sinal de salvação da humanidade e presente em vários pontos de Ouro Preto”, diz o cônego Luiz Carneiro, titular da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, ao abençoar o monumento.

O secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, explica que o monumento localizado na Praça Amadeu Barbosa, de autoria do mestre José Raimundo Pereira, o mestre Juca, e constituído por cantaria, espécie de rocha bruta, tem grande representatividade para o município, já que, no local, ficava a Coluna Saldanha Marinho, o primeiro marco em homenagem aos inconfidentes e atualmente instalado na Praça Cesário Alvim ou Praça da Estação. “A relevância também se deve ao fato de a base ser do século 20 e a cruz do século passado.”

Moradores e visitantes gostaram de ver o monumento de volta. “Ficou ótimo, excelente, e é mais um atrativo para os turistas”, o fiscal da feira de hortifrutigranjeiros, que funciona na Barra, Marcelo da Silva. Em duas épocas do ano, o cruzeiro é alvo de homenagens dos católicos: na Festa de Santa Cruz, em Maio, e 14 de setembro, na Exaltação à Santa Cruz, conforme disse o cônego Luiz Carneiro na reinauguração, em 18 de agosto.

Restauro. Construído em pedra-sabão e com quatro metros de altura em sua totalidade, o cruzeiro foi restaurado, e teve partes danificadas reproduzidas, com recursos municipais. O serviço foi entregue ao mestre canteiro Edniz José Reis, o que incluiu ainda limpeza, higienização e revitalização. Para garantir a segurança do bem e impedir novos atos de vandalismo ao patrimônio público, como o ocorrido há mais de dois anos e que deixou os braços da cruz quebrados, a Secretaria de Cultura e Patrimônio pediu o monitoramento pelas polícias Militar e Civil e. atenção redobrada. Segundo as autoridades, o cruzeiro ficou relegado ao abandono desde a agressão.

Para entender mais sobre a história de Ouro Preto, cujo Centro Histórico é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é importante lembrar que a coluna Saldanha Marinho foi erguida há 150 anos na Praça Tiradentes. Trata-se de um símbolo da Inconfidência Mineira, que homenageia Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, e os demais integrantes do movimento que tentou separar o Brasil de Portugal. Construída em pedra de cantaria, com seis metros de altura, e batizada com o nome do então presidente da província de Minas Gerais, a coluna tem trajetória peculiar, que alterna transferências de local com o sumiço que intrigou, durante décadas, moradores e estudiosos. Só em Belo Horizonte, ela ficou jogada num depósito por quase quatro décadas. Desde 2009, está na Praça da Estação.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Belo Horizonte (MG) quer receber exposição do Santander Cultural vetada em Porto Alegre (RS)

O presidente da Fundação Municipal de Cultura, Juca Ferreira, vê com ‘bons olhos’ a proposta de trazer a mostra “Queermuseu” para a capital mineira.

Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva, de Fernando Baril.

Cancelada no Santander Cultural, em Porto Alegre, no último domingo, após uma onda de protestos nas redes sociais, por causa da insatisfação de frequentadores, que acusaram a exposição de blasfêmia contra símbolos religiosos e também apologia à zoofilia e pedofilia, Belo Horizonte pode ser a próxima cidade a receber a mostra “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”.

Com mais de 270 obras de 85 artistas, que exploravam a diversidade dos gêneros e de diversidade sexual, o secretário de Cultura de Belo Horizonte, Juca Ferreira, vê com “bons olhos” a proposta da exposição como uma oportunidade para a cidade. “Estamos estudando se seria viável. Não há nada de concreto ainda, precisaríamos levantar qual espaço cultural da cidade poderia abrigar a exposição, tem a questão de financiamento também. Já estamos na metade do ano, os recursos estão comprimidos, mas é extremamente importante dar continuidade à mostra. Não podemos legitimar a volta da censura, conquistamos esse amadurecimento. A arte precisa de liberdade para que ela se desenvolva”, destacou.

Em seu perfil no Facebook, o ex-ministro da Cultura dos governos Lula (2008-2011) e Dilma Rousseff (2015-2016) criticou a decisão do Santander Cultural de cancelar antecipadamente a mostra, comparando a pressão feita contra a exposição por grupos ligados ao MBL com a censura do regime militar: “Os ecos do golpe de 1964 não nos deixam esquecer a tragédia de 25 anos de uma ditadura que se concretizou a partir da fabricação de um ambiente de instabilidade política, moralismo exacerbado, manipulação midiática e ruptura da coesão social. Não podemos nos enganar. A história se repete”.

O curador da mostra, Gaudêncio Fidelis, acredita que a obra seria bem recebida na cidade. A pressão viria de uma minoria conservadora. “A questão da logística poderia ser um dificultador, mas eu gostaria que qualquer lugar do país tivesse condições técnicas para receber a mostra. Foi um desrespeito com a curadoria e com os artistas selecionados. É um trabalho realizado desde 2010. Isto abre uma brecha sem precedentes no país. Capturaram e editaram imagens fora do contexto, criaram uma falsa narrativa. Foi um movimento orquestrado e conservador”, observa o curador.

Entre os autores expostos na “Queermuseu”, estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano e Ligia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos. Críticos da mostra afirmaram que alguns dos quadros representavam “imoralidade”, “blasfêmia” e “apologia à zoofilia e pedofilia”. Os comentários contra a exposição viralizaram nas redes, impulsionados por grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL). As pinturas mais compartilhadas mostram a imagem de um Jesus Cristo com vários braços, crianças com as inscrições “Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas” estampadas, além do desenho de uma pessoa tendo relação sexual com um animal. Travesti da lambada e deusa das águas é de 2013. A obra é de Bia Leite.

“Se vier para a cidade vamos protestar e continuar estimulando o boicote. Não existe censura quando não existe aparto coercitivo, somente mostramos nossa indignação e realmente estimulamos as pessoas a boicotarem a mostra. É uma exposição que agride a crença de diversas pessoas”, afirmou o coordenador do MBL de Belo Horizonte, Ivan Gunther.

Reembolso

Nesta segunda-feira, o Banco Santander comunicou que irá devolver à Receita Federal os R$ 800 mil captados via Lei Rouanet para a realização da exposição. Em nota, a instituição pediu desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra. O objetivo da empresa, de acordo com o comunicado, “é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”.

Exposição

Aberta no dia 15 de agosto e prevista para acontecer até 8 de outubro, a “Queermuseu” reuniu cerca de 20 mil visitantes no Sul do país.

Campanha no Facebook

No Facebook, internautas criaram uma página em apoio à vinda da exposição ‘Queermuseu’ para a capital mineira.  Horas depois da criação do evento, mais de 600 pessoas já se diziam interessadas. “Esta página tem por objetivo reunir pessoas que apoiam a reabertura da mostra! Viva a arte! Viva a liberdade!”, diz a página.

Não há pedofilia, diz promotor

Um dia após o cancelamento de uma exposição de diversidade sexual em Porto Alegre, dois promotores do Ministério Público do Rio Grande do Sul foram até o Santander Cultural, que sediava a mostra. A visita ocorreu na segunda-feira (11) e foi motivada por denúncias de que as obras estariam promovendo pedofilia e a sexualização de crianças, além de zoofilia.

“Fomos examinar in loco, ver realmente quais obras que teriam conteúdo de pedofilia. Verificamos as obras e não há pedofilia. O que existe são algumas imagens que podem caracterizar cenas de sexo explícito. Do ponto de vista criminal, não vi nada”, disse o promotor da Infância e da Juventude de Porto Alegre, Julio Almeida, ao portal de notícias G1.

Por Letícia Fontes

Fonte original da notícia: O Tempo




Peça sacra de quase 300 anos é levada de templo em Carandaí (MG)

Imagem de Nossa Senhora das Dores foi esculpida em 1724. Tudo indica que o crime tenha ocorrido no último sábado. Este é o quarto furto do ano em Minas.

Imagem de Nossa Senhora das Dores foi esculpida em 1724. Foto: Divulgação/Acervo Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Carandaí

O patrimônio cultural de Minas sofre um nove golpe – o quarto furto este ano. No fim de semana, foi levada da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Carandaí, na Região Central, a imagem de Nossa Senhora das Dores, esculpida em 1724 e com 60 centímetros de altura. Segundo o coordenador do Conselho Comunitário e Pastoral da Comunidade Matriz, Márcio Moreira, tudo indica que o crime tenha ocorrido no sábado, já que a peça foi vista pela última vez, durante a limpeza, no dia anterior. O objeto sacro ficava num altar na Capela do Santíssimo.

A ocorrência policial foi feita na terça-feira de manhã, já que o furto foi notado na véspera, à noite. “Um grupo de orações, que se reúne todas as segundas, estava passando atrás da capela, quando viu no chão o manto azul-escuro da santa. Foi então que soubemos do roubo”, disse Márcio. Ele ressaltou que se trata de uma imagem de roca, tendo, portanto, apenas a parte superior de madeira.

O coordenador informou que não há sinais evidentes de arrombamento no templo, que não dispõe de sistema de segurança, como câmeras ou alarmes, a não ser grade na frente e tranca nas portas e janelas. “Encontramos apenas um vidro da janela quebrado, cerca de 10 centímetros quadrados. Acreditamos que a pessoa passou a mão por ali a fim de abrir a porta. De todo jeito, não encontramos nada desarrumado”, afirmou.

Outra surpresa para os moradores de Carandaí, explicou Márcio, é que o ladrão levou apenas a imagem de Nossa Senhora das Dores. “Havia outros bens nos altares, como imagens e ostensório (custódia para a hóstia consagrada). Certamente, a pessoa sabia se tratar de uma peça valiosa”, afirmou o coordenador.

O templo, vinculado à Paróquia de Santana e também à Arquidiocese de Mariana, não é tombado pelo patrimônio histórico. Porém, a imagem tem grande importância histórica e espiritual em Carandaí desde 1726, quando foi erigida a Ermida de Nossa Senhora das Dores, em propriedade do capitão Manoel Gonçalves Viana.

Falhas. O número de ocorrências de furtos e arrombamentos caiu em Minas, mas os ladrões não dão trégua, aproveitando falhas na vigilância para levar imagens, sinos, objetos de ornamentação, castiçais e até pedaços de altares. De acordo com a Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico (CPPC) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), foram registrados, este ano, furtos de objetos sacros de igrejas de Oliveira, na Região Centro-Oeste, Lavras, no Sul, e no distrito de Miguel Burnier, em Ouro Preto, na Região Central.

Este ano, a campanha em Minas para resgate de bens desaparecidos de igrejas, capelas e museus completa 14 anos e está em busca de 730 peças sacras dos acervos históricos, conforme último levantamento da CPPC. O MPMG mantém o blog (patrimoniocultural.blog.br) com um banco de dado atualizado constantemente.

Para denunciar

MP de Minas Gerais
E-mail: cppc@mpmg.mp.br
Telefone (31) 3250-4620
Correspondência: Rua Timbiras,
2.941, Bairro Barro Preto, BH-MG.
CEP 30.140-062

Iphan
Site: www.iphan.gov.br
Telefones: (61) 2024-6342/
6355/6370
E-mails: depam@iphan.gov.br,
cgbm@iphan.gov.br e
faleconosco@iphan.gov.br

Iepha/MG
Site: www.iepha.mg.gov.br
Telefones: (31) 3235-2812/2813

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Justiça condena empreendedores do Belvedere III a pagar indenização de R$ 27,8 milhões pelos danos causados à Serra do Curral, em Belo Horizonte (MG)

A PBH deverá pagar multa diária de R$ 10 mil, caso aprove novos empreendimentos na região sem a prévia anuência do Iphan e do CPDC-BH.

Foto: Divulgação/Internet

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) obteve sentença da 2ª Vara de Fazenda Pública Municipal condenando o grupo de 11 empreendedores que implantou o Belvedere III a pagar R$ 15 milhões pelos danos morais coletivos e R$ 12,8 milhões pelos danos materiais, totalizando R$ 27,8 milhões em indenização pelos danos paisagísticos causados à Serra do Curral.

Já a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) deverá pagar multa diária de R$ 10 mil, caso aprove novos empreendimentos na região sem a prévia anuência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte (CDPC-BH).

A sentença foi proferida pelo juiz Rinaldo Kennedy Silva, em Ação Civil Pública proposta em 2011 pelos promotores de Justiça Lilian Marotta, da Promotoria de Defesa do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte; Marcos Paulo de Souza Miranda, então coordenador das Promotorias de Defesa do Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico; e Marta Alves Larcher, que está à frente da Coordenadoria de Habitação e Urbanismo.

A indenização de R$ 15 milhões deverá ser corrigida monetariamente desde a data de publicação da sentença e depositada no Fundo Estadual de Direitos Difusos, e os R$ 12,8 milhões deverão ser corrigidos a partir de 2004, quando o Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPMG apresentou laudo concluindo que “as edificações do Belvedere III obstruíram a visibilidade da Serra do Curral, causando supostamente um dano irreversível ao bem paisagístico”.

No cálculo, foi apurado o valor total do dano ocorrido desde a concessão do primeiro alvará até a data da vistoria.

Valor paisagístico – O MPMG argumenta na ação que a Serra do Curral é o marco geográfico mais representativo da região metropolitana de Belo Horizonte, em razão de seus valores paisagístico, geológico, histórico, ambiental e turístico.

Segundo os promotores de Justiça, é possível perceber que o empreendimento foi aprovado em desacordo com várias leis vigentes e que estudos feitos por profissionais renomados atestaram o risco de consideráveis danos ambientais naquela região. “Apesar das considerações apresentadas pelos profissionais, no sentido de riscos geológicos, o empreendimento foi aprovado sem a anuência do CDPC-BH, dispositivo de lei vigente à época”, salientaram os autores da ação.

Já o juiz Rinaldo Silva ressaltou que “os empreendedores enriqueceram ilicitamente ao descumprir a legislação vigente, haja vista que, conforme atestado na perícia oficial, nenhuma ação que for desenvolvida atualmente poderá viabilizar a desobstrução da paisagem da Serra do Curral, não havendo, portanto, a possibilidade de retornar o bem paisagístico à situação anterior, de forma que a medida se tornou irreversível, sendo cabível o pagamento de indenização”.

A sentença foi proferida no dia 7 de julho deste ano, nos autos do processo nº 0024-11.180.88-5, instaurado contra os empreendedores Comercial Mineira S.A.; Empresa Agrícola Santa Bárbara Ltda.; Abaeté Empreendimentos Ltda.; Empreendimentos Sion Ltda.; Mineração Lagoa Seca Ltda.; Ical-Indústria de Calcinação Ltda.; Comercial L. P. Guimarães Ltda.; S. M. Guimarães.; P. O. de Sá.; Holding Pentagna Guimarães Ltda.; e Comercial Santa Zita S.A.

Belvedere III – O projeto foi aprovado em 1988, com lotes de 525 m2, predominando edificações verticais de alto padrão. Classificado como zona residencial e comercial mista, o Belvedere III fica junto à BR-356, na saída do município no sentido Rio de Janeiro, e é contíguo ao entroncamento com a Av. Raja Gabáglia e a rodovia MG-030. Delimita-se pela Rua Jornalista Djalma Andrade, pela antiga linha férrea Águas Claras e pelo Trevo do BH Shopping.

Fonte original da notícia: Portal do MPMG




Santa Luzia (MG) – Campanha quer arrecadar dinheiro para reforma do Mosteiro de Macaúbas

Monjas abrem campanha para arrecadar recursos e recuperar a parte interna do monumento, afetada por cupins e rede elétrica obsoleta, entre outros problemas.

Construído no início do século 18, o mosteiro impressiona pelas dimensões e conservação externa, apesar dos problemas na parte interna. Foto: Beto Novaes/EM/DA Press

Um dos mais importantes monumentos arquitetônicos do patrimônio brasileiro pede ajuda para preservar mais de três séculos de história. Será lançada na próxima terça-feira a campanha Abrace Macaúbas, iniciativa com objetivo de garantir recursos para obras de manutenção do Mosteiro de Macaúbas, localizado em Santa Luzia, na Grande BH. Cupim nas madeiras, parte elétrica obsoleta, buraco no piso e degradação de outros pontos põem em risco a construção de 11,5 mil metros quadrados tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) e Prefeitura de Santa Luzia. A solenidade, na Sala Capitular do mosteiro, às 10h, terá a presença do arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, da madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia e das monjas da Ordem da Imaculada Conceição e de autoridades do patrimônio.

O presidente da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Adalberto Mateus, destaca a importância da construção do início do século 18, às margens do Rio das Velhas. “Macaúbas é uma das mais importantes edificações coloniais do interior do país e a única de Minas com características de convento. Em tempos de discussão sobre o protagonismo das mulheres na sociedade, vale destacar que sempre foi um território feminino por excelência, por ter sido recolhimento, colégio e depois mosteiro”, diz Adalberto. A associação integra a comissão responsável pela captação de recursos, que tem ainda o Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte. Em 1962, o arquiteto do Iphan, Paulo Thedim Barreto, ressaltou: “Trata-se de um conjunto do maior interesse histórico e arquitetônico (…) Pelo seu vulto, grandeza e destino, é edifício digno de apreço”.

Na manhã de ontem, a abadessa Maria Imaculada de Jesus Hóstia, que chama o mosteiro de “casa de Nossa Senhora”, mostrou os lugares de maior preocupação, entre eles o “coro baixo”, na capela de Nossa Senhora da Conceição, aberta todos os dias a moradores e visitantes para missas das 7h e, aos domingos, na acolhida da tradicional celebração das 10h30 com um coral da região. Ajudando a arrastar um banco, ela mostrou o rombo no piso de madeira. E falou da sua confiança e esperança no sucesso da campanha: “Aqui não é um lugar de luxo, mas de muita história de Minas e do Brasil. A parte elétrica já foi condenada pelo Corpo de Bombeiros. Tenho certeza que muitos vão colaborar”.

Urgência. Há três anos, a abadessa comandou uma grande campanha para a compra das latas de tinta que deram vida nova ao azul colonial das portas e janelas e branco das paredes com um metro e meio de largura e prepararam o mosteiro para a festa do tricentenário. Acompanhando a visita, Adalberto disse que “quem vê cara não vê coração”. Traduzindo: “Macaúbas impressiona pelas dimensões e conservação externa, mas, por dentro, precisa de reforma imediata de todo o sistema elétrico, descupinização, enfim, de obra de restauro. Apesar da boa aparência, tem problemas gravíssimos”.

A abadessa Maria Imaculada e a irmã Maria de São Miguel mostram buraco no piso do convento. Foto: Beto Novaes/EM/DA Press

Basta olhar para o madeirame e ver a necessidade urgente de conservação do prédio que abrigou uma das primeiras escolas femininas das Gerais. Em alguns cantos, os cupins deixaram seu rastro em montinhos de madeira devorada, enquanto, ao pisar as tábuas corridas, ouve-se o estalo de perigo. O forro da capela, pintado no início do século 19, por Joaquim Gonçalves da Rocha, de Sabará, também demanda ação urgente para não sair de cena. Os olhos atentos vão descobrir gambiarra de fios, colunas com perdas de reboco, buracos em madeiras, como se fosse um queijo suíço e outros sinais de deterioração. “Vamos conseguir o dinheiro. Deus está conosco”, repete a abadessa ao lado da irmã Maria de São Miguel. Logo depois, ao meio-dia, ouvem-se as vozes das religiosas entoando os cânticos na “hora sexta”.

Recolhimento. Conhecer o Convento de Macaúbas, como é carinhosamente chamado, representa experiência única: ali estão freiras, roseiras para fazer vinho, muitas orações e trabalho duro. Na entrada principal, onde se lê a palavra clausura, vê-se em destaque a pintura de um personagem fundamental nesta história tricentenária: o eremita Félix da Costa, que veio da cidade de Penedo (AL), em 1708, pelo Rio São Francisco, na companhia de irmãos e sobrinhos. Demorou três anos para chegar a Santa Luzia, onde construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de quem era devoto. Mas, antes disso, bem no encontro das águas do Velho Chico com o Rio das Velhas, na Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma, Região Norte do estado, ele teve a visão de um monge com hábito branco, escapulário, manto azul e chapéu caído nas costas. Conforme o relato da madre superiora, “ele se viu ali” e “foi o ponto de partida para a fundação do Recolhimento de Macaúbas”.

No século 18, quando as ordens religiosas estavam proibidas de se instalar nas regiões de mineração por ordem da Coroa portuguesa, para que o ouro e os diamantes não fossem desviados para a Igreja, havia apenas dois recolhimentos femininos em Minas: além de Macaúbas, em Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha. Conforme os estudos, tais espaços recebiam mulheres de várias origens, as quais podiam solicitar reclusão definitiva ou passageira. Havia, portanto, uma complexidade e diversidade de tipos de reclusas, devido à falta de estabelecimentos específicos para suprir as necessidades delas. Assim, os locais abrigavam meninas e mulheres adultas, órfãs, pensionistas, devotas, algumas que se estabeleciam temporariamente, para “guardar a honra”, enquanto maridos e pais estavam ausentes da colônia, ou ainda como refúgio para aquelas consideradas desonradas pela sociedade da época.

Cupins corroem a madeira de colunas do mosteiro. Foto: Beto Novaes/EM/DA Press

No período do recolhimento, Macaúbas recebeu figuras ilustres, como as filhas da escrava alforriada Chica da Silva, que vivia com o contratador de diamantes João Fernandes. A casa na qual Chica se hospedava fica ao lado do convento. Como parte do pagamento do dote das filhas, Fernandes mandou construir, entre 1767 e 1768, a chamada Ala do Serro, com mirante e 10 celas (quartos para as religiosas). Em 1770, o mestre de campo Ignácio Correa Pamplona assinou contrato para construir a ala da direita da sacristia (Retiro), igualmente dividida em celas. A construção tem ainda as alas da Imaculada Conceição, Félix da Costa (a mais antiga) e a de Santa Beatriz, onde se encontra o noviciado do mosteiro.

Em 1847, foi instalado oficialmente em Macaúbas um colégio feminino, com orientação dos padres do Caraça. Novos tempos chegaram em 1933, quando a escola foi desativada e instalado o mosteiro, hoje com 14 freiras.

Degradação põe em risco pontos como um altar atrás do qual já se percebe deslocamento que pode levar à sua queda. Foto: Beto Novaes/EM/DA Press

Serviço

Para participar e fazer doações
de qualquer quantia
Campanha Abrace Macaúbas
Caixa Econômica Federal – Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição Macaúbas – Agência: 1066 – Operação 013
Conta poupança: 75.403/4 – CNPJ: 19.538.388/0001-07
Informações no site: abracemacaubas.com.br

Livro conta história de freira

Durante a cerimônia de lançamento da campanha Abrace Macaúbas/300 anos de história/Um abraço para as novas gerações, na terça-feira, às 10h, no Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, na Grande BH, o promotor de Justiça da comarca, Marcos Paulo de Souza Miranda, vai apresentar seu livro Irmã Germana – A exilada de Macaúbas, que conta a história da religiosa Germana Maria da Purificação batizada em 1782 na Capela de Nossa Senhora de Nazaré, em Morro Vermelho, em Caeté, e que ingressou em 1843 em Macaúbas, onde ficou até 1856. A “fama de santa” de Germana, que teria o poder de levitar e apresentava sinais da crucificação na sexta-feira da paixão, atraiu as atenções até do cientista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), que registrou suas impressões, conforme Souza Miranda, num livro publicado na França em 1833. Os valores obtidos com a venda do livro serão destinados à Campanha Abrace Macaúbas.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Mariana (MG): O que será de nós agora?

Foto: Divulgação/Internet

Região de Mariana foi inundada de lama há dois anos, quando a barragem da mineradora se rompeu. Apesar de o rio ainda estar bastante poluído, Mariana superou o desastre e quer diminuir a dependência da mineração. Mas os mais jovens não têm a mesma disposição para esquecer e têm uma visão crítica do processo penal. Recentemente, o processo contra a Samarco foi suspenso.




Museu de Congonhas (MG) lança coleção de joias inspirada na obra do mestre Aleijadinho

Foto: Divulgação/Internet

A pedra-sabão, um dos minerais mais característicos do estado de Minas Gerais, ganha status de joia pelas mãos da designer e jornalista Gracie Santos. Inspirada nos trabalhos do mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que utilizou a matéria-prima para dar forma aos 12 Profetas, considerados sua obra máxima, a mineira lança a “Coleção Congonhas”. Com isso, ela sugere uma leitura contemporânea do conjunto artístico que compõe o adro do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1985.

O lançamento marca uma série de eventos realizados em agosto, quando é comemorado o Mês de Aleijadinho na cidade. O evento, aberto ao público, acontece no dia 23 de agosto (quarta-feira), a partir das 20h, no Museu de Congonhas, com parceria da Fundação Municipal de Cultura de Congonhas.

Imortalizada nos contornos da arte barroca e amplamente usada na confecção de panelas, objetos artesanais, terços e esculturas, a pedra-sabão ganhou preciosidade, vivacidade e brilho exótico nas peças exclusivas, que imprimem, ao mesmo tempo, delicadeza e força. A partir de um dedicado estudo, Gracie Santos trabalhou o mineral de maneira inédita, combinando e criando contrastes com materiais diversos encontrados no Brasil e em outras partes do mundo. “Ao mesmo tempo em que valorizam a pedra e a colocam lado a lado com gemas de valor reconhecido, as peças transportam a história de Aleijadinho para além das fronteiras de Minas e do Brasil”, afirma a designer.

A coleção é composta por 35 peças, entre colares, pulseiras, terços e brincos em pedra talco, como também é chamada a matéria-prima, que receberam acabamentos em prata 925 (natural ou em banhos de ouro e ródio negro), fios de couro e aço e agregam gemas como pérolas, bronzitas, hematitas, labradoritas, lavas vulcânicas, entre outras.

Destaque da coleção, os profetas do escultor mineiro ganham traços modernos, geométricos, transformados em 12 pingentes de design único, ornando colares, pulseiras e brincos. O pingente Profeta, criado em tamanhos variados, reproduz a silhueta do Profeta Daniel, considerado a obra-prima de Aleijadinho. Parte da Coleção será doada pela artista ao acervo do Museu de Congonhas, onde ficará exposta até o dia 03 de setembro.

O mestre Aleijadinho – Estudos apontam que Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, teria nascido em 29 de agosto de 1738, na antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto. Filho do português Manuel Francisco Lisboa, mestre de carpintaria, que chegou a Minas Gerais em 1723, e de sua escrava Isabel, aprendeu a esculpir e entalhar ainda criança, observando o trabalho de seu pai, que esculpiu em madeira uma grande variedade de imagens religiosas, e de seu tio Antônio Francisco Pombal, importante entalhador de Vila Rica. Uma de suas obras mais famosas é o “Santuário de Bom Jesus de Matosinhos”, localizado em Congonhas. A planta imita o Santuário de Bom Jesus de Braga, em Portugal. Na frente existe um terraço ornado por doze estátuas de profetas. O terraço conduz a uma rampa ladeada de sete “Capelas dos Passos” onde estão representadas por 66 imagens, em cedro e em tamanho natural, as cenas da Paixão de Cristo. Tombado pela Unesco, o local é um dos principais pontos turísticos e religiosos de todo o Brasil.

Fonte original da notícia: Fato Real




Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto (MG), é reaberta depois de dois anos de obras

As obras duraram dois anos sob comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Foram investidos cerca de R$ 4 milhões no restauro arquitetônico. Foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press

De portas abertas para a devoção, comunhão dos fiéis e beleza do patrimônio cultural de Ouro Preto, na Região Central. Em clima de festa, foi entregue na tarde desta sexta-feira (18), à comunidade local, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecida como Matriz de Antônio Dias, no Centro Histórico da cidade reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco). “Estamos felizes, pois nova etapa está assegurada, para restauro dos elementos artísticos”, disse o titular da paróquia, cônego Luiz Carneiro.

As obras duraram dois anos sob comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas – de acordo com a autarquia federal, foram investidos cerca de R$ 4 milhões no restauro arquitetônico do bem.

A primeira etapa contemplou a recuperação estrutural do edifício, com substituição de instalações elétricas, bem como prevenção e combate a incêndio. Outra importante mudança foi a pintura nas cores originais da igreja, resgatadas por meio de prospecções cromáticas, iconografia histórica e no relato dos antigos moradores. Sem dúvida, a intervenção figura como destaque de 2017 na cidade, berço de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que foi sepultado nesse templo sob o altar de Nossa Senhora da Boa Morte. O pai de Aleijadinho, Manuel Francisco Lisboa, também está sepultado no templo. Conforme estudo recente, o mestre do barroco nasceu em 1737, portanto há 280 anos, embora a polêmica exista, pois outros historiadores falam em 1730 e 1738, esse último dado como oficial.

Uma das mais antigas igrejas de Minas, com construção iniciada em 1727, e também uma das maiores em tamanho e suntuosidade, a Igreja Matriz de Antônio Dias foi tombada isoladamente pelo Iphan em 1939. Ela foi uma das ações selecionadas para receber os investimentos do PAC Cidades Históricas, que também restaurou os chafarizes do Centro Histórico de Ouro Preto e prevê ainda a execução de outras 13 ações no município.

A solenidade de entrega da primeira etapa de obras teve a presença da presidente do Iphan, Kátia Bogéa, da superintendente do Iphan em Minas, Célia Corsino, do prefeito de Ouro Preto, Júlio Pimenta, do arcebispo de Mariana, dom Geraldo Lyrio Rocha e representantes da paróquia e do Museu Aleijadinho. A cerimônia terá ainda a apresentação do Coral Canto Crescente, projeto sociocultural de formação musical de crianças e adolescentes da cidade, e exibição do documentário Esperando Conceição, produzido pela jornalista Lidiane Andrade com a comunidade da paróquia, no âmbito do Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural, do Iphan.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Acesso às ruínas do Hotel Rádio deve ser restringido em Araxá (MG)

Segundo Codemig, trabalho de restauração foi iniciado em agosto com um investimento estimado em R$ 200 mil.

Ruínas de Hotel Rádio passam por obras de restauração em RAraxá. Foto: Reprodução/TV Integração

O acesso às ruínas do Hotel Rádio, um dos pontos turísticos do Complexo Hidrotermal e Hoteleiro do Barreiro, em Araxá, deve ser restringido. Segundo a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), o patrimônio histórico passa por um processo de conservação desde o início de agosto para evitar risco de desabamentos e, após a conclusão das obras, a visitação deve passar a ser permitida de quinta a domingo, das 9h às 16h.

Edificado em 1919, o antigo “Hotel dos Estrangeiros” ou “Hotel Radium” hospedou figuras ilustres, como Getúlio Vargas e Santos Dumont. Desde 1985, quando foi criado o “Parque Hotel Radium”, as ruínas do imóvel passaram a integrar o Barreiro e se tornaram ponto de visita quase obrigatório para muitos moradores em dias de caminhada.

Cercamento de área preocupa moradores

A personal trainer Katia Marques ficou inconformada quando se deparou com uma cerca no entorno das ruínas, pois o espaço era utilizado por pessoas que têm o hábito de praticar exercícios físicos. O ciclista Denísio Cardoso também ficou chateado. Ele contou ao MGTV que o local é muito frequentado por atletas e famílias para piqueniques e passeios.

A Codemig informou, por meio de nota, que o cercamento foi feito, de acordo com determinações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), para garantir proteção das ruínas e segurança às pessoas que passam pelo local. No entanto, a cerca não seria um indicativo de que o local será fechado.

Conforme a companhia, após a conclusão das obras, as visitações serão regularizadas, mas, até esta reportagem, não foi dado um prazo para essa reabertura. O investimento no local é estimado em R$ 200 mil.

Fonte original da notícia: MGTV 2ª Edição 




Caeté (MG) – Obra de Aleijadinho é revelada pela primeira vez na Serra da Piedade

Pesquisa detectou traços exclusivos do artista em retábulo do altar-mor do santuário que abriga a imagem da padroeira dos mineiros.

O arquiteto e historiador Ivo Porto de Menezes é o autor da pesquisa. Foto: Leandro Couri/EM/D.A Press

Não é de hoje que o professor Ivo Porto de Menezes sobe a Serra da Piedade, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Pelas contas dele, mais de meio século, desde a época do frei dominicano Rosário Jofylly (1913-2000) à frente do santuário dedicado à padroeira dos mineiros, Nossa Senhora da Piedade. Arquiteto, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em arte sacra, além de apaixonado pelo lugar, o belo-horizontino de 89 anos – “com muito orgulho”, ressalta – concluiu uma pesquisa com descoberta surpreendente, que valoriza o patrimônio brasileiro, enaltece ainda mais a figura de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e celebra os 250 anos de peregrinação à ermida no topo do maciço. Segundo Ivo, o retábulo do altar-mor da construção é também de autoria de Aleijadinho, uma revelação totalmente inédita. O resultado da pesquisa estará num livro, do qual é agora publicado avulso o capítulo sobre o assunto: Ermida da Senhora da Piedade – Retábulo e imagem.

Destacando o caráter inovador na execução do retábulo em estilo rococó, o professor Ivo eleva o tom ao falar de Aleijadinho. “O mais sensível artista que tivemos na arquitetura e na arte sacra. Estamos sempre descobrindo algo bonito e novo na obra dele. Os artistas têm que ter esta sensibilidade”, define. A partir de novembro e durante 2018, serão lembrados os 280 anos de nascimento do homem natural de Ouro Preto que fez história com sua arte. Oficialmente, Aleijadinho nasceu em 1738, mas há polêmica a respeito, pois estudo recente aponta 1737 e há quem fale em 1730.

Na semana passada, Ivo subiu mais uma vez a serra e contou, com entusiasmo, lucidez e memória impressionantes para nomes, números e datas, que o recém-concluído livro A Senhora da Piedade e a serra sacramenta o compromisso firmado com o reitor substituto de frei Rosário, o missionário italiano Virgílio Resi (1951-2002). “Conversava muito com ele sobre a ermida. Estou há mais de 20 anos nesta pesquisa e sempre me perguntei: se Aleijadinho fez a imagem de Nossa Senhora da Piedade, por que não o retábulo?”. Para suas indagações, teve o respaldo técnico dos trabalhos da professora Lygia Martins Costa, ex-funcionária do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e considerada pioneira da museologia brasileira, apoiada pelo arquiteto Lúcio Costa. Não foram encontrados documentos sobre a obra e nem mesmo sobre os registros confirmando a autoria da imagem da padroeira. A atribuição foi feita por estudiosos, entre eles o professor Edmundo Fontenelle, autor da publicação O Aleijadinho na Serra da Piedade (1970).

As marcas do “mestre do Barroco” estão em vários pontos do retábulo – é bom lembrar que essa palavra, para a maioria da população, tem o mesmo significado do altar que abriga a imagem. Com todo o respeito nesse espaço sagrado, o professor e integrante da comissão de bens culturais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Leste 2 explica que Aleijadinho mudou a “organização” na peça originalmente esculpida por volta de 1770 em cedro, sem policromia. “Antes, os riscos dos retábulos não contemplavam a parte inferior. Era da mesa do altar para cima. O artista modificou isso e prolongou as colunas laterais até o último degrau da escada que leva ao altar, denominada supedâneo”, diz Ivo, um dos pioneiros do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG).

Aleijadinho usou a mesma composição no retábulo do altar-mor da Capela de São José, em Ouro Preto, embora não tenha sido o escultor; da Igreja de São Francisco, de Ouro Preto; e das igrejas das fazendas da Jaguara, cuja obra está hoje na matriz de Nova Lima, na Grande BH, e Serra Negra, no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. “Essa tendência especial ocorria nas Minas Gerais graças ao genial Antonio Francisco Lisboa”,  observa o especialista, lembrando que  em 1977 a professora Lygia apresentou um trabalho  em que mostrou que, ao atuar como arquiteto, Aleijadinho  “concebe uma estrutura partindo do solo e projetando-se pelos pés-direitos até eclodir no coroamento’”.

Composição. Autor dos livros Antonio Francisco Lisboa, lançado em 2014, ano de homenagens a Aleijadinho pelo bicentenário de sua morte, e Bens culturais da Igreja (2006), Ivo Porto de Menezes chama a atenção para um detalhe importante na pesquisa. Na organização do retábulo, o artista o dividiu em três partes horizontais (embasamento, corpo e coroamento), sendo que, nas colunas laterais, marcou bem a parte do corpo com ornamentos que lembram coroas. “Com isso, houve maior valorização do sacrário”, afirma.

No capítulo Ermida da Senhora da Piedade – Retábulo e imagem, o professor registrou que “a análise do retábulo nos mostra claramente a estrutura articulada, dinâmica e fluente” e que “a inovação estrutural dos retábulos setecentistas de Aleijadinho nasceu e morreu com ele”. E bate o martelo: “Somos levados a atribuir composição e execução ao mestre Antonio Francisco Lisboa pela presença desta estruturação arquitetônica e amarração de toda a composição, seja pela localização do sacrário, agora reorganizado e valorizado, seja pela integração do próprio altar na composição geral do retábulo. A observação do conjunto faz jus à atribuição igualmente pelo desenvolvimento da decoração”.

Riqueza. As conclusões do professor Ivo ganham aplausos. “O trabalho de pesquisa profunda e complexa, com indicações de que o mestre Aleijadinho é o autor do retábulo que acolhe a imagem de Nossa Senhora da Piedade, enriquece ainda mais a história tricentenária de fé e religiosidade de Minas. Um presente valioso para todo o povo mineiro, neste especial momento em que celebramos os 250 anos de peregrinação na fé ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade”, diz o arcebispo metropolitano de BH, dom Walmor Oliveira de Azevedo.

Autora de vários livros sobre o Barroco e o rococó, entre eles Arte sacra no Brasil colonial, a professora aposentada da UFMG Adalgisa Arantes Campos considera Ivo Porto de Menezes um grande estudioso, que aprecia muito a pesquisa arquivística, “o que é um grande diferencial”, e já esteve mergulhado em acervos documentais em Portugal. Por não se ater somente à bibliografia, o professor traz uma conclusão pertinente, “pois coteja a visualidade do retábulo com a pesquisa arquivística”.

Destacando a passagem de Ivo como diretor do Arquivo Público Mineiro, Adalgisa pondera: “Não estou falando que o retábulo é de Aleijadinho, mas é crível que seja.” E arremata citando a especialista em Barroco Myriam Andrade Ribeiro Oliveira, de que “na ausência do documento, predomina a análise visual”.

Autor do livro Aleijadinho revelado – Estudo histórico sobre Antonio Francisco Lisboa e integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, o promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda ressalta que a notícia da descoberta do professor Ivo chega em boa hora, nos 250 anos das peregrinações na Serra da Piedade e 280 anos do nascimento de Aleijadinho. “Ainda são muitas as lacunas e dúvidas sobre a produção artística do mestre, o que confere especial relevância a todos os estudos técnicos que possam contribuir para a descoberta da verdade histórica sobre o maior artista mineiro de todos os tempos”.

Saiba mais
História nas alturas

A história do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, padroeira de Minas, em Caeté, começa no século 18, com o relato de um milagre: a Virgem Maria teria aparecido para duas jovens no alto da Serra da Piedade. A partir desse dia, o fato se espalha rapidamente por toda a região e muita gente chega ao topo do maciço para rezar. O episódio toca o coração do português Antônio da Silva Bracarena, então na colônia para ganhar dinheiro. Mas ele se converte e decide dedicar sua vida à construção de uma capela no lugar onde ocorrera o milagre. O singelo templo dedicado a Nossa Senhora da Piedade começa a ser erguido em 1767 e, mais tarde, ganha a imagem esculpida por um jovem de Ouro Preto, depois reconhecido como mestre do Barroco mineiro – Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Marcas do mestre
Veja alguns traços de Aleijadinho no retábulo do altar-mor da ermida de Nossa Senhora da Piedade, na Serra da Piedade

Foto: Leandro Couri/EM/D.A Press

1) As colunas laterais vão até o último degrau da escada que leva ao altar, o chamado supedâneo. Antes, iam até a mesa do altar
2) As colunas laterais são divididas e marcadas por um ornamento, como um coroamento
3) A organização do retábulo valoriza o sacrário (onde ficam as hóstias)
4) A organização proposta por Aleijadinho, que divide o retábulo em três partes horizontais, permite a colocação de dois nichos, nos quais estão hoje São José de Botas e Santa Bárbara

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas