Ouro Preto (MG) – Exposição exibe recibos raros em comemoração aos 280 anos do nascimento de Aleijadinho

Na comemoração do maior artista do barroco brasileiro, exposição exibe recibos raros assinados por ele relativos à produção dos profetas, mas mistérios ainda exigem estudos.

Vitor Gomes examina uma fatura, original, de 1801, referente ao pagamento de parte do conjunto dos profetas. Foto: Beto Novaes/EM

Difícil conter a emoção diante da letra firme sobre o papel feito de trapos. Vale mais o silêncio e, minutos depois, a vontade de mostrar ao mundo a assinatura ou “caligrafia escultórica” de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, mineiro de Ouro Preto e patrono das artes no Brasil. Na semana do início das comemorações dos 280 anos de nascimento do escultor, entalhador, arquiteto e louvado (perito), com programação até novembro de 2018, brasileiros e estrangeiros poderão participar em Ouro Preto, na Região Central, de uma série de eventos culturais, entre eles uma exposição, Sobre riscos e pautas, juntando documentos firmados pelo mestre do barroco e a música do seu tempo.

O jubileu, que coincide com os 50 anos do Museu Aleijadinho de Ouro Preto, será também ótima oportunidade para especialistas se unirem e estudarem, a fundo, a vida e a obra de Aleijadinho, pois, nos últimos anos, muitas descobertas ganharam corpo sem a necessária oficialização pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “A história de Aleijadinho continua uma obra aberta. Nem tudo foi revelado, há muito por ser desvendado”, afirma o escultor, pesquisador de arte colonial e diretor de Patrimônio da Prefeitura de Congonhas, na Região Central, Luciomar Sebastião Jesus. Ano correto de nascimento (1737 ou 1738?), doença que o acometeu (foi lepra mesmo?), retrato oficial (verdadeiro?) e atribuição de obras sacras são enigmas que intrigam especialistas e confundem a cabeça do cidadão comum.

Apaixonado pela obra de Aleijadinho, e a vida inteira convivendo com obras-primas do mestre, a exemplo dos 12 profetas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos e as 64 figuras esculpidas em cedro, nas capelas dos Passos da Paixão de Cristo, em Congonhas, Luciomar resume na palavra “genial” o legado do artista. “Muita gente põe em dúvida a existência dele e o volume do seu trabalho. Bem, se não acreditam em tudo, pelo menos devem saber, conforme os seis recibos do acervo de Mariana, que houve um gênio chamado Antonio Francisco Lisboa, que fez esse patrimônio e herdou a oficina de seu pai, o português Manuel Francisco Lisboa. Esse ateliê era itinerante, tinha funcionários e serviços em vários lugares. Em muitas imagens e retábulos, Aleijadinho dava uma lapidada, garantindo a sua identidade.”

Em 2014, durante as homenagens pelo bicentenário de morte de Aleijadinho – a data 18 de novembro de 1814 consta do atestado de óbito – a direção do Iphan anunciou a formação de uma comissão para fazer estudos detalhados sobre ele. “Nada evoluiu”, critica o secretário de Estado da Cultura, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, lembrando que 1738 se mantém como o ano aceito pelo Iphan, pois, na certidão de óbito há a informação de que o homem sepultado teria 76 anos. Integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e autor do livro Aleijadinho revelado – Estudo histórico sobre Antonio Francisco Lisboa, o promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda indica 1737 como o ano de nascimento. Em homenagem ao mestre, 18 de novembro foi instituído como Dia do Barroco Mineiro.

Registro. Em Ouro Preto, Souza Miranda localizou o registro de batismo de Antonio Francisco Lisboa, filho da negra forra Isabel. “Os estudiosos certamente procuravam o registro apenas pelo nome do pai. A questão é que, naquela época, pelo direito canônico, era proibido que constassem do registro os nomes dos pais quando o casal não fosse formalmente casado. Daí só haver o nome da mãe no documento. Além disso, o costume era levar a criança à pia batismal logo após o nascimento.” A única data que se conhecia era a da morte, 18 de novembro, conforme consta do atestado de óbito. É curioso notar, no túmulo, que uma placa traz o sinal de interrogação ao lado do ano de 1738, que seria o do nascimento.

Souza Miranda acha fundamental o trabalho de um comitê, com equipe técnica e pesquisadores de universidades e uso de equipamentos modernos para solucionar incógnitas que cercam a vida do artista. “Não sabemos, por exemplo, se o quadro oficial, hoje no Museu de Congonhas, retrata a face do artista”, observa. Na avaliação dele, “há obras atribuídas de forma equivocada, deliberadamente ou não, a Aleijadinho, assim como outras que demandam investigação apurada. E mais: “A maioria das peças que ele fez, na verdade, 95%, foi para igrejas. E só trabalhou em Minas. Então, nada justifica que haja peças sacras atribuídas a Aleijadinho, no Palácio Bandeirantes, em São Paulo (SP)”.

Pelo visto, a história de Aleijadinho vai continuar como obra aberta. Segundo nota do Iphan, “a criação do grupo de trabalho se deu em função da necessidade de sanar possíveis dúvidas sobre a autenticidade de obras atribuídas ao mestre Aleijadinho. A comissão se reúne apenas sob demanda da presidência do Iphan. No momento não há nenhuma solicitação nesse sentido”.

Penacho barroco. Os documentos assinados por Aleijadinho, datados do fim do século 18 e início do 19, têm uma característica peculiar, a que os especialistas chamam a atenção. No final do sobrenome “Lisboa”, há o chamado penacho barroco, arremate que dá um rebuscamento à letra “a”. Na sala do Museu da Música, vinculado à Fundação Cultural da Arquidiocese de Mariana, o musicólogo Vitor Sérgio Gomes examina uma fatura, original, de 1801, referente ao pagamento de parte do conjunto dos profetas. “Ter nas mãos um recibo assinado por Aleijadinho é outro tipo de relação com a memória, é lidar com um personagem do qual ouvimos falar. Muito importante”, diz Vitor que, na sexta-feira, participou da abertura da mostra Sobre Riscos e Pautas, unindo o trabalho de Aleijadinho com o mestre de capela, organista e compositor João de Deus de Castro Lobo (1797-1832). A exposição vai até o dia 20, no prédio da Fiemg, na Praça Tiradentes, no Centro Histórico de Ouro Preto.

Os documentos expostos fazem parte de um acervo de 154 mil itens, dos séculos 18, 19 e 20, que estão no Palácio Getsêmani, da Arquidiocese de Mariana, informa José Eduardo de Castro Liboreiro, responsável pela parte de projetos da Fundação Cultural da Arquidiocese de Mariana. Nesse pequeno tesouro, estão processos, contratos, certidões, escrituras e outros de alto interesse para pesquisadores.

Obra Aberta
Polêmicas, descobertas, perguntas sem respostas e enigmas na vida e obra de Aleijadinho

Ano de nascimento

A data oficial é 1738, mas, no livro Aleijadinho revelado – Estudo histórico sobre Antonio Francisco Lisboa, o promotor de Justiça e integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais Marcos Paulo de Souza Miranda defende que é 1737. Em Ouro Preto, ele localizou o registro de batismo de Antonio Francisco Lisboa, filho da negra forra Isabel. E esclareceu que “os estudiosos certamente procuravam o registro apenas pelo nome do pai. A questão é que, naquela época, pelo direito canônico, era proibido que constassem do registro os nomes dos pais quando o casal não fosse formalmente casado. Daí só haver o nome da mãe no documento”.

Retrato oficial
Consagrado pelas imagens que brotaram de suas mãos, o gênio do barroco tem na própria fisionomia um mistério. O chamado retrato oficial está no Museu de Congonhas. Trata-se de óleo sobre pergaminho feito no século 19, por Euclásio Penna Ventura. Foi vendido em 1916 a um comerciante de Congonhas, identificado como Senhor Baerlein, proprietário da Relojoaria da Bolsa do Rio de Janeiro. A alegação de que se tratava do rosto do mestre do barroco se baseou na imagem representada ao fundo da pintura, em segundo plano, que parecia idêntica a uma obra de autoria do artista.

Rosto misterioso
Um fato curioso foi identificado pelo artista plástico, restaurador e pesquisador José Efigênio Pinto Coelho, residente em Ouro Preto. A repeito do quadro Jesus cai carregando a cruz, dos Passos da Paixão de Cristo, em exposição no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, ele sustenta que o pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830) teria homenageado Aleijadinho retratando um soldado romano com seu rosto. Ele se baseou numa descrição do livro, de 1858, Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho, de autoria de Rodrigo José Ferreira Bretas.

Altar da padroeira
Professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em arte sacra, Ivo Porto de Menezes, concluiu que o altar de Nossa Senhora da Piedade, na Serra da Piedade, em Caeté, na Grande BH, é de autoria de Aleijadinho. Segundo ele, o artista mudou a “organização” na peça esculpida em cedro por volta de 1770. “Antes, os riscos dos retábulos não contemplavam a parte inferior. Era da mesa do altar para cima. O artista modificou isso e prolongou as colunas laterais até o último degrau da escada que leva ao altar, denominada supedâneo”, explica um dos pioneiros do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG).

Três imagens
Depois de estudos iniciados em 2011, o restaurador e professor Antônio Fernando Santos atribuiu três peças, em Ouro Preto, ao artista: a imagem de Nossa Senhora da Guia, do acervo da Paróquia de Santa Efigênia, e duas também em madeira da Capela de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, mais conhecida como Mercês de Cima: São Pedro Nolasco e São Raimundo Nonato. Segundo Antônio Fernando, as esculturas da primeira fase de Aleijadinho, que vai de 1760 a 1774, representam a época em que a obra dele ainda exibia forte influência europeia. Ao contrário das demais imagens conhecidas na atualidade, os três objetos são na categoria “de vestir” e de “roca”, o que significa cabeça e corpo sobre estrutura de madeira que recebe roupas de tecido.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Ouro Preto (MG) – FAOP abre processo seletivo para Curso Técnico em Conservação e Restauro

Inscrições podem ser feitas até 21 de novembro, até às 12h, no site da Fundação.

Foto: Thiago Bonna

Quem vê as obras históricas expostas nas ruas, museus e galerias de Ouro Preto e região, muitas vezes não imagina o trabalho que existe a fim de preservar as esculturas, documentos, pinturas e imóveis. Os restauradores buscam reparar e promover ações que evitam a deterioração de peças importantes, seja móveis ou imóveis. Neste cenário, a Fundação de Arte de Ouro Preto | FAOP abre mais um processo seletivo do Curso Técnico em Conservação e Restauro para o primeiro semestre de 2018.

A Fundação forma profissionais técnicos de qualidade, capacitados para analisar, diagnosticar e intervir em papéis, pinturas de cavalete e esculturas policromadas. As áreas de atuação vão de ateliês a órgãos de preservação, incluindo museus, fundações, bibliotecas e toda e qualquer atividade relacionada à preservação e recuperação de patrimônio cultural.

O exame de seleção é realizado por meio de questões objetivas de língua portuguesa, química, elaboração de uma redação dissertativa e avaliação de aptidão visual e motora. São esses conhecimentos necessários para ingresso no curso. Para inscrever-se, os interessados devem ter concluído ou estar cursando a partir do 2° ano do ensino médio.

O exame de seleção é realizado por meio de questões objetivas de língua portuguesa, química e pela elaboração de uma redação dissertativa, conhecimentos necessários para ingressar no curso. Para inscrever-se, os interessados devem ter concluído ou estar cursando a partir do 2° ano do ensino médio.

As inscrições para o processo seletivo, no valor de R$60,00, acontecem pelo site www.faop.mg.gov.br de 23 de outubro a 21 de novembro, até às 12h.As provas serão realizadas no dia 3 de dezembro, das 9h às 12h e das 14h às 17h, em local a serem divulgados.

O resultado dos aprovados será publicado no dia 7 de dezembro no site da FAOP e na Casa Bernardo Guimarães, no Cabeças, em Ouro Preto/MG. Os ingressantes no curso são contemplados com a bolsa integral e devem cumprir, durante o curso, com os requisitos especificados no edital.

Serviço: Abertura do Edital do Curso Técnico em Conservação e Restauro

Data: 23 de outubro até 21 de novembro de 2017, às 12h

Público: Todos os interessados na área de conservação e restauro

Local: Casa Bernardo Guimarães

Informações: 3551-5052

Fonte original da notícia: Secretaria da Cultura de Minas Gerais




Ouro Preto (MG) – Iphan vai repassar R$ 1 mi para obras emergenciais na Matriz de Santo Antônio

Matriz de 1764 em Glaura, distrito de Ouro Preto, receberá recursos após um ano e quatro meses de interdição.

Foto: Leandro Couri

Uma injeção de ânimo nos moradores e de esperança para o distrito colonial de Glaura, em Ouro Preto, na Região Central. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vai destinar cerca de R$ 1 milhão para obras emergenciais na Matriz de Santo Antônio, datada de 1764 e tombada pela União. Segundo a superintendente da autarquia federal em Minas, Célia Corsino, o recurso provém da iniciativa privada – por enquanto, o nome da empresa não será divulgado. O anúncio oficial à comunidade será amanhã, às 10h, durante audiência pública com participação de parlamentares e outras autoridades no templo e na sede da associação comunitária do distrito, localizado a 28 quilômetros do Centro Histórico de Ouro Preto.

Interditado há um ano e quatro meses, o imponente templo barroco recebeu reparos na cobertura, nesse caso, fruto de apoio financeiro recolhido de casa em casa por voluntários, mas sofre com as trincas, motivo de grande temor para as famílias, comerciantes e admiradores do patrimônio barroco. “Fico muito feliz com a ótima notícia, pois estamos mobilizados há muito tempo em prol da restauração da igreja. O dinheiro ainda não é suficiente para todo o serviço, mas ajuda muito”, festeja o designer gráfico e dono de restaurante no distrito Alexandre Andrade. Ele demonstrou preocupação com a temporada de chuvas: “O telhado foi reformado, porém, há rachaduras nas paredes”.

Há mais de um ano, o Estado de Minas esteve em Glaura e mostrou a situação da igreja com suas cicatrizes profundas, entre elas uma fenda na portada em pedra, trabalhada em cantaria, num quadro que apavora também quem chega ao distrito. “Tudo isso nos deixa tristes. Felizmente, não perdemos a esperança e continuamos lutando”, afirma o comerciante Márcio Silva, integrante da comissão de mobilização pró-restauro. Ele lembra que a interdição ocorreu em 16 de junho do ano passado. Desde então, as celebrações religiosas deixaram o território sagrado, o tradicional espaço de encontros comunitários saiu de cena e os moradores já não podem ver, sem apreensão, as portas fechadas.

A audiência pública no distrito terá a participação dos deputados integrantes da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa (ALMG) – João Bosco (presidente), Elismar Prado, Carlos Pimenta, Glaycon Franco e Rosângela Reis. Conforme a assessoria do Legislativo, foram também convidados representantes da Secretaria de Estado de Cultura, da Prefeitura de Ouro Preto, do Ministério Público de Minas Gerais, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), da Arquidiocese de Mariana e de outros órgãos, A superintendência do Iphan será representada pela chefe de gabinete, Rosângela Guimarães.

Segurança. Atentos às ameaças ao templo, os defensores do patrimônio tomaram no ano passado uma providência para dar sustentação à fachada: três barrotes de madeira foram colocados para servir de escora. No entanto, explica Alexandre, um deles caiu, “sinalizando alguma movimentação da construção”, e uma nova peça foi posta no lugar. Em 23 de agosto, o chefe do escritório do Iphan em Ouro Preto, André Macieira, e a coordenadora do PAC Cidades Históricas pela Prefeitura de Ouro Preto, Débora Queiroz, ambos arquitetos, estiveram em Glaura reunidos com a comunidade. “A igreja não está em arruinamento. De seis meses para cá, estamos fazendo o monitoramento, e não houve qualquer movimentação”, tranquiliza Macieira. Ele explicou que as trincas são “uma reação da estrutura à umidade do solo”.

Macieira afirmou que a Matriz de Santo Antônio, em Glaura, e a Capela do Bom Jesus de Matosinhos/São Miguel e Almas, no Centro Histórico de Ouro Preto, são prioridades da superintendência do Iphan em Minas. “Fazemos o acompanhamento com muita proximidade. Os projetos estão em fase de conclusão e o estrutural já foi até aprovado pelo Iphan”, disse o arquiteto.

Por medida de segurança, todas as imagens, especialmente a do padroeiro Santo Antônio, foram retiradas dos altares. Percorrendo o interior do templo ou admirando o entorno, há sempre surpresas: na porta principal, chamam a atenção, em alto-relevo, em madeira, as imagens de Santo Antônio e Maria Concebida, padroeiros de Glaura. A última restauração de relevância ocorreu há 60 anos.

História. De acordo o Iphan, a Matriz de Santo Antônio é uma construção em pedra, com duas torres quadrangulares (na da esquerda está o sino; na da direita, o relógio) e janelas sineiras. Acima da porta principal há uma imagem de Santo Antônio protegida por nicho fechado com vidro. Os estudos mostram que os altares laterais são em talha barroca. Casamentos, batizados e missas eram celebrados no templo, que, em 2003, conforme laudo do Iphan, necessitava “de pintura nas fachadas e de restauração dos elementos artísticos”.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Igreja histórica degradada preocupa moradores de distrito em Ouro Preto (MG)

Templo de 250 anos, que é tombado, precisa passar por reformas.

G1 – Divulgação/Internet

Uma igreja de 250 anos é motivo de preocupação para moradores de Glaura, distrito de Ouro Preto, na Região Central do Estado. Problemas na fundação e rachaduras estão ameaçando o templo que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), desde 1962.

A Igreja de Santo Antônio, única do lugarejo, está interditada há mais de um ano. Segundo os moradores, a fundação da torre direita cedeu, aí a pedra afundou, a parede rachou e a Defesa Civil de Ouro Preto fechou a igreja para missa.

Em 2013 ela estava no pacote do PAC Cidades Históricas, do governo Dilma Rousseff (PT), e ia passar por uma restauração que já deveria ter ficado pronta, mas até hoje o projeto continua no papel.

As 143 peças sacras foram levadas para o museu da arquidiocese de Mariana, também na Região Central. A missa foi transferida para um salão e ela está ficando vazia. O telhado estava quebrado, e as fendas nas paredes estão aumentando.

Segundo os moradores, as últimas reformas autorizadas pelo Iphan foram feitas por eles. A do telhado custou R$ 2,2 mil e há pouco tempo a comunidade gastou mais R$ 600 reais para colocar escoras de madeiras no pórtico de entrada, que está com uma rachadura enorme.

O Iphan também colocou um vidro que serve de aviso. Se deslocar ou quebrar significa que a rachadura aumentou. Quem monitora o vidro é a própria comunidade.

A chegada do período chuvoso é mais um problema para a igreja, segundo os moradores.

O Instituto afirmou que a expectativa é que a obra na igreja comece no início do ano que vem.

Fonte original da notícia: MGTV – Belo Horizonte




Igre­ja no distrito de Ouro Preto (MG) é en­tre­gue à co­mu­ni­da­de após reforma

Ce­le­bra­ção eu­ca­rís­ti­ca mar­ca a en­tre­ga do tem­plo de Nos­sa Se­nho­ra das Do­res, de 1761, que foi com­ple­ta­men­te restaurado. Obra des­ven­dou pin­tu­ras es­con­di­das du­ran­te dé­ca­das.

Um trabalho minucioso dos restauradores na madeira do teto e nas paredes revelou verdadeiros tesouros. Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press

Do­min­go de fes­ta, ora­çõ­es e mui­ta ale­gria no dis­tri­to de Ca­cho­ei­ra do Cam­po, em Ou­ro Pre­to, na Re­gi­ão Central. Com pro­cis­são às 8h30 e mis­sa so­le­ne às 9h, se­rá en­tre­gue à co­mu­ni­da­de a Igre­ja de Nos­sa Se­nho­ra das Do­res, no dis­tri­to de Ca­cho­ei­ra do Cam­po, em Ou­ro Pre­to, na Re­gi­ão Central. O tem­plo da­ta de 1761 e é con­si­de­ra­do “o mais an­ti­go do país de­di­ca­do a Nos­sa Se­nho­ra das Do­res”, de acor­do com pes­qui­sas em do­cu­men­to do Ar­qui­vo Ul­tra­ma­ri­no de Lis­boa, Portugal. A ce­le­bra­ção eu­ca­rís­ti­ca se­rá pre­si­di­da pe­lo ar­ce­bis­po de Ma­ri­a­na, dom Ge­ral­do Lyrio Ro­cha, e con­ce­le­bra­da pe­los pa­dres Lu­is Ro­ber­to de Sou­za e Glau­ber Ro­dri­gues Lacerda.

O res­tau­ro da Igre­ja de Nos­sa Se­nho­ra das Do­res trou­xe de vol­ta pin­tu­ras es­con­di­das por dé­ca­das sob vá­ri­as ca­ma­das de tin­ta no for­ro e nas pa­re­des – em al­guns pon­tos, até 10, con­for­me mos­trou o Es­ta­do de Mi­nas em ma­té­ria pu­bli­ca­da em 30 de maio. A mai­or des­co­ber­ta es­tá lo­go na en­tra­da, no for­ro do átrio, on­de a equi­pe en­car­re­ga­da do ser­vi­ço en­con­trou guir­lan­das em po­li­cro­mia tam­pa­das pe­lo bran­co, que dei­xa­va à mos­tra ape­nas a ce­na do cal­vá­rio, cor­res­pon­den­te a 10% do tra­ba­lho original. A obra foi rei­vin­di­ca­da du­ran­te anos pe­la co­mu­ni­da­de e cus­te­a­da in­te­gral­men­te com re­cur­sos do Fun­do Mu­ni­ci­pal do Pa­tri­mô­nio (Funpa­tri), se­gun­do o se­cre­tá­rio mu­ni­ci­pal de Cul­tu­ra e Pa­tri­mô­nio, Za­queu As­to­ni Moreira. “Nes­ta rei­nau­gu­ra­ção, a igre­ja ga­nhou um gran­de pre­sen­te es­pe­ci­al, que se­rá in­cor­po­ra­do ao seu pa­tri­mô­nio e se­rá a logomarca. O pin­tor Car­los Bra­cher, que já te­ve uma re­si­dên­cia em fren­te do tem­plo, fez uma be­la aqua­re­la da fa­cha­da”, dis­se Zaqueu.

A reforma era uma reivindicação antiga dos moradores e foi custeada integralmente com recursos do fundo municipal do patrimônio. Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press

En­tre as vo­zes que se le­van­ta­ram pe­din­do o res­tau­ro, es­tá Ro­dri­go da Con­cei­ção Go­mes, pre­si­den­te da As­so­ci­a­ção dos Ami­gos de Ca­cho­ei­ra do Cam­po (Amic) e co­or­de­na­dor da co­mu­ni­da­de de Nos­sa Se­nho­ra das Do­res, o tec­nó­lo­go em con­ser­va­ção e res­tau­ra­ção, que sem­pre aler­tou pa­ra o ris­co de per­da do templo. Pa­ra ele, a in­ter­ven­ção sig­ni­fi­ca “uma gran­de vi­tó­ria dos mo­ra­do­res, que pe­di­ram pro­vi­dên­cia às au­to­ri­da­des e fi­ze­ram no­ve­na”.

Em dois tempos. Tom­ba­da pe­lo mu­ni­cí­pio em no­vem­bro de 2010 e al­vo de re­pa­ros no te­lha­do no ano se­guin­te, o tem­plo ga­nhou um pro­je­to ar­qui­te­tô­ni­co pa­ra re­cu­pe­ra­ção e um pe­di­do, dos mo­ra­do­res, ao Con­se­lho Mu­ni­ci­pal do Pa­tri­mô­nio Cul­tu­ral (Com­pa­tri) pa­ra co­lo­cá-lo em prática. Co­or­de­na­do­ra do Pro­gra­ma de Ace­le­ra­ção do Cres­ci­men­to (PAC) Ci­da­des His­tó­ri­as pe­la Pre­fei­tu­ra de Ou­ro Pre­to, a ar­qui­te­ta Dé­bo­ra Quei­roz ex­pli­cou que a in­ter­ven­ção do tem­plo foi de­fi­ni­da co­mo pri­o­ri­tá­ria e di­vi­di­da em dois tempos. Na pri­mei­ra fa­se, fo­ram exe­cu­ta­dos os ser­vi­ços de re­cu­pe­ra­ção do pi­so, pa­re­des e es­qua­dri­as, im­plan­ta­ção de man­ta de pro­te­ção sob a co­ber­tu­ra, tro­ca de te­lhas, pre­en­chi­men­to de trin­cas e dre­na­gem no entorno. Além des­se pa­co­te de obras ci­vis, a equi­pe cui­dou da par­te elé­tri­ca, so­no­ri­za­ção e Sis­te­ma de Pro­te­ção con­tra Des­car­gas At­mos­fé­ri­cas (SP­DA).

A se­gun­da fa­se com­pre­en­deu os ele­men­tos ar­tís­ti­cos e tam­bém com re­cur­sos do Funpatri. Ou­tras sur­pre­sas en­can­ta­ram os res­tau­ra­do­res, co­mo o ver­de for­te pre­sen­te no al­tar da ca­pe­la-mor e acha­do sob oi­to ca­ma­das de tin­ta de cin­co co­res diferentes. Já nas pa­re­des, mais des­co­ber­tas: de­bai­xo de tin­ta, foi lo­ca­li­za­do um bar­ra­do com pin­tu­ras mar­mo­ri­za­das, no tom sal­mão, e da­ta­das de 1870-1880, cre­di­ta­das a ita­li­a­nos que mo­ra­ram na re­gi­ão no sé­cu­lo 19. Tam­bém fiéis às co­res que as pros­pec­çõ­es mos­tra­ram, os es­pe­ci­a­lis­tas de­ci­di­ram por um tom be­ge pa­ra a pa­re­de so­bre o barrado. A obra tão an­si­o­sa­men­te aguar­da­da pe­la co­mu­ni­da­de de Ca­cho­ei­ra do Cam­po não pa­rou de surpreender. Per­to do for­ro da na­ve, a qua­tro me­tros de al­tu­ra, fo­ram re­cu­pe­ra­dos o for­ro com nar­ra­ti­va bíblica.

História. Cons­truí­da em 1761 pa­ra as ce­ri­mô­ni­as da se­ma­na san­ta, a Igre­ja de Nos­sa Se­nho­ra das Do­res tem no for­ro o mai­or destaque. O que cha­ma lo­go a aten­ção de quem en­tra é a or­na­men­ta­ção com os 15 pa­i­néis da na­ve, de ins­pi­ra­ção me­di­e­val, re­pre­sen­tan­do a Pai­xão de Cris­to, do hor­to das oli­vei­ras à ressurreição.

Mui­tas his­tó­ri­as e len­das ron­dam a his­tó­ria da igreja. A ima­gem da san­ta de ro­ca, con­for­me a tra­di­ção oral, che­gou a Ca­cho­ei­ra do Cam­po em me­a­dos do sé­cu­lo 18 por­tan­do vá­ri­as joi­as, que desapareceram. “Con­tam que, sob os aus­pí­ci­os de uma mu­lher cha­ma­da Ma­ria Do­lo­ro­sa, a ima­gem per­cor­ria as ca­sas do dis­tri­to an­ga­ri­an­do fun­dos pa­ra a cons­tru­ção da igreja. Ou­tra an­ti­ga len­da afir­ma que os in­con­fi­den­tes se reu­ni­am no in­te­ri­or do tem­plo pa­ra, do al­to de sua tor­re es­quer­da, es­pi­o­nar o Vis­con­de de Bar­ba­ce­na em seu palácio.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Cruzeiro da Barra é restaurado e volta à paisagem de Ouro Preto (MG)

Monumento tinha sido quebrado por dois adolescentes e abandonado, mas agora retorna para a celebração da Exaltação à Santa Cruz.

Restaurado após dois anos relegado ao abandono, o cruzeiro foi abençoado na reinauguração. Foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS

A celebração da Exaltação à Santa Cruz contará hoje na paisagem barroca da cidade reconhecida como patrimônio da humanidade com um marco religioso e cultural totalmente restaurado. Foi reinaugurado em Ouro Preto, na Região Central, o Cruzeiro da Barra, que, há dois anos, foi quebrado por dois adolescentes e relegado ao abandono. “A cruz é um sinal de salvação da humanidade e presente em vários pontos de Ouro Preto”, diz o cônego Luiz Carneiro, titular da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, ao abençoar o monumento.

O secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, explica que o monumento localizado na Praça Amadeu Barbosa, de autoria do mestre José Raimundo Pereira, o mestre Juca, e constituído por cantaria, espécie de rocha bruta, tem grande representatividade para o município, já que, no local, ficava a Coluna Saldanha Marinho, o primeiro marco em homenagem aos inconfidentes e atualmente instalado na Praça Cesário Alvim ou Praça da Estação. “A relevância também se deve ao fato de a base ser do século 20 e a cruz do século passado.”

Moradores e visitantes gostaram de ver o monumento de volta. “Ficou ótimo, excelente, e é mais um atrativo para os turistas”, o fiscal da feira de hortifrutigranjeiros, que funciona na Barra, Marcelo da Silva. Em duas épocas do ano, o cruzeiro é alvo de homenagens dos católicos: na Festa de Santa Cruz, em Maio, e 14 de setembro, na Exaltação à Santa Cruz, conforme disse o cônego Luiz Carneiro na reinauguração, em 18 de agosto.

Restauro. Construído em pedra-sabão e com quatro metros de altura em sua totalidade, o cruzeiro foi restaurado, e teve partes danificadas reproduzidas, com recursos municipais. O serviço foi entregue ao mestre canteiro Edniz José Reis, o que incluiu ainda limpeza, higienização e revitalização. Para garantir a segurança do bem e impedir novos atos de vandalismo ao patrimônio público, como o ocorrido há mais de dois anos e que deixou os braços da cruz quebrados, a Secretaria de Cultura e Patrimônio pediu o monitoramento pelas polícias Militar e Civil e. atenção redobrada. Segundo as autoridades, o cruzeiro ficou relegado ao abandono desde a agressão.

Para entender mais sobre a história de Ouro Preto, cujo Centro Histórico é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é importante lembrar que a coluna Saldanha Marinho foi erguida há 150 anos na Praça Tiradentes. Trata-se de um símbolo da Inconfidência Mineira, que homenageia Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, e os demais integrantes do movimento que tentou separar o Brasil de Portugal. Construída em pedra de cantaria, com seis metros de altura, e batizada com o nome do então presidente da província de Minas Gerais, a coluna tem trajetória peculiar, que alterna transferências de local com o sumiço que intrigou, durante décadas, moradores e estudiosos. Só em Belo Horizonte, ela ficou jogada num depósito por quase quatro décadas. Desde 2009, está na Praça da Estação.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto (MG), é reaberta depois de dois anos de obras

As obras duraram dois anos sob comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Foram investidos cerca de R$ 4 milhões no restauro arquitetônico. Foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press

De portas abertas para a devoção, comunhão dos fiéis e beleza do patrimônio cultural de Ouro Preto, na Região Central. Em clima de festa, foi entregue na tarde desta sexta-feira (18), à comunidade local, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecida como Matriz de Antônio Dias, no Centro Histórico da cidade reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco). “Estamos felizes, pois nova etapa está assegurada, para restauro dos elementos artísticos”, disse o titular da paróquia, cônego Luiz Carneiro.

As obras duraram dois anos sob comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas – de acordo com a autarquia federal, foram investidos cerca de R$ 4 milhões no restauro arquitetônico do bem.

A primeira etapa contemplou a recuperação estrutural do edifício, com substituição de instalações elétricas, bem como prevenção e combate a incêndio. Outra importante mudança foi a pintura nas cores originais da igreja, resgatadas por meio de prospecções cromáticas, iconografia histórica e no relato dos antigos moradores. Sem dúvida, a intervenção figura como destaque de 2017 na cidade, berço de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que foi sepultado nesse templo sob o altar de Nossa Senhora da Boa Morte. O pai de Aleijadinho, Manuel Francisco Lisboa, também está sepultado no templo. Conforme estudo recente, o mestre do barroco nasceu em 1737, portanto há 280 anos, embora a polêmica exista, pois outros historiadores falam em 1730 e 1738, esse último dado como oficial.

Uma das mais antigas igrejas de Minas, com construção iniciada em 1727, e também uma das maiores em tamanho e suntuosidade, a Igreja Matriz de Antônio Dias foi tombada isoladamente pelo Iphan em 1939. Ela foi uma das ações selecionadas para receber os investimentos do PAC Cidades Históricas, que também restaurou os chafarizes do Centro Histórico de Ouro Preto e prevê ainda a execução de outras 13 ações no município.

A solenidade de entrega da primeira etapa de obras teve a presença da presidente do Iphan, Kátia Bogéa, da superintendente do Iphan em Minas, Célia Corsino, do prefeito de Ouro Preto, Júlio Pimenta, do arcebispo de Mariana, dom Geraldo Lyrio Rocha e representantes da paróquia e do Museu Aleijadinho. A cerimônia terá ainda a apresentação do Coral Canto Crescente, projeto sociocultural de formação musical de crianças e adolescentes da cidade, e exibição do documentário Esperando Conceição, produzido pela jornalista Lidiane Andrade com a comunidade da paróquia, no âmbito do Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural, do Iphan.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Após mais de 20 anos sem água, chafariz do centro de Ouro Preto (MG) será religado

Equipamento do século 18 será restaurado e voltará a matar a sede de quem passa no Centro de Ouro Preto. Obra de R$ 52 mil deve terminar em outubro.

Trabalhadores já estão em ação no Chafariz dos Contos, cercado por tapumes: obra é bancada com recursos do Fundo Municipal do Patrimônio. Foto: Ana Paula Paixão/Divulgação

As águas vão rolar no Chafariz dos Contos, no Centro Histórico de Ouro Preto, na Região Central de Minas. Depois de mais de 20 anos no seco, e com muitos problemas na preservação, o equipamento do século 18, usado originalmente para abastecimento público voltará à cena barroca com a mesma serventia e, melhor, restaurado. Segundo o secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, os recursos de R$ 52 mil para a obra são do Fundo Municipal do Patrimônio e a expectativa é de que tudo fique pronto no fim de outubro ou início de novembro.

“A água do chafariz será potável, então própria para o consumo, e representará um atrativo a mais para moradores e visitantes”, afirma Zaqueu. Ele destaca a importância do monumento construído em 1745 para Ouro Preto, cidade que é Patrimônio da Humanidade, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e tem a região central tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“A peça tem uma inscrição em latim (Is quae potatum cole gens pleno ore Senatum, securi ut sitis nam jacit ille sitis) numa referência ao antigo Senado da Câmara. A tradução é ‘o povo de boca cheia louvará o senado que sua sede saceia’”, diz o secretário. Em resumo, o Senado da Câmara, como administrador impessoal, e não o governador da época, entregou à população a obra de utilidade pública.

Quem passa na Rua São José e para na Praça Reinaldo Alves de Brito, chamada de pracinha do cinema, pode ver o chafariz com os tapumes e trabalhadores em ação. Entusiasmado com o serviço, Zaqueu conta que uma réplica desse monumento se encontra num parque da cidade norte-americana de Brazil (com z mesmo), no estado de Indiana. Ele foi dado de presente pelo ex-embaixador do Brasil em Washington (EUA) Maurício Nabuco (1937-1985).

Sem Água. O Chafariz dos Contos é considerado o mais importante de Ouro Preto. Construído em alvenaria de pedra rebocada e partes aparentes em cantaria, ele fica no centro de um grande paredão na praça. De acordo com os especialistas, ele tem duas grandes e largas volutas (ornamento) de cantaria, em curvas, com o espaço no qual se insere uma grande concha barroca apoiada numa bacia esculpida. A diferença do Chafariz dos Contos para os outros de Ouro Preto, restaurados e entregues à comunidade no ano passado, é que o agora em obras terá água, diz o secretário.

O conjunto de 22 chafarizes foi restaurado com Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas, do governo federal. A maioria foi construída entre 1740 e 1760, época de grandes investimentos em obras públicas na então capital da Capitania de Minas Gerais, chamada de Vila Rica. O responsável pela construção dos chafarizes era o Senado da Câmara, que publicava editais de arrematação e contratava artífices para trabalhar sob a orientação de um risco, como era chamado o projeto. No período colonial, o material preferencialmente empregado nos tanques, ornatos e muros eram rochas locais, como o itacolomi ou a canga, sendo que mais tarde, novos materiais foram introduzidos, como o ferro fundido.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Nos 280 anos de Aleijadinho, Ouro Preto (MG) ganha igreja onde mestre foi sepultado

Matriz de Nossa Senhora da Conceição será reaberta aos moradores e visitantes depois de dois anos fechada para restauração.

Fechada por dois anos, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição será reaberta em 18 de agosto, mas ainda passará pela segunda fase de restauração, que incluirá os elementos artísticos da construção. Foto: Marcelo Tholedo/Divulgação

Dentro de um mês, em 18 de agosto, uma das mais importantes igrejas de Ouro Preto, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, conhecida como Matriz de Antônio Dias, será reaberta aos moradores e visitantes, depois de dois anos de restauração comandada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas.

Se na primeira etapa foi contemplada a parte arquitetônica, na segunda, com licitação assegurada pela autarquia federal para este semestre, será a vez dos elementos artísticos da construção do século 18. Sem dúvida, a obra figura como destaque de 2017 na cidade, berço de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que está sepultado nesse templo sob o altar de Nossa Senhora da Boa Morte. Conforme estudo recente, o mestre do Barroco nasceu em 1737, portanto há 280 anos, embora a polêmica exista, pois outros historiadores falam em 1730 e 1738.

Para os visitantes, a nova etapa na igreja será oportuna tanto para se conhecer o trabalho dos restauradores como também para ver a intervenção em todos os retábulos da nave e da capela-mor, além de forros e pinturas. Segundo o chefe do escritório do Iphan em Ouro Preto, André Macieira, as portas ficarão abertas durante os serviços, pois a matriz oferece completa segurança. O secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, aplaude a iniciativa e adianta que toda a programação da Semana Aleijadinho, em novembro, será alusiva aos 280 anos do patrono das artes no país e natural de Ouro Preto, cidade cujo Centro Histórico é reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Segundo estudos, a história da matriz começa por volta de 1699, quando foi elevada, a mando do bandeirante Antônio Dias, uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Em 1705, instituiu-se a primitiva matriz, sofrendo provavelmente modificações e acréscimos para se adaptar à nova função. O rápido crescimento da população do antigo Arraial de Antônio Dias fez com que os moradores, em 1711, exigissem a construção de um novo templo, o que ocorreu em 1724.

Em 1727, foi iniciada a construção da atual matriz, cujo projeto é atribuído a Manoel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Os trabalhos iniciados antes da Matriz do Pilar seguiram em ritmo mais lento até 1756, quando se inicia a talha da capela-mor e posteriormente as obras de pintura e douramento. Os altares da nave são bem mais antigos, podendo incluir, como no caso da Matriz do Pilar, peças remanescentes da primitiva. A decoração interna da nave é atribuída também ao pai de Aleijadinho. Já a talha da capela-mor, a Jerônimo Félix Teixeira e Felipe Vieira, discípulos de Noronha e Xavier de Brito, daí sua afinidade com a Matriz do Pilar.

Pesquisa. O ano de nascimento de Aleijadinho sempre despertou polêmica, alguns dizendo que foi em 1730 e outros em 1738. De certeza mesmo, só o da morte, 1814, tanto que em 2014 houve muitas homenagens pelo transcurso do bicentenário. Mergulhado em pesquisa no Brasil e Portugal, o promotor de Justiça e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais Marcos Paulo de Souza Miranda jogou luz sobre o assunto no seu livro Aleijadinho revelado – Estudo histórico sobre Antonio Francisco Lisboa, ao descobrir que foi mesmo em 1737.

Cores da fachada chamam a atenção em meio às ladeiras históricas de Ouro Preto. Foto: Marcelo Tholedo/Divulgação

Na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, Marcos Paulo localizou o registro de nascimento de Antonio Francisco Lisboa, filho da negra forra Isabel. Em entrevista ao Estado de Minas, ele explicou que “os estudiosos certamente procuravam o registro apenas pelo nome do pai, o artífice português Manuel Antonio Lisboa. A questão é que, naquela época, pelo direito canônico, era proibido que constassem do registro os nomes dos pais quando o casal não fosse formalmente casado. Daí só haver o nome da mãe no documento. Além disso, o costume era levar a criança à pia batismal logo após o nascimento.” A única data que se conhecia era a da morte, 18 de novembro, conforme consta do atestado de óbito. É curioso notar, no túmulo, que uma placa traz o sinal de interrogação ao lado do ano de 1738, que seria o do nascimento.

O autor do livro lembrou que a primeira biografia foi escrita em 1858, por Rodrigo José Ferreira Bretas, ex-promotor de Justiça de Ouro Preto. “O trabalho foi publicado no jornal Correio de Minas, 44 anos depois da morte de Aleijadinho. Bretas conversou com dona Joana Lopes, parteira, que foi casada com o filho do artista, Manoel Francisco Lisboa, batizado com o mesmo nome do avô.”

O pai de Aleijadinho, Manoel Francisco Lisboa, nasceu em São José de Odivelas, antes pertencente a Lisboa, Portugal, hoje município autônomo, conforme os levantamentos de Souza Miranda: “O nome de família não é propriamente ‘de Lisboa’, apenas indica a procedência. O pioneiro João Francisco e seus três filhos vieram da capital portuguesa atraídos, no auge da mineração do ouro nas Gerais, pela alta efervescência de construção de igrejas. Era uma família de artífices. Os tios de Aleijadinho, Antonio Francisco Pombal e Francisco Antonio Lisboa, foram exímios entalhadores e atuaram, respectivamente, nas matrizes do Pilar e de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias”.

Aleijadinho foi aprendiz, oficial e tornou-se mestre, aprendendo a trabalhar com a própria família, pois todos eram do ramo. Em 1760, aos 23 anos, ele começou com sua oficina, embora não fosse um espaço físico, mas um serviço itinerante. De acordo com Souza Miranda, “ele se deslocava para o lugar onde houvesse serviço, tanto que morou em Rio Espera, na Zona da Mata, e Sabará. A equipe dormia geralmente nas casas paroquiais. Outra atividade importante, a exemplo da desempenhada pelo pai, foi a de perito ou ‘louvado’.

Um dos irmãos de Aleijadinho, o padre Félix, seguiu a mesma trilha e se tornou talentoso escultor de peças sacras”. Autor do prefácio do livro, o secretário de estado de Cultura, Angelo Oswaldo, afirma que 1738 continua o ano dado como aceito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas acredita que pode ser dada a largada para os festejos. “Aleijadinho é para se festejar todo dia”, afirma. O ano de 1738 decorre de uma certidão de óbito datada de 18 de novembro de 1814, na qual há a informação de que o homem sepultado teria 76 anos, portanto, nascido em 1738. “Na época do bicentenário, foi formada uma comissão pelo Iphan para estudar a fundo o legado de Aleijadinho, identificar as obras, tirar as dúvidas, mas acho que não evoluiu”, diz o secretário. Ele lamenta que o Museu Aleijadinho, composto pelo acervo das igrejas de Nossa Senhora da Conceição, São Francisco e Mercês de Baixo, em Ouro Preto, não esteja aberto à visitação.

Reconhecimento. O nome Aleijadinho tem reconhecimento de norte a sul. “Dos artistas brasileiros que atuaram no período colonial, Aleijadinho foi o que mais se destacou, tanto do ponto de vista qualitativo, quanto quantitativo. Ele viveu em Minas e sua trajetória coincide com o período áureo da exploração de metais preciosos, quando a região presenciou um grande momento de vida social urbana”, ressalta o diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, Andrey Rosenthal Schlee. Ele explica que “a riqueza do ouro e dos diamantes, associada à profusão de irmandades religiosas, garantiu trabalho e reconhecimento ao artista, que deixou obras significativas em Ouro Preto, São João del-Rei, Congonhas e Sabará.

Foto: Marcelo Tholedo/Divulgação

“Para demonstrar a importância de Aleijadinho e de sua oficina, basta citar a delicadeza da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto ou a monumentalidade do conjunto arquitetônico dos Passos e Adro dos Profetas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas”, conta Andrey, também professor da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP).

Retrato Oficial

Foto: Cristina Horta/EM

Louvado pelas imagens que brotaram de suas mãos, o gênio do Barroco paradoxalmente tem na própria fisionomia um mistério. Nos séculos 18 e 19, muitos desenhistas e pintores fizeram o “retrato falado” de Aleijadinho, um assunto ainda bastante polêmico. O chamado retrato oficial, que faz parte das homenagens no bicentenário de morte, está exposto no Museu Mineiro, na Avenida João Pinheiro, em Belo Horizonte. Trata-se de óleo sobre pergaminho (foto) feito no século 19, por Euclásio Penna Ventura. O quadro, na verdade um ex-voto, medindo 20cm por 30cm, pertenceu à Casa dos Milagres, de Congonhas, e mostra um homem mulato bem-vestido. Foi vendido em 1916 a um comerciante de Congonhas, identificado como Senhor Baerlein, proprietário da Relojoaria da Bolsa do Rio de Janeiro. A alegação de que se tratava do rosto do mestre do Barroco se baseou na imagem representada ao fundo da pintura, em segundo plano, que parecia idêntica a uma obra de autoria do artista.

Linha do Tempo

» 1720
Chegam a Ouro Preto, vindos de Portugal, João Francisco e três filhos, sendo um deles Manuel Francisco Lisboa.

» 1737
Em 26 de junho, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é batizado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto. Ele é filho de Manuel Francisco Lisboa com a negra forra Isabel. Alguns estudiosos apontam 1730 ou 1738 como o ano do nascimento.

» 1750
O menino Antonio frequenta o internato do Seminário dos Franciscanos Donatos do Hospício da Terra Santa, em Ouro Preto, onde aprende gramática, latim, matemática e religião.

» 1755
Nasce Félix Antonio Lisboa, irmão de Aleijadinho. Foi padre e escultor talentoso.

» 1763
O artista faz sua primeira intervenção com características arquitetônicas: frontispício e torres sineiras da Matriz de São João Batista, em Barão de Cocais, e ainda a imagem São João Batista.

» 1766
Em Ouro Preto, o artista executa o projeto da Igreja de São Francisco de Assis, as imagens do frontispício e a fonte-lavabo da sacristia.

» 1768
Antonio se alista no Regimento da Infantaria dos Homens Pardos de Ouro Preto e, durante três anos, presta o serviço militar, o qual conjuga com uma atividade profissional intensa.

» 1774
Recebe a encomenda do projeto da Igreja de São Francisco de Assis, de São João del- Rei, e executa o projeto da Igreja de São José, de Ouro Preto. Em Sabará, faz trabalhos para a Igreja do Carmo.

» 1777
Nasce o filho de Aleijadinho, que recebe o mesmo nome do avô – Manuel Francisco Lisboa. O menino é batizado em 23 de janeiro na catedral do Rio de Janeiro. É detectada uma grave doença degenerativa, que deforma corpo e membros do artista.

» 1780
Aleijadinho conclui o conjunto de talha, retábulos, púlpitos e coro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Jaguara, encomendada pela Irmandade da Ordem Terceira do Carmo de Sabará.

» De 1784 a 1786
Aleijadinho esculpe o conjunto em madeira da Fazenda da Jaguara, em Matozinhos. No início do século 20, o acervo é transferido para a Matriz do Pilar, em Nova Lima, na Grande BH.

» 1790
Recebe o apelido de Aleijadinho. Tem obra elogiada no levantamento de fatos notáveis, ordenado pela Coroa em 1782 e feito pelo vereador da Câmara de Mariana capitão Joaquim José da Silva.

» 1790-1794
Aleijadinho se ocupa do retábulo do altar-mor da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, com grande equipe de oficiais de talha. Obra é a coroação da atividade de escultor e entalhador.

» De 1796 a 1799
Nas capelas que recriam a via-crúcis, em Congonhas, Aleijadinho esculpe o conjunto de 64 figuras em madeira. Nas paredes, há as pinturas bíblicas de Manuel da Costa Ataíde (1762-1830).

» De 1800 a 1805
No Santuário Basílica do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas, Aleijadinho esculpe os 12 profetas que receberam reconhecimento da Unesco como patrimônio mundial.

» 1812-1813
O estado de saúde de Aleijadinho se agrava. Passa a viver em uma casa perto da Igreja do Carmo, em Ouro Preto, para supervisionar as obras que lá estavam em andamento.

» 1814
Aleijadinho morre em 18 de novembro, segundo certidão de óbito arquivada na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Está sepultado sob o altar de Nossa Senhora da Boa Morte.

» 1858
Publicada a primeira biografia do mestre do barroco, escrita pelo promotor de Justiça Rodrigo José Ferreira Bretas.

» 1930
Feita a primeira exumação dos restos mortais de Aleijadinho, para lembrar o bicentenário do nascimento do artista, que, segundo nova pesquisa, nasceu em 1737 e não em 1730 ou 1738, como se considerava anteriormente.

» 1947
Feita a segunda exumação, de forma clandestina. Pedaços de ossos são levados para exames na Inglaterra. Outras duas ocorreram em 1970 e 2003.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




Ouro Preto (MG) – Restauração revela pinturas escondidas em igreja de Cachoeira do Campo

Intervenções na Igreja Nossa Senhora das Dores, no distrito de Ouro Preto, trazem de volta obras de arte sob várias camadas de tinta no forro e nas paredes.

Uma das pinturas foi encontrada por técnicos logo na entrada do imóvel. Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press

Ressurreição de cores, formas e beleza. O restauro da Igreja Nossa Senhora das Dores, no distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, na Região Central, traz de volta pinturas escondidas por décadas sob várias camadas de tinta no forro e nas paredes – em alguns pontos, até 10.

A maior descoberta está logo na entrada, no forro do átrio, onde a equipe encarregada do serviço encontrou guirlandas em policromia tampadas pelo branco, que deixava à mostra apenas a cena do calvário, correspondente a 10% do trabalho original. Reivindicada pela comunidade e custeada integralmente com recursos do Fundo Municipal do Patrimônio (Funpatri), no valor de R$ 970 mil, a obra deverá ser concluída e entregue em outubro, informa o secretário municipal de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto, Zaqueu Astoni Moreira.

Na manhã de quinta-feira, a equipe do Estado de Minas conferiu o avanço do projeto de restauro, um quadro oposto ao de setembro de 2010, quando o tecnólogo em conservação e restauração Rodrigo da Conceição Gomes, presidente da Associação dos Amigos de Cachoeira do Campo (Amic) e coordenador da comunidade de Nossa Senhora das Dores, alertava para o risco de perda do templo construído em 1761 e considerado o mais antigo do país dedicado a Nossa Senhora das Dores, “conforme documento do Arquivo Ultramarino de Lisboa, Portugal”. Para ele, a intervenção significa “uma grande vitória dos moradores, que pediram providência às autoridades e fizeram novena”.

Tombada pelo município em novembro de 2010 e alvo de reparos no telhado no ano seguinte, a igreja ganhou, na sequência, um projeto arquitetônico para recuperação e um pedido, dos moradores, ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (Compatri) para colocá-lo em prática. Coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Histórias pela Prefeitura de Ouro Preto, a arquiteta Débora Queiroz conta que a intervenção do templo foi definida como prioritária e dividida em dois tempos. Na primeira fase, ao custo de R$ 380 mil, foram executados os serviços de recuperação do piso, paredes e esquadrias, implantação de manta de proteção sob a cobertura, troca de telhas, preenchimento de trincas e drenagem no entorno. Além desse pacote de obras civis, a equipe cuidou da parte elétrica, sonorização e Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA).

“Estamos felizes com o resultado de tanta luta. Esperamos muito para ver a igreja em obra. Ela é importante para Cachoeira do Campo, Ouro Preto e Minas”, diz a zeladora do templo e mãe de Rodrigo, Geralda Flaviana Araújo Gomes, de 68 anos. Para quem trabalha como marceneiro, atuar no restauro de uma construção do século 18 é uma experiência única, principalmente quando se refere à salvação dela. “A madeira estava cheia de cupins e com cera demais”, afirma Cláudio Braga, de 63.

Arte Colonial. A segunda fase, em andamento, compreende os elementos artísticos, no valor de R$ 590 mil e também com recursos do Funpatri, explica Débora, ao lado do restaurador Sílvio Luiz Rocha Viana de Oliveira, coordenador contratado pela prefeitura para essa área, e do arquiteto Paulo Hermínio Guimarães, responsável técnico pela empresa contratada. Depois de mostrar as delicadas flores na pintura do átrio, os três se dirigem à capela-mor, que guarda a pintura da santa e contém a inscrição em latim Consolatris aflito rum (Consoladora dos aflitos). “Tudo indica se tratar da representação de um ex-voto”, explica Sílvio, numa referência ao pagamento de uma promessa por um fidalgo retratado aos pés de Nossa Senhora das Dores.

O altar da capela-mor exibe um verde forte, achado “sob oito camadas de tinta de cinco cores diferentes”, mostra Sílvio, ressaltando o restauro da igreja, feito há 25 anos, por Zenith Inácio, viúva de Jair Afonso Inácio, criador do curso de conservação-restauração da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) e com atuação no Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). Sílvio revela que, no caso da madeira, havia muita cera por trás, material usado durante muito tempo para recuperar as tábuas.

Outro ponto de destaque está nas paredes, algo também surpreendente para a equipe: debaixo de tinta, foi localizado um barrado com pinturas marmorizadas, no tom salmão e datadas de 1870-1880, creditadas a italianos que moraram na região no século 19. Também fiéis às cores que as prospecções mostraram, os restauradores decidiram por um tom bege para a parede sobre o barrado.

A obra tão ansiosamente aguardada pela comunidade de Cachoeira do Campo não para de encantar. Para quem pensa que acabou, há mais surpresas perto do forro da nave, a quatro metros de altura. De pé ou sentados sobre a estrutura de andaimes, recuperam o forro com narrativa bíblica os técnicos em restauração Ernesto Alves de Almeida, Elen Carvalho, Ana Paula Gonçalves dos Reis, Lunara Cristina Ferreira da Silva, Lindalva Ferreira de Freitas e Adriane Juliano Barroso. “É um trabalho muito gratificante”, avalia Lunara, que já trabalhou em outras igrejas dos tempos coloniais, enquanto Ana Paula brinca que ali, “pertinho do céu”, é possível desempenhar tarefas muito compensadoras e benéficas para o patrimônio da cidade.

História. Construída em 1761 para as cerimônias da semana santa, a Igreja Nossa Senhora das Dores tem no forro o maior destaque. O que chama logo a atenção de quem entra é a ornamentação com os 15 painéis da nave, de inspiração medieval, representando a Paixão de Cristo, do horto das oliveiras à ressurreição.

Muitas histórias e lendas rondam a história da igreja. A imagem da santa de roca, conforme a tradição oral, chegou a Cachoeira do Campo em meados do século 18 portando várias joias, que desapareceram. “Contam que, sob os auspícios de uma mulher chamada Maria Dolorosa, a imagem percorria as casas do distrito angariando fundos para a construção da igreja. Outra antiga lenda afirma que os inconfidentes se reuniam no interior do templo para, do alto de sua torre esquerda, espionar o Visconde de Barbacena em seu palácio”, conta Rodrigo Gomes.

Memória
Luta pela preservação


Em 15 de setembro de 2010, dia dedicado a Nossa Senhora das Dores, a comunidade católica de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, na Região Central de Minas, fortaleceu a campanha para salvar o templo dedicado à santa. Fechada havia três anos, a edificação, no Bairro de Nossa Senhora das Dores, apresentava sérios problemas. O forro estava cedendo e, com isso, imperava o medo de se perderem as pinturas originais, tanto na capela-mor, que traz a imagem de Nossa Senhora das Dores em meio a anjos, como na nave, com os da via-sacra, sem autoria identificada. Por medida de segurança, todas as imagens foram retiradas e guardadas em outro local. Além de pedir a intercessão de Nossa Senhora das Dores, a comunidade rezou, todo dia 28, para São Judas Tadeu, o das causas impossíveis. “Deu certo. Uma noite, sonhei que uma guirlanda tinha sido encontrada sob a tinta branca”, conta Rodrigo, que reside em Barbacena e está sempre em Cachoeira do Campo.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas