Porto Alegre (RS) – Climatização conserva patrimônio histórico de 97 anos do Palácio Piratini

“Com poucos recursos para todas as áreas, buscamos parceiros e conseguimos viabilizar esta obra”, afirmou Sartori – Foto: Karine Viana/Palácio Piratini

No dia em que o Palácio Piratini comemora 97 anos, o governo do Estado também celebra uma conquista importante para conservar o acervo histórico do prédio: a entrega das obras de climatização do segundo pavimento da Ala Governamental. O projeto vinha sendo discutido e elaborado há anos e nesta quinta-feira (17) foi inaugurado, após cinco meses de trabalho.

Com a climatização, o mobiliário, a decoração de época, e, principalmente, os 23 murais do artista italiano Aldo Locatelli, a maioria localizada nos salões Negrinho do Pastoreio e Alberto Pasqualini, serão preservados. Como o Palácio Piratini é um prédio tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico  do Estado (Iphae) e pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o projeto precisou ser aprovado por ambos.

A obra foi totalmente financiada pela Lei Rouanet, também conhecida como Lei de Incentivo à Cultura, não gerando qualquer custo para o cofre do Estado. O proponente do projeto, junto ao Ministério da Cultura, foi o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, que ficou responsável pela captação dos recursos necessários. O valor é de aproximadamente R$ 2,2 milhões.

“Lá atrás, em 1896 e em 1909, quando foram lançadas as duas pedras fundamentais para a construção do Palácio Piratini, a orientação era para que este prédio fosse o edifício público mais belo e majestoso de todo o Brasil. A sede do governo gaúcho é, com certeza, um dos mais belos e majestosos prédios públicos do país. Aqui, temos as obras de Aldo Locatelli, agora preservadas com a nova climatização”, assegurou o governador José Ivo Sartori durante a solenidade.

Sartori destacou que, ao completar 97 anos, o Palácio Piratini, patrimônio dos gaúchos, ganha uma grande e muito esperada obra: a climatização dos salões principais da sede do governo, que, segundo o governador, é uma obra extremamente necessária nos tempos atuais e planejada há mais de 10 anos.

“Somos um governo de atitude, que busca um Estado eficiente e moderno. Somos também um governo de parcerias. Com poucos recursos para todas as áreas, buscamos parceiros e conseguimos viabilizar esta obra”, afirmou Sartori.

O projeto, do arquiteto Edegar Bitencourt da Luz, foi elaborado de maneira a causar a menor intervenção possível. O sistema foi implantado sobre os forros de estuque existentes nos ambientes e as casas de máquinas ficam sobre a cobertura da Ala Governamental. A execução da obra foi da empresa Arquium Construções e Restauro.

Para o presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS, Miguel do Espírito Santo, esse investimento foi extremamente necessário. “A obra entregue hoje ao Rio Grande do Sul é de superlativa significação. É pertinente a preservação do mais importante símbolo do estado, o Palácio do governo, sede de nossas mais caras tradições e das mais importantes decisões em atenção à causa pública”, explicou.

Segundo o presidente, o Instituto também é parceiro do governo do Estado em outros dois projetos culturais, já contemplados pela Lei Rouanet e em fase de captação de recursos. Entre eles, está o restauro de peças do mobiliário histórico da sede do governo e a montagem da estrutura da Oficina de Restauro do Palácio Piratini.

O secretário da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Victor Hugo, disse que a entrega do governo para a sociedade é resultado de parcerias que dão certo. “Uma demonstração clara à sociedade rio-grandense de que governos podem fazer mais do que políticas de governo. Que governos podem fazer política de Estado. E é isso que estamos vivendo”, admitiu.

O presidente do Instituto de Previdência do Estado do RS, José Guilherme Klimann, foi um dos coordenadores do projeto, enquanto esteve como secretário adjunto da Casa Civil, e destacou o trabalho em equipe e a superação de entraves ao longo do tempo. “Fazer intervenções em um prédio como o Palácio Piratini não é tarefa simples. Exige o máximo de cuidado e uma fiscalização muito grande. Topamos o desafio e aqui está o resultado plenamente exitoso”, destacou.

Durante a cerimônia de comemoração dos 97 anos do Palácio Piratini, o Coral do Banrisul fez uma apresentação aos convidados. Eles interpretaram Negrinho do Pastoreio, Boi Barroso e Os Homens de Preto, com a regência do maestro Gil de Roca Sales.

Décadas de história

O Palácio Piratini foi construído por determinação do presidente Júlio de Castilhos para substituir o antigo Palácio de Barro. O primeiro projeto para o novo palácio era de autoria do arquiteto Affonso Hebert, da Secretaria de Obras Públicas, e a pedra fundamental foi lançada em 27 de outubro de 1896. Ainda nos alicerces, as obras foram suspensas. E em 20 de setembro de 1909 uma segunda pedra fundamental foi lançada para o projeto do arquiteto francês Maurice Gras.

Em 17 de maio de 1921, o prédio foi ocupado, mas sem inauguração oficial e em caráter parcial, pois a Ala Residencial e os jardins não estavam prontos. Somente na década de 1970 o Palácio foi dado como concluído.

Em 1955, um decreto do governador Ildo Meneghetti oficializou o nome Palácio Piratini, uma homenagem à primeira capital da República Rio-grandense (1836-1845) durante o episódio da Revolução Farroupilha (1835-1845). A sugestão da denominação ‘Palácio Piratini’ foi feita pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

Os lustres de cristal dos salões são réplicas dos usados no Palácio de Versalhes e as esculturas da fachada principal e posterior da Ala Governamental são de autoria do francês Paul Landowski, criador do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.

Em 1951, o pintor italiano Aldo Locatelli foi contratado para pintar os murais nas paredes e no forro dos salões.

Em 1986, o Palácio Piratini foi tombado pelo Iphae. E, em 2000, integrando o sítio histórico da Praça da Matriz, passou a ter a proteção do Iphan.

Fonte original da notícia: Portal do Governo do Estado do Rio Grande do Sul




Proposta de concessão do Mercado Público de Porto Alegre (RS) prevê estacionamento subterrâneo

A Proposta de Manifestação de Interesse também estabelece que a gestão privada deve preservar as características arquitetônicas.

Tadeu Vilani / Agencia RBS

A prefeitura de Porto Alegre apresentou nesta quinta-feira (17) os pré-requisitos para entidades privadas constituírem modelos de negócio e gestão para o Mercado Público. Nos dois cenários previstos no edital, o gestor poderá administrar o estacionamento em frente ao Mercado Público, aberto pela noite. Também há possibilidade de construção de um estacionamento subterrâneo, sob o edifício tombado ou sob o Largo Glênio Peres.

O edital do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), etapa inicial para futura concessão do espaço à iniciativa privada, lançado nesta quinta (17), também prevê que a futura gestão deverá preservar as características arquitetônicas e culturais e a manutenção dos atuais contratos com os permissionários — até que expirem.

Pelos estudos prévios da prefeitura, também há o entendimento de que o Mercado tem potencial para operar durante a noite, inclusive recebendo eventos culturais e festas.  O secretário de Parcerias Estratégicas, Bruno Vanuzzi, considerou inclusive a possibilidade do local sediar casamentos.

— Temos expectativa de que o Mercado tenha também atividade durante a noite. Hoje, fecha às 19h. Queremos que se prolongue mais — projetou Vanuzzi, destacando, com isso, a necessidade de estacionamentos seguros.

Conforme Vanuzzi, dentro de cem dias a prefeitura terá em mãos as propostas de modelo de gestão. Após escolher uma das propostas, a prefeitura lançará o edital para concessão do Mercado, em um período estimado de mais dois a três meses.

— Este é um prazo indicativo, não atende a uma métrica.  Até porque vai ser um processo com muito debate público. Esse é um tema que não acontece se não estiver todo mundo de acordo. Para um ente privado assumir, levará ao menos um ano — apontou Vanuzzi.

Vanuzzi ressaltou que todos os modelos de entidades privadas, físicas ou jurídicas, podem participar do processo de seleção. Quem vencer essa etapa de modelação do negócio, ou seja, tiver o seu projeto de PMI escolhido, será ressarcido futuramente por quem assumir a concessão do espaço. Para o cenário com um estacionamento, o ressarcimento do projeto será de até R$ 1,7 milhão. Para projetos que contemplem também o estacionamento subterrâneo, o pagamento máximo será de R$ 1,9 milhão.

Os projetos deverão conter estudos operacionais (rotina do Mercado), de arquitetura e engenharia, de gestão financeira e de operação jurídica.

Conforme o secretário, não é possível garantir que os produtos vendidos no Mercado Público, após o local ser concedido à iniciativa privada, seguirão nos atuais patamares. Isso porque, após expirarem os atuais contratos com os permissionários, o gestor privado do Mercado Público poderá optar por reajustar os valores de locação, gerando impactos nos preços dos produtos e nos tipos de comércio existentes.

Atualmente, segundo o secretário do Desenvolvimento Econômico, Leandro Lemos, a arrecadação e os gastos do Mercado se equilibram, mas sem possibilidade de realização de investimentos necessários:

— Os recursos não dão conta nem das necessidades básicas do Mercado hoje.

A proposta de gestão e a futura concessão do espaço não alteram os atuais trabalhos para liberar o segundo piso do Mercado, fechado desde o incêndio que atingiu o prédio histórico em 2013. A Associação do Comércio do Mercado Público Central (Ascomepc), que representa os permissionários, assumiu a responsabilidade pelas obras necessárias para adequar o espaço ao Plano de Proteção contra Incêndio (PPCI) e projeta a reabertura em até um ano e meio. Pelo acordo com a prefeitura, os comerciantes bancarão o plano e as obras em troca de quitar dívidas trabalhistas da época em que eram os administradores do Mercado.

Por Gabriel Jacobsen

Fonte original da notícia: Gaúcha ZH




Em Antônio Prado (RS), preservação dos bens históricos passa pela educação patrimonial

Projetos de conscientização buscam contornar a falta crônica de recursos para a manutenção dos imóveis tombados da cidade mais italiana da Serra.

Pesquisador Fernando Roveda trabalha com kits educativos que são distribuídos para as escolas da rede pública do município. Foto: Lucas Amorelli/Agencia RBS

Ainda falta muito para que o maior patrimônio arquitetônico da imigração italiana no Brasil esteja nas condições em que ele merece. A preservação dos 48 imóveis tombados no Centro Histórico de Antônio Prado depende dos sempre escassos recursos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da boa vontade de seus proprietários, muitos dos quais ainda se ressentem das restrições de uso impostas pelo governo federal na década de 1980.

Mesmo com todas as dificuldades, porém, é possível afirmar que a cidade caminha lentamente para uma conciliação com sua história. Um dos responsáveis diretos por essa mudança de visão é o pradense Fernando Roveda. Em 30 anos de atuação junto ao patrimônio, o Mestre em Turismo e Hospitalidade pela UCS resgatou praticamente sozinho a identidade das casas tombadas.

— Quanto mais tu conhece, mais tu preserva — justifica.

Conheça, a seguir, os caminhos e desafios para a preservação do patrimônio histórico da cidade mais italiana da Serra. Clique na imagem abaixo para ler.

Por Lucas Demeda

Fonte original da notícia: Pioneiro




A pichação arruinou uma das maiores joias da arquitetura de Porto Alegre (RS)

Histórico prédio da Faculdade de Medicina da UFRGS sucumbe a essa covarde praga urbana que alguns ainda enxergam como rebeldia.

José Francisco Alves/Arquivo Pessoal

Como diz meu amigo Caue Fonseca, jornalista aqui da Zero, a pichação é covarde. Ela ataca o imóvel exposto ao público, aquele sem grades, sem vigilante, sem qualquer condição de defesa, mas poupa qualquer mansão milionária com um mastodonte guardando a porta.

A pichação ataca a vendinha da esquina, mas poupa o hipermercado. Ela ataca o coitado que não consegue pagar R$ 400 para pintar a parede de branco, mas poupa quem teria R$ 400 mil para pintar o bairro inteiro.

E há quem considere a pichação rebelde. Transgressora. Uma forma de dar voz a quem vive à margem da sociedade. Que besteira, por favor. A pichação é uma praga urbana que produz barbarismos como este: a completa degradação do antigo prédio da Faculdade de Medicina da UFRGS.

Andréa Graiz/Agencia RBS

A histórica construção, na esquina da Sarmento Leite com a Luiz Englert, hoje abriga o Instituto de Ciências Básicas da Saúde, também da UFRGS, com a fachada quase que em estado de putrefação.

– Não é de hoje que o prédio sofre com vandalismo, mas nunca o vi tão podre. É uma das maiores joias da nossa arquitetura – diz o professor José Francisco Alves, doutor em História da Arte que enviou à coluna a foto no topo desta página. – Fico pensando nos médicos que se formaram ali e pariram esses pichadores.

Andréa Graiz/Agencia RBS

Inaugurada em 1923, a construção em estilo eclético foi projetada por Theo Wiederspahn (1878-1952), um dos mais aclamados arquitetos que já atuaram no Estado. São dele também os projetos do Margs, do Hotel Majestic, do prédio dos Correios e do Edifício Ely – todos símbolos do nosso patrimônio arquitetônico.

Há quem diga que pichação é “arte urbana”, e eu juro que tento entender, mas como pode uma arte destruir outra obra de arte? É o que ocorre na fachada do antigo prédio da Faculdade de Medicina. Uma beleza arruinada.

Por Paulo Germano

Fonte original da notícia: Gaúcha ZH




Porto Alegre (RS) – Museu da Comunicação Hipólito José da Costa reabriu nesta quarta-feira

Exposição sobre cinema inaugura projeto de revitalização do espaço cultural.

Prédio do Centro Histórico de Porto Alegre abriga moviolas, acervo de imagens, projetores e outros equipamentos. Carlos Macedo / Agencia RBS

Localizado no centro de Porto Alegre, ao lado da Praça da Alfândega, o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa fica perto de importantes equipamentos culturais da cidade e possui um dos maiores acervos de periódicos do país. Com infiltrações, problemas na rede elétrica e sem elevador, o museu esteve subutilizado nos últimos anos, sem receber novas exposições. Seu precioso acervo, ameaçado pelas más condições do prédio, foi fechado para pesquisadores entre 2016 e 2017. Desde março do ano passado, as visitas voltaram a ser realizadas, mas com agendamento prévio.

Nesta quarta-feira, no entanto, um novo ciclo do prédio construído em 1922 foi aberto ao público, com a intenção de devolver o espaço aos roteiros culturais de Porto Alegre. Às 18h, foi inaugurada a mostra Do Fotograma ao Cinema.  Contemplada com patrocínio da Caixa, a exposição exibe projetores, moviolas, ilhas de trucagem e outros equipamentos usados na indústria do cinema entre os anos 1950 e 1980. A curadoria é assinada pelo diretor Ivo Czamanski.

– Todo o material passou por restauração. São peças que fizeram a história do cinema, mas até hoje material como esse é usado por quem trabalha com filmes em película – explica Carlinda Fischer Mattos, coordenadora do acervo de cinema.

A mostra fica aberta ao público, de terça a sábado, das 9h às 18h. A área de pesquisa segue funcionando apenas por agendamento, via e-mail museu.hipolito@gmail.com.

– O museu está sendo devolvido ao público em etapas – explica Elizabeth Corbetta, diretora do espaço cultural desde o segundo semestre do ano passado. – O acervo guarda equipamentos históricos impressionantes, que precisam permanecer acessíveis ao público. Estamos readequando os diferentes espaços para que tudo isso possa ser visitado – completa.

Entre os equipamentos citados por Elizabeth, está uma rotativa Vomag de grandes dimensões. Importada da Alemanha, a máquina imprimiu o Diário Oficial do Estado entre as décadas de 1950 e 1970. Em 1978, o periódico passou a ser impresso no parque gráfico da Corag, e a impressora foi incorporada ao museu. Em um corredor que leva os visitantes até a máquina, serão exibidas ampliações de fotos históricas e também haverá shows. Tanto o corredor quanto a sala com a impressora estarão abertos especialmente para a Noite dos Museus, no sábado, dia 19 – para visitar esses espaços fora do evento, ainda é necessário agendar por e-mail.

Com a reabertura, o museu voltará a funcionar com a entrada pela Caldas Junior, 261, onde antes funcionava o Armazém da Corag. O espaço dedicado à literatura também foi readequado com a reforma, feita com recursos da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul.

Por Alexandre Lucchese

Fonte original da notícia: Gaúcha ZH




História e tradição: Patrimônio Cultural de Pelotas (RS) é reconhecido pelo Iphan

O sal e o açúcar, o material e o imaterial, o rural e o urbano. A interligação entre opostos é o fio que escreve as mais variadas histórias. Uma dessas histórias, responsável pela formação da identidade do povo brasileiro, é a da atual cidade de Pelotas (RS), que nasceu no século XVIII, a partir de um pequeno povoado e se desenvolvia em função da produção do charque: pedaços de carne salgada secos ao sol. Foi com a implantação das primeiras charqueadas que a economia regional prosperou, integrando o Rio Grande do Sul ao mercado nacional e dando à cidade de Pelotas o título de uma das mais importantes do interior do país durante o século XIX.

Foi também o charque que possibilitou a chegada ao Sul do país de uma riqueza nacional: o açúcar. Assim, além de ser considerada a cidade do charque, Pelotas recebeu também o título de capital nacional do doce, especialmente em função da produção doceira, oriunda do intercâmbio charque-açúcar. Os navios que levavam o charque para o Nordeste traziam de volta grandes quantidades de açúcar, transformados, no interior dos casarões pelotenses, em doces finos, confeccionados geralmente à base de ovos, conforme a melhor tradição portuguesa.

Este cenário – da cidade dos doces no Estado do churrasco – esteve na pauta do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, na última reunião, que foi realizada no dia 15 de maio, na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília. Pela primeira vez, nesses 80 anos de dedicação à preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro, os conselheiros vão trabalhar, a um só tempo, os dois instrumentos de proteção: o tombamento e o registro. Ou seja, os aspectos arquitetônicos e artísticos que caracterizam o Conjunto Histórico de Pelotas estarão associados ao modo de fazer os doces das Tradições Doceiras da Região de Pelotas e Antiga Pelotas (Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo, Turuçu).

Para a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, essa reunião do Conselho Consultivo já é um reflexo dos debates realizados durante a celebração dos 80 anos do Instituto, em especial o Seminário Internacional O Futuro do Patrimônio, e marca uma nova etapa na gestão do Patrimônio Cultural Brasileiro. “A integração entre o material e o imaterial é imprescindível para se entender a dimensão das nossas tradições, das nossas memórias e da nossa identidade como nação brasileira, que é fruto de uma rica diversidade étnica, cultural e religiosa, que interage e se integra perfeitamente em nossas manifestações, em nosso Patrimônio Cultural. Um não existe sem o outro. Uma cidade, mesmo a mais linda e rica, é vazia sem suas tradições, sem a manifestação de seu povo. E é isso que vamos vivenciar nessa reunião do Conselho Consultivo, quando os conselheiros poderão conhecer como se consolidou o desenvolvimento da cidade de Pelotas, onde sal e doce, material e imaterial, andam lado a lado, juntos, valorizando sua cultura e garantindo seu desenvolvimento econômico”, conclui Kátia Bogéa.

O Conjunto Histórico de Pelotas
Quatro praças, um parque, a Chácara da Baronesa e a Charqueada São João integram o Conjunto Histórico de Pelotas e têm significativo valor histórico, artístico e paisagístico. É essa riqueza cultural que se deseja preservar. Dessa forma, caso aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, o Conjunto Histórico de Pelotas pode ser inscrito em três Livros do Tombo: Livro do Tombo Histórico, Livro do Tombo de Belas Artes e Livro do Tombo Arqueológico, etnográfico e paisagístico.

Uma característica particular do Conjunto Histórico de Pelotas é que, considerando o sistema municipal de patrimônio cultural estabelecido pelo Plano Diretor de Pelotas, será desnecessária a delimitação de poligonal de entorno, uma vez que o bem protegido pelo Iphan está totalmente inserido nas Zonas de Preservação do Patrimônio Cultural, que após análise verificou-se assegurar a preservação da vizinhança e ambiência da coisa tombada, nos termos do Decreto-Lei 25/1937.

As Tradições Doceiras

Pelotas encontra-se no epicentro de uma região doceira que abarca uma multiplicidade de saberes e identidades sob a forma de duas tradições: a de doces finos e a de doces coloniais. O doce desempenha um papel peculiar na composição da sociedade regional, sendo um elemento cultural que amarra a diversidade de grupos étnicos e sociais que a compõe.

Na sua maioria, essas doceiras e doceiros compreendem seu ofício como a continuidade das trajetórias de suas famílias, num templo ampliado. Essa relação está posta, sobretudo, no meio rural, entre os produtores de doces de frutas, que se encontram profundamente ligados à região colonial, como um espaço de vivências, trabalho e afetos. Assim, a possibilidade de registro das Tradições Doceiras de Pelotas e Antiga Pelotas, contemplando o espaço de ocorrência das duas tradições doceiras e os sentidos que a elas são atribuídos, por grupos detentores, se justifica tendo em vista seu valor identitário e a relação demonstrada entre o saber doceiro e o território referido.

Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural
O Conselho que avalia os processos de tombamento e registro é formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, antropologia, arquitetura e urbanismo, sociologia, história e arqueologia. Ao todo, são 22 conselheiros, que representam o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Ministério da Educação, o Ministério do Turismo, o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), o Ministério do Meio Ambiente, Ministérios das Cidades, e mais 13 representantes da sociedade civil, com especial conhecimento nos campos de atuação do Iphan.

Fonte original da notícia: IPHAN




Prédios preservam história de Santa Cruz do Sul (RS)

Atualmente, duas construções históricas da área central da cidade passam por reformas para receber novos negócios.

A vida volta a pulsar nesses espaços, que contam a história do desenvolvimento de Santa Cruz do Sul. Foto: Bruno Pedry

O investimento em prédios históricos conquistou a simpatia de empresários em Santa Cruz do Sul. Cada vez mais eles estão optando pela preservação da arquitetura do século passado ao invés das modernas estruturas de vidro, ferro e concreto contemporâneo para seus empreendimentos. Atualmente, duas construções históricas da área central da cidade passam por reformas para receber novos negócios, juntando-se a outras já restauradas. Santa Cruz tem 61 instalações urbanas protegidas por leis municipais que zelam pela preservação do patrimônio histórico.

A vida volta a pulsar nesses espaços, que contam a história do desenvolvimento de Santa Cruz do Sul, recriando uma época quase esquecida. A paisagem urbana mergulha em um novo tempo, no qual a distância entre o presente e o passado pode ser apenas uma divisa entre os dois terrenos.

Das carroças aos robôs que fotografam de cima

A esquina das ruas Tenente Coronel Brito e Ramiro Barcelos, no Centro, passa por um processo de rejuvenescimento. Equipes de construtores dedicam-se à renovação do prédio do Hotel Santa Cruz. Até junho, a edificação será entregue como um novo cartão-postal da cidade, com traços da época em que passear pelo Centro era tarefa para se fazer de carroça. Hoje, a tecnologia permite que a imagem seja vista do alto, ainda mais imponente.

“Esse prédio sempre me chamou muito a atenção. Era um dos que eu achava mais bonitos quando era criança”, conta o empresário Eduardo Simon. A família dele é a atual proprietária do Hotel Santa Cruz e projeta na edificação um moderno empreendimento para receber hóspedes na terra da Oktoberfest.

Foto: Banco de Imagens Gazeta do Sul

O prédio foi construído em 1927, a fachada da esquina exibe a data de nascimento dele. “Ele é do tempo das carroças”, frisa o empresário. “O desafio para mantê-lo próximo do projeto original foi grande. Ele já havia passado por mudanças estruturais no passado”, diz Simon, informando que a construção não faz parte do inventário de prédios protegidas por lei municipal. Foi preservado pelo carinho que os novos donos têm com a história.

O Hotel Santa Cruz será totalmente modernizado | Foto: Bruno Pedry

Por questões de mercado, ele não revela o valor do investimento, mas confirma que o custo de empreender em um imóvel em restauração não é baixo. A reforma deverá ser concluída em junho. O novo hotel terá elevador, quartos modernos, nova recepção e espaço para até dois outros empreendimentos comerciais no térreo.

Quando duas histórias se misturam em uma só

De acordo com o presidente da Sicredi Vale do Rio Pardo, Heitor Petry, a trajetória de Santa Cruz e da cooperativa se fundem em uma só. Pintado com as cores da Sicredi, o prédio da Rua Ramiro Barcelos, vizinho ao Hotel Santa Cruz, é o berço do cooperativismo de crédito no País. “Ele é o elo entre a nossa história, a história de Santa Cruz e representa um marco do desenvolvimento do município”, acredita Petry.

Atualmente, o prédio histórico, protegido parcialmente pela Lei do Patrimônio Histórico, é o único próprio da Sicredi. As unidades de atendimento da região e a central administrativa funcionam em imóveis alugados. O valor do prédio torna-se maior do que patrimonial. Faz parte de uma memória afetiva e, por isso, custa caro. “Acima da importância legal de preservar, está o nosso desejo de preservar”, complementa.

Construção data de 1925 | Foto: Banco de Imagens Gazeta do Sul

Conforme o arquiteto Cristiano Vilanova Horn, responsável pela restauração do prédio da Sicredi, a edificação é um misto de estilos. Concentra elementos da arquitetura neoclássica, trazida da Europa para o Brasil no início do século passado. A construção desse prédio foi concluída em 1925.

Prédio da Sicredi é o único próprio da cooperativa | Foto: Bruno Pedry

Segundo ele, qualquer tipo de intervenção em uma construção com traços desta época precisa ser muito bem executada. “A pintura segue o manual de comunicação da Sicredi. Nela, precisamos manter as características originais da edificação, ajustando ao novo padrão de cores da cooperativa”, explica o arquiteto.

Uma construção com “padrão catedral” de qualidade

A sede da esquecida Padaria Müller, dos anos de 1930, localizada na Rua Marechal Floriano, tem motivos de sobra para estar na lista de bens protegidos. Em reforma para receber a loja da rede Americanas, o prédio quase foi demolido, pois na classificação de preservação dele não há impedimento legal para que seja colocado abaixo.

Foto: Banco de Imagens Gazeta do Sul

A diretora do Centro de Pesquisa e Qualidade Urbana e Rural (Cipur), departamento vinculado à Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão, Patrícia Assmann, conta que havia um pedido para demolição que foi negado pelo município. “Este prédio foi projetado pelo mesmo arquiteto responsável pelo projeto da Catedral São João Batista, o alemão Simão Gramlich. O imóvel faz parte do legado dele em Santa Cruz”, justifica. O atual proprietário não dá entrevistas, assim como também não revela o valor do investimento na recuperação do prédio.

Tradição preservada até por quem vem de fora

A antiga sede do Esporte Clube União Corinthians, na Rua Marechal Floriano, sobreviveu ao tempo e renasceu restaurada a partir do investimento privado. Sem meios financeiros para ajustar o prédio às necessidades de segurança, a direção do clube tomou uma decisão: alugar o espaço para um investidor que pudesse conservar a história e manter viva a edificação, protegida de maneira parcial pela lei do Patrimônio Histórico.

Prédio do Clube União é um dos mais tradicionais do município | Foto: Banco de Imagens Gazeta do Sul

Segundo o presidente do clube, Marco Jardim, foram investidos cerca de R$ 5 milhões para a recuperação da antiga sede, ocupada agora pela unidade a rede Lojas Renner. “Isso é quase o preço da construção de um prédio novo. Toda a história do clube está lá dentro.”

Hoje, prédio abriga loja de roupas | Foto: Bruno Pedry

Jardim conta que a construção do prédio começou em 1923, com o lançamento da pedra fundamental. Uma década depois, o quarto clube mais antigo em atividade no Rio Grande do Sul ocupou o espaço, transformado em loja de departamentos em 2017. O investimento deu uma sobrevida ao imóvel, agregando ainda mais valor ao local. “O contrato de aluguel foi firmado por dez anos inicialmente. Esse prédio é um dos símbolos de Santa Cruz, por isso necessita estar em atividade.”

Capital intangível para a economia santa-cruzense

No dicionário, as definições de intangível atribuem a essa palavra as características de algo que não pode ser tocado, compreendido e também impossível de ser materializado.

O valor de prédios históricos pode ser considerado como um capital intangível na economia de um município. Para o arquiteto santa-cruzense Ronaldo Wink, especialista no assunto, a integração desses espaços históricos à modernidade do urbanismo é o charme da maioria dos países da Europa. “Prédios com 500, 600 anos fazem parte dos centros das grandes cidades e não impedem o progresso”, reforça.

Segundo a arquiteta Patrícia Assmann, da Prefeitura, o investimento na recuperação de espaços históricos está muito acima do valor imobiliário. Agrega preço, sentimento e indenidade à atividade-fim para a qual o prédio será utilizado.

“É preciso que se quebre este preconceito que existe com relação aos prédios históricos. Eles fazem parte do acervo cultural do município”, explica Patrícia. Segundo ela, para incentivar o investimento em edifícios históricos, o município conta com duas leis que regulamentam a preservação do patrimônio. A primeira – lei 7.382, editada em 2015 –, cria uma espécie de inventário no qual está classificado, em três tipos de preservação, o patrimônio histórico de Santa Cruz. São 61 imóveis, entre prédios comerciais e residências.

A segunda – lei 7.497, de 2016 – institui a redução do custo do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) a prédios históricos que são restaurados e colocados em uso por seus proprietários ou investidores. O cálculo da redução no IPTU leva em consideração o valor e o tamanho da intervenção na restauração.

Veja outras fachadas preservadas:

Fotos: Bruno Pedry

Patrimônio cultural

O processo para recuperação de um dos 61 prédios listados no inventário do patrimônio obedece a processos instituídos pelas leis de preservação do patrimônio histórico.

Há três classes de patrimônio – A, B e C – e estas imprimem critérios diferentes. A categoria “A” é a mais rígida. São 16 prédios listados nessa classe e, para realizar intervenções, os investidores precisam modificar o mínimo possível. O status de preservação é integral. A classe “B” é intermediária, tem 18 edificações listadas e nelas a preservação é parcial.

A classificação “C” está mais relacionada com casas familiares ou prédios muito modificados ao longo dos anos. A restauração é a mais flexível; a classe deles é “imóveis protegidos”. Todos os projetos de intervenção nos imóveis do inventário são submetidos a duas análises. A primeira é feita no Cipur. Depois passa pelo crivo dos conselheiros do Conselho Municipal de Planejamento Urbano (Compur), também vinculado à pasta do Planejamento, Orçamento e Gestão.

O patrimônio histórico santa-cruzense

Imóveis de Preservação Integral (Classe A)

Prédio do Bispado, na Rua Marechal Deodoro, 572 e 582;
Capela do Hospital Santa Cruz, na Rua Fernando Abott, 174;
Igreja Evangélica, na Rua Venâncio Aires esquina Rua Sete Setembro;
Catedral São João Batista, na Rua Ramiro Barcelos;
Prédio da Prefeitura Municipal, na Praça da Bandeira;
Loja Lessing, na Rua Tente Cel. Brito, 277;
Colégio Distrital, na Rua Tenente Cel Brito, 333;
Estação Ferroviária, na Rua Ernesto Alves, s/n;
Banco Pelotense, na Rua Marechal Floriano, 651;
Caixa Cooperativa Mercantil Santacruzense, na Rua Borges de Medeiros, 622;
Residência Textor, na Rua Rio Branco, 864;
Comércio Residência Frantz 1886, na Rua Marechal Floriano, 987;
Comércio Residência Frantz 1914, na Rua Marechal Floriano, 829, 835, 843;
Monumento a Independência, na Praça da Bandeira;
Monumento ao Imigrante, na Rua Marechal Floriano esquina Rua Galvão Costa;
Igreja Evangélica de Rio Pardinho (Igreja dos Imigrantes).

Imóveis de Preservação Parcial (Classe B)

Banco da Província, na Rua Tenente Coronel Brito, 631;
Sociedade Aliança Santa Cruz, na Rua Marechal Floriano, 898;
Antigo Presidio, na Rua Tiradentes, 15;
Sociedade Ginástica Santa Cruz, na Rua Vinte e Oito de Setembro, 227;
Colégio Mauá, na Rua Borges de Medeiros, 399;
Caixa Rural União Popular (atual Sicredi), na Rua Ramiro Barcelos, 1086;
Clube União, na Rua Marechal Floriano, 445;
Colégio São Luís, na Rua Marechal Floriano, 705, 713, 719, 729 e 733;
Hotel do Comércio, na Rua Marechal Floriano, 312;
Praça da Bandeira, no quarteirão formado pelas Ruas Marechal Floriano, Borges de Medeiros, Tenente-coronel Brito e Sete de Setembro;
Praça Getúlio Vargas, no quarteirão formado pelas Ruas Marechal Floriano, Ramiro Barcelos, Marechal Deodoro e Júlio de Castilhos;
Pórtico de entrada e pavilhão de exposições (pavilhão central) do parque da antiga FENAF (Oktoberfest), na Rua Galvão Costa;
Expresso Gaúcho, na Rua Gaspar Silveira Martins, 1589;
Colégio Sagrado Coração de Jesus, na Rua Ramiro Barcelos, 892; e
Companhia Riograndense de Saneamento, na Rua Tenente Coronel Brito, 221;
Escola de Rio Pardinho;
Cemitério Evangélico de Rio Pardinho;
Cooperativa Agrícola Linha Santa Cruz, na Avenida Orlando Oscar Baumhardt nº 1432, em Linha Santa Cruz.

Imóveis Protegidos (Classe C)

Agência de Correios e Telégrafos, na Rua Venâncio Aires, 683;
Torres & Cia., na Rua Ramiro Barcelos, 1399, 1401, 1403 e 1421;
Quiosque da Praça, na Praça Getúlio Vargas;
Residência Jost, na Rua Júlio de Castilhos, 534
Residência Konrad, na Rua Tenente Coronel Brito, 141;
Residência Meurer, na Rua Ernesto Alves, 714;
Residência Jacobs, na Rua Venâncio Aires, 621 e 623;
Residência Schimidt, na Rua Marechal Deodoro, 280;
Residência Becker, na Rua Tenente Coronel Brito, 425;
Residência Frantz, na Rua Ramiro Barcelos, 1188 e 1198;
Residência Henning, na Rua Tenente Coronel Brito, 764, 768 e 772 e Ramiro Barcelos, 1133;
Residência Fröehlich, na Rua Fernando Abott, 322;
Residência Schütz, na Rua Galvão Costa, 85;
Residência Kessler, na Rua Galvão Costa, 347;
Residência Kämpf, na Rua Borges de Medeiros, 299;
Residência Heinz, na Rua Júlio de Castilhos, 520;
Residência Melchior, na Rua Sete de Setembro, 385;
Máquinas Schreiner, na Rua Borges de Medeiros, 721 e 733;
Máquinas Binz, na Rua Tenente Coronel Brito, 479;
Padaria e Residência Müller, na Rua Marechal Floriano, 895;
Farmácia Muller, Rua Marechal Floriano, 567 e 571;
Comércio e Residência Eifler, na Rua Marechal Floriano, 590, 592, 594 e 600.
Comércio Residência Dlilem, na Rua Galvão Costa, 323.

Por Rodrigo Nascimento

Fonte original da notícia: GAZ




Tradição doceira e arquitetura de Pelotas (RS) são patrimônio nacional? Iphan vai decidir em maio

Caso se confirme, será a primeira vez na história que o instituto faz a distinção, de forma simultânea e no mesmo lugar, de um patrimônio material e outro imaterial.

Mercado Público de Pelotas. Isadora Neumann/Agencia RBS

Em menos de um mês, a cidade de Pelotas, no sul do Estado, poderá ser alvo de um ato de preservação inédito no Brasil. Em 15 de maio, o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidirá se o conjunto histórico do município e o modo de fazer doces da região vão se tornar patrimônio nacional ao mesmo tempo. Caso se confirme, será a primeira vez na história do Iphan que será realizado de forma simultânea, em um mesmo lugar, o reconhecimento de um patrimônio material (o conjunto arquitetônico) e o registro de um patrimônio imaterial (a tradição doceira).

— O Iphan, há algum tempo, tem estimulado que os processos sejam pensados não como material e imaterial, mas no sentido de patrimônio cultural. Em Pelotas, optamos por fazer um estudo geral porque se percebeu a importância do ciclo do charque, que permitiu a chegada do açúcar e fez com que a cidade desenvolvesse uma cultura própria. Não tinha sentido tratar de forma isolada — explicou Andrey Rosenthal Schlee, diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan.

A análise conjunta parte do princípio de que a produção de charque, principal atividade econômica de Pelotas entre o final do século 18 e o começo do século 20, teve influência direta sobre o desenvolvimento da tradição doceira na região. Isso porque, a venda de carne para o Nordeste permitia o acesso ao açúcar produzido nesses Estados, que era trazido pelos mesmos navios.

A concepção do parecer que será avaliado pelos conselheiros — 23 pessoas, entre representantes de instituições públicas, privadas e da sociedade civil — teve origem em quatro processos isolados em que cidadãos pelotenses que pediam o tombamento de diferentes partes da cidade e em um inventário sobre a tradição doceira elaborado entre 2006 e 2008. Natural de Pelotas, o atual diretor do Iphan esteve diretamente envolvido: antes de trabalhar no órgão — quando assumiu como professor de arquitetura da Universidade de Brasília, em 2002 —, ele solicitou o reconhecimento do centro histórico da cidade como patrimônio nacional.

O documento elaborado pelo Iphan demandou um estudo que envolveu pelo menos três superintendentes no Rio Grande do Sul e diversos técnicos do órgão que vieram de Brasília para avaliar os prédios históricos e conhecer o processo de fabricação de doces. A proposta prevê o tombamento do que foram definidos como sete setores: as praças Cipriano Rodrigues Barcelos, Coronel Pedro Osório, José Bonifácio e Piratinino de Almeida, o Parque Dom Antônio Zattera, a Charqueada São João e a Chácara da Baronesa. Ela descreve as características arquitetônicas de cada um dos lugares e estabelece diretrizes para a preservação desses locais e de prédios importantes do entorno, como o Mercado Público Central, a Catedral São Francisco de Paula e o Teatro Sete de Abril, entre dezenas de outros _ alguns deles já tombados ou inventariados em outras esferas. A partir de um eventual tombamento nacional, os locais passarão a ter a gestão compartilhada entre o poder público municipal e o governo federal.

Já o registro da tradição doceira como patrimônio imaterial abarca, além de Pelotas, municípios próximos — a chamada “Antiga Pelotas”, que envolve  Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo, São Lourenço e Turuçu . O reconhecimento prevê um plano de salvaguarda do modo de produzir doces na região, com ações que visam à manutenção da preservação e transmissão de conhecimento de uma geração a outra. Será contemplada tanto a produção dos chamados doces finos, que fizeram a fama da cidade e estão ligados à área urbana e à tradição europeia, quanto os doces coloniais, desenvolvidos principalmente zona rural e vinculados à história dos imigrantes europeus e dos negros trazidos como escravos à época do ciclo do charque. Caso ocorra, este será o segundo bem imaterial do Rio Grande do Sul reconhecido pelo Iphan: o único até hoje foi a Tava, lugar de referência para os Guarani-Mbyá, registrado no Livro dos Lugares — a tradição doceira deverá entrar no chamado Livro dos Saberes.

“Espero que seja um começo”, diz arquiteta que pediu tombamento de sítio charqueador

A reunião que decidirá pelo reconhecimento ou não do patrimônio cultural pelotense em nível federal é um desdobramento de uma série de ações pontuais realizadas ao longo das últimas décadas para preservar a memória de uma das mais importantes cidades do Estado.

O primeiro tombamento realizado pelo Iphan foi em 1955: o obelisco construído em homenagem a Domingos José de Almeida, por sua participação na Revolução Farroupilha. Em nível municipal, um dos primeiros marcos em termos de volume foi um inventário da década de 1980 que previu a proteção de mais de 1 mil imóveis. Atualmente, Pelotas possui um dos maiores acervos de estilo eclético do Brasil, com cerca de 1,3 mil prédios inventariados.

A elite intelectual da cidade esteve entre os principais defensores do patrimônio, principalmente, através de estudos da Universidade Federal de Pelotas, cuja Faculdade de Arquitetura elaborou o inventário municipal e outros cursos, através do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, elaboraram pesquisas que destacam o valor cultural e relevância histórica de diferentes aspectos do município.

Professora aposentada da UFpel, a arquiteta Ester Gutierrez dedica-se, desde a década de 1990, ao estudo das charqueadas na cidade. Depois de contribuir com um projeto da prefeitura para delimitar áreas de interesse cultural em Pelotas, ela foi, cerca de uma década atrás, a primeira cidadã a pedir o tombamento do chamado sítio charqueador, região às margens do Arroio Pelotas onde se estabeleceram dezenas de fábricas de charque. Em maio, poderá ter parte de seu pedido deferido: a Charqueada São joão, uma das mais antigas da cidade, está entre os setores que podem virar patrimônio nacional.

—  Acho que é louvável, mas é uma coisa pontual. Espero que seja o começo de um processo de reconhecimento que permita ações de conservação mais amplas — avaliou a professora aposentada.

Por Bruna Vargas

Fonte original da notícia: Gaúcha ZH




Anos de indefinição deixam lanifício histórico de Caxias (RS) em ruínas

Impasse entre prefeitura e proprietários se arrasta e impede preservação de imóvel tombado.

Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

A Residência Finco, casarão centenário na Avenida Júlio de Castilhos, é um exemplo típico, porém não único, da situação em que o tombamento — que ajuda a salvar a estrutura da demolição — também pode condená-la a um lento e permanente processo de deterioração. O antigo Lanifício Gianella, no bairro Santa Catarina, é outro imóvel histórico que corre sérios riscos, mesmo tendo sido tombado em 2003.

A área do complexo margeia o Arroio Tega e é acessada pela Rua Professor Marcos Martini, ao lado da Matteo Gianella. Além do pavilhão do antigo lanifício, erguido em 1915, observa-se ali a antiga casa da família e o escritório da indústria, que não faz parte da área preservada.

O prédio do lanifício conserva seus tijolos aparentes e a forma que o torna parte do legado industrial da cidade, mas as janelas quebradas e estruturas deterioradas escancaram o descaso atual. Nos últimos anos, uma fábrica de gesso ocupava o térreo do imóvel, mas, conforme inquilinos que vivem na casa da família, já não é seguro acessar o segundo piso do pavilhão.

Como no caso da Residência Finco, novamente a legislação que protege o patrimônio se mostra insuficiente para manter o prédio histórico em boas condições diante de um impasse entre os proprietários e a prefeitura de Caxias.

— A casa foi alugada só para não ficar vazia e ter risco de invasão. Mas não se fez nenhuma conservação, porque ninguém tem dinheiro. Na verdade, nós queremos vender. Foi o consenso de todos. Em 15 anos, a gente não conseguiu nenhum investidor — lamenta Liana Valduga, 68, uma das donas do lanifício.

Ana Thomaz, 67, outra herdeira do local, culpa a prefeitura pelo estado atual do imóvel e explica que os proprietários nunca usaram os índices construtivos (contrapartida pelo tombamento) para restaurar a construção porque pensam em oferecê-los como atrativo em uma possível venda.

— Nós já tivemos várias pessoas interessadas. Mas íamos lá na prefeitura, em função do tombamento, e sempre acabaram com o nosso negócio —denuncia.

Liana lembra que, há quatro anos, um potencial comprador teve o projeto de restauro da área aprovado pela Divisão de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural  (Dippahc) e pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente. A ideia era constituir um complexo para eventos que respeitaria as restrições legais do entorno e se integraria, inclusive, ao Arroio Tega. A iniciativa, porém, teria sido barrada pela Secretaria de Trânsito.

— Nos disseram que a prefeitura tinha interesse na área para fazer uma elevada e uma estação de transbordo. Quando? Em 20 anos, talvez, mas tinha que reservar a área. Aí, esse investidor caiu fora e a gente voltou a ficar assim, esperando — reclama Liana.

Desde então, os proprietários receberam uma notificação dizendo que a área foi declarada de utilidade publica, mas nunca receberam contrapartida pelo terreno.

Negociações não avançam

Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Heloise Salvador, coordenadora da Dippahc, confirma os planos do município, mas diz que a negociação ainda está em andamento, a cargo da Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan).

— O processo está lá ainda. É uma coisa bem antiga, parece que seria feita a permuta com outras áreas, mas são muitos proprietários e, entre si, eles não conseguiam se entender — aponta.

O titular da Seplan, Fernando Mondadori, respondeu nesta segunda-feira (9) ao pedido de informação sobre o mesmo tema protocolado pela Comissão de Desenvolvimento Urbano, Transporte e Habitação da Câmara de Caxias no dia 1º de março. A resposta diz que a administração atual “não desenvolve nenhuma atividade na edificação”, “não há atividades de planejamento relacionadas à restauração” e nem “plano de recuperação e utilização da área”, já que trata-se de imóvel privado.

Ao mesmo tempo, dois decretos assinados pelo ex-prefeito Alceu Barbosa Velho (PDT), um de 28 de dezembro de 2015 e outro de 4 de março de 2016, declaram a área de utilidade pública para desapropriação com urgência para “implemento de aparelho viário no entroncamento da Av. Rubem Bento Alves e Rua Professor Marcos Martini”.

Conforme Liana, fazem 15 anos que a família Gianella tem que lidar com as consequências da indefinição do município.

— É por isso está lá daquele jeito. A coisa não anda e a gente não pode fazer nada, porque é da família mas na verdade não é — reclama.

A proprietária Ana Thomaz reconhece que é difícil para a prefeitura assumir uma área de quase dez mil metros quadrados, mas acredita que falta boa vontade para alcançar um desfecho.

— A gente tem interesse na história, mas se tivesse vendido para alguém que fizesse alguma coisa bonita, para a comunidade, já estava tudo resolvido. Eu acho que a prefeitura tinha que fazer um pouco mais. Porque no nosso caso o prédio está caindo, vai cair. Eles só nos atrapalharam até hoje, e quantas administrações já passaram? — questiona.

Na última quinta-feira (5), as duas proprietárias tiveram nova reunião com a Seplan. Elas esperam que a nova aproximação favoreça um desfecho rápido para a área.

— Hoje, já são 10 herdeiros, antes eram quatro. As pessoas vão morrendo e é cada vez mais difícil fazer um acerto. Nós só queremos resolver, tudo tem solução — aponta Liana.

No entanto, o respeito às estruturas é uma condição não negociável para a família.

— Se eles (a prefeitura) têm interesse de fazer algo, eu assino embaixo. Mas para fazer viaduto, estação de transbordo, não. Foi tombado para quê? Aí acaba com a área — avisa Ana.

Um pouco de história

:: O lanifício foi construído pelo italiano Matteo Carlo Gianella, em 1915. Na época, funcionava como fábrica de ração, tecelagem e confecção. A produção era centrada em feltros e bacheiros utilizados nas montarias.

:: Com o falecimento de Matteo, em 1942, o negócio passou a ser conduzido pela viúva e pelos filhos Remo e Doviglio Gianella. Doviglio atuou por décadas junto ao lanifício. As indústrias Gianella encerraram suas atividades no final da década de 1980.

:: As edificações de tijolos artesanais do Lanifício Gianella têm influência da arquitetura industrial inglesa e foram tombadas em 2003.

:: Também integra o conjunto tombado a antiga moradia da família.

Para prefeitura, estrutura de proteção é adequada

Apesar de problemas pontuais, para a prefeitura de Caxias, a legislação em vigor dá conta de proteger o patrimônio histórico da cidade, conforme Heloise Salvador, coordenadora da Divisão de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural (Dippahc). Ela cita que, dos 50 imóveis tombados atualmente, poucos apresentam problemas graves.

— É claro que eles não estão perfeitamente preservados, mas, dentro do possível, acredito que não tivemos mais queixas. Mas é lógico, também, que não é o ideal — reconhece.

Heloise acredita, inclusive, que o município vai mais longe que outras cidades no esforço para a preservação, devido ao incentivo que fornece aos proprietários.

— Caxias é uma das únicas cidades que tem a doação dos índices (construtivos). A maioria das cidades simplesmente tomba e pronto. Dá para ver em Porto Alegre, o estado em que estão os bens tombados — compara.

Ela diz que a medida tem dado certo e está, inclusive, sendo estudada por outros municípios. Ao mesmo tempo, acredita que a lei sozinha nunca vai conseguir abranger todos os casos.

— O proprietário nunca vai achar suficiente, a não ser que tenha um amor pela  história, uma dedicação ao patrimônio muito grande. O ideal é que todos esses proprietários tivessem condições financeiras para manter os imóveis. Infelizmente, não é bem assim — lamenta.

Por Lucas Demeda

Fonte original da notícia:




Projeto valoriza patrimônio histórico de Santa Rosa (RS)

Comissão de Terras, no centro de Santa Rosa, recebeu a identificação | Foto: Felipe Dorneles / Especial / CP

Cinco prédios considerados patrimônio histórico e cultural de Santa Rosa receberam identificação digital. Essa é a última etapa do projeto Pontos de História, que desenvolveu documentários sobre cada um dos locais e disponibilizou na Internet. A Estação Férrea de Cruzeiro, Colégio Santa Rosa de Lima, Prefeitura Antiga – Centro Cultural, Estação Férrea de Santa Rosa e Comissão de Terras foram eleitos pela comunidade em votação on-line.

Além da identificação, um Código QR permite que o visitante acesse por celular um documentário. O vídeo da Comissão de Terras, por exemplo, revela que este foi um dos primeiros prédios da cidade e onde os imigrantes buscavam oportunidades. Hoje, abriga escritórios da Secretaria Estadual da Agricultura.

A equipe também está à disposição de escolas para falar sobre patrimônio histórico e o documentário. Várias palestras já foram realizadas. “Esse será o grande ganho do projeto, fazer com que a população se aproprie dessas histórias e sinta-se pertencente ao legado construído ao longo dos anos”, destaca o jornalista Anderson Farias, proponente e coordenador-geral do Pontos de História. Ele diz que a população tem recebido bem a ideia. O projeto é custeado pelo Fundo Municipal de Cultura.

Por Felipe Dorneles

Fonte original da notícia: Correio do Povo