Corpo de Salvador Dalí será exumado nesta quinta em processo de paternidade

Operação começará às 20h, após fechamento do museu onde está enterrado o artista. Mulher espanhola luta na Justiça para ser reconhecida como filha do pintor.

O pintor surrealista Salvador Dalí. Foto: Roger Higgins/United States Library of Congress’s Prints and Photographs division

A exumação do corpo de Salvador Dalí para extrair amostras de DNA em um processo de paternidade apresentado por uma moradora de Figueras, no nordeste da Espanha, será realizada nesta quinta-feira (20). A operação acontecerá após o fechamento do Teatro-Museu Dalí ao público, onde está enterrado o artista.

A informação foi confirmada hoje, quarta (19) pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha. A corte detalhou que a Fundação Museu Dalí solicitou a um juizado de primeira instância de Madri, encarregado de tramitar o processo, que modificasse o horário das diligências para não prejudicar as atividades do espaço.

O juizado de Madri admitiu a petição e a transferiu ao juizado de Figueras, que fará as diligências para que se inicie a exumação a partir das 20h (horário local, 15h de Brasília), após ser finalizada a abertura ao público do museu.

Fontes jurídicas afirmaram à gência Efe que foram apresentados dois recursos à petição judicial da coleta de amostras do corpo de Daí, um da Advocacia do Estado e outro da fundação. Eles serão analisados posteriormente, uma vez que nesse tipo de caso essas demandas não paralisam as exumações.

A Fundação Gala-Dalí, que desconhece a duração da intervenção, anunciou em um comunicado que os jornalistas terão vetado o acesso ao interior do museu e tampouco poderão fazer imagens. A diretora do local, junto com diretores da Fundação Gala-Dalí, darão uma entrevista na primeira hora da manhã da próxima sexta (21) para expor seu ponto de vista sobre o caso.

Teste de paternidade

Uma juíza de Madrid ordenou, no fim de junho, a exumação do corpo de Dalí, morto em 1989, para um teste de paternidade. De acordo com o jornal “El País”, Maria Pilar Abel Martinez, que nasceu na cidade de Girona em 1956, entrou com uma ação para ser reconhecida como filha do artista.

Segundo a decisão da Justiça, estudos do DNA do cadáver do pintor são necessários, já que não há outros restos biológicos ou pessoais adequados para o teste.

Maria Pilar luta para ser reconhecida como filha de Dalí desde 2007. Sua mãe, que era de Pineda de Mar (província de Barcelona), lhe contou ter mantido uma relação clandestina com o pintor em Portlligat, onde trabalhava como empregada de uma família que passou uma temporada no local.

Por Agência EFE

Fonte original da notícia: G1




Salvador (BA) – Museu da Ordem Terceira de São Francisco tem queda no número de visitantes e desvalorização

A cobrança de ingressos, no valor de R$ 5, é uma das fontes de receita da Ordem.

Foto: Marina Silva/Correio

A recepcionista do Museu da Ordem Terceira de São Francisco, Marilice da Silva Natividade, conta que, nos últimos anos, o número de visitantes vem caindo gradativamente – até junho, 22 mil pessoas visitaram o espaço, segundo o diretor executivo da Ordem, Jaymme Baleeiro Neto. “O fluxo baixou muito. Estamos vivendo um verdadeiro luto do turismo”, afirmou Marilice.

Segundo a recepcionista, alguns fatores podem ter contribuído para essa queda de visitantes, entre eles as facilidades da internet e o estado de conservação do acervo artístico. “As pessoas vêm para cá para ver os azulejos. Como eles estão danificados, elas terminam vendo em sites, o que é uma pena”, lamenta ela.

Outro ponto abordado por Marilice é a interdição do Centro de Convenções. Segundo ela, quando o espaço estava em funcionamento, o passeio pelo Centro Histórico estava sempre na rota das pessoas que participavam dos inúmeros congressos que aconteciam na cidade. “Hoje, ficamos muito dependentes da alta estação, quando a cidade está cheia por conta das festas.”

A cobrança de ingressos, no valor de R$ 5, é uma das fontes de receita da Ordem, que conta ainda com a cobrança de aluguéis de alguns imóveis, mas a inadimplência e a desvalorização estão prejudicando a cobrança dos aluguéis, segundo o diretor. Hoje, a Ordem conta com nove funcionários e câmeras de segurança.

O espaço fica aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h45 e das 13h às 16h30; aos sábados, domingos e feriados funciona sem interrupção.

Por Saulo Miguez e Hilza Cordeiro

Fonte original da notícia: Correio – Bahia




Azulejos históricos se esfarelam em Salvador (BA) e igreja pede ajuda

Fotos: Raul Spinassé – Folhapress

O Arco do Triunfo da rua Augusta, que ergue-se imponente no centro de Lisboa, é um marco da grandiosidade de Portugal no século 18.

Assim como ele, havia outros 11 arcos semelhantes na capital portuguesa. Todos viraram história: foram destruídos por um terremoto que devastou Lisboa em 1755.

Essa Lisboa pré-terremoto, conhecida por poucos, pode ser vista no conjunto de painéis de azulejos portugueses do século 18 que ornam a igreja da Ordem Terceira de São Francisco, no Centro Histórico de Salvador. Mas esse pedaço da história, mais uma vez, começa a virar pó.

As peças, que somam 85 m² de pinturas, estão esfarelando. Sem receber manutenção há mais de 15 anos, os azulejos estão descascados em diversos pontos por ação do sol, do salitre e de infiltrações nas paredes.

Responsável pela administração e conservação da igreja, tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 1939, a Ordem Terceira de São Francisco afirma não possuir recursos para o restauro. “É um tesouro secular que está se perdendo. Precisamos de ajuda”, afirma Jayme Baleeiro Neto, diretor executivo da Ordem.

Ele diz que entrou em contato com o Iphan em 2015 para alertar sobre a situação, mas não obteve resposta. O órgão federal informa que nenhum pleito para recuperação foi feito. A igreja da Ordem Terceira também não consta em nenhum dos programas tocados pelo Iphan, como o PAC Cidades Históricas.

Trazidos de Lisboa, os painéis retratam, como em capítulos, a passagem pelas ruas da capital portuguesa em 1729 do cortejo do casamento de dom José 1º, futuro rei, com Mariana Vitória de Bourbon e Farnésio, selando uma aliança entre Portugal e Espanha.

Os azulejos chegaram a ser recuperados entre 1998 e 2000, com o apoio da Fundação Ricardo do Espírito Santo, de Portugal. As peças, contudo, voltaram a se desgastar, pois não foi feita a impermeabilização das paredes.

Tesouros escondidos

Inaugurada em 1703, a igreja da Terceira Ordem de São Francisco é uma das mais importantes do conjunto arquitetônico do Centro Histórico de Salvador, considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

Foi erguida pelos franciscanos no Terreiro de Jesus, coração do Pelourinho. Junto com o Convento da Ordem Terceira de São Francisco, que fica ao lado, forma um dos conjuntos monumentais mais importantes do país.

Além das peças da igreja e do convento, outros prédios da Ordem precisam de reparos. O Lar Franciscano está com a fachada desgastada e carece de um novo telhado.

Com 382 anos de história e atualmente formada por cerca de 90 fiéis leigos franciscanos, a Ordem Terceira sobrevive do aluguel de 140 imóveis que possui em Salvador, da administração de um cemitério e do ingresso de R$ 5 que cobra para visitação da igreja e do museu anexo.

Com o dinheiro, paga os salários de 80 funcionários que emprega entre igreja, cemitério e o Lar Franciscano, que dá assistência a 90 idosos.

A prioridade da Ordem, contudo, é recuperar a igreja de São Francisco, sua joia da coroa. Além dos seus painéis em azulejo, o templo possui importância histórica e arquitetônica por sua fachada barroca com peças em alto-relevo que remetem ao estilo arquitetônico plateresco do renascentismo espanhol.

O prédio abriga ainda outras preciosidades, como uma pia usada pelos padres que foi trazida de Macau, então colônia portuguesa, em 1720. A peça, que quebrou durante a viagem de navio e levou dois anos para ser remontada na capital baiana, é decorada com temas da cultura chinesa, como dragões.

A igreja também possui um órgão de tubos de 1830 que está quebrado desde 1936. De acordo com um especialista, 350 peças precisam ser trocadas para que o órgão volte a funcionar. E o mais desolador: em 2017, não há franciscano da Ordem Terceira que se arrisque a tocá-lo.

Por João Pedro Pitombo

Fonte original da notícia: Folha de S. Paulo




Salvador (BA) – A cidade no centro

A paisagem do centro histórico denuncia a precária estrutura dos casarões coloniais. Bruno Aziz

No último final de semana de maio, Antônio Conceição pôs em uma sacola seus pertences e deixou para trás o prédio em que morava e onde mantinha uma bombonière. Quando chegou ali, em 2007, o sobrado desocupado de três andares já ostentava  rachaduras. Nada comparado a uma marca recente, a fenda lateral que acendeu o alerta em Conceição. “Melhor passar um aperto do que morrer”, diz o comerciante, que, guiado pelo conselho de amigos, mudou-se para um pensionato ao lado. Abandonou o prédio abandonado: número 25, Rua Conceição da Praia, outrora sede de bancos e hotéis.

Uma linhagem de renúncias e desamparos marca a história do Centro Antigo de Salvador, região que engloba 12 bairros (incluindo o Pelourinho) e conta com, aproximadamente, 80 mil habitantes, uma população cerca de 40% menor do que a que havia em 1970. A dinâmica da cidade, que levou o centro financeiro para outras regiões, a ausência de políticas integradas de conservação do patrimônio arquitetônico e proprietários e herdeiros que somem na burocracia de inventários desenham o lugar.

Mas o Centro Antigo da cidade está longe de ser ermo. Nas encostas do Pilar, Taboão, Lapinha e Santo Antônio, novos cortiços vêm surgindo, seguidos pela ocupação de imóveis ociosos e em ruínas. No Comércio, próximo ao Elevador Lacerda, inquilinos pagam R$ 250 de aluguel a “proprietários de palavra”, como são chamados os homens e mulheres que se apossam dos restos das construções. Uma pequena babel marca o nascedouro do Brasil.

“Talvez seja o caso de chamarmos de jabuticaba; algo bem brasileiro”, diz a urbanista e historiadora Isabel Álvares, que, entre 2012 e 2014, se debruçou sobre a região para construir sua tese de doutorado. No texto, de quase 200 páginas, está o que Álvares e muito de seus pares acreditam ser a dificuldade para resgatar o centro das cidades brasileiras da degradação. “Não há regras claras, e o poder público ‘bate cabeça’. É como se cada instância – municipal, estadual e federal – falasse uma língua”, diz. “Nesse aspecto, o Centro Antigo de Salvador é o maior exemplo”.

Fronteira

Com cerca de 500 imóveis abandonados, segundo dados da prefeitura, o Centro de Salvador tem apenas um regramento definido, estabelecido pela Constituição de 1988. Nela, lê-se que o “poder público, com a colaboração da comunidade”, é protetor do patrimônio cultural. Vago, o artigo 216 da Carta trata da preservação de bens imateriais e materiais – este último, o caso dos centros históricos das cidades brasileiras.

Sem uma legislação definida e unificada, órgãos de diferentes instâncias de poder abraçam a causa da preservação do legado arquitetônico. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), instituído em 1937, tem atuação federal. No caso de Salvador, somam-se ao Iphan o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) e a Companhia de Desenvolvimento Urbano (Conder), ambos estaduais. No âmbito municipal, há ainda a Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) e a recém-criada Diretoria de Gestão do Centro Histórico.

No campo das leis, a responsabilidade de manutenção dos imóveis no Centro Antigo é do proprietário e, se ele não tiver condições financeiras, do Ipac ou do Iphan, a depender de qual órgão tenha sido responsável pelo tombamento. No campo da prática, a maior parte dos edifícios em ruínas no centro não possui sequer proprietários identificados. Assim, os órgãos públicos põem mais uma característica no horizonte: estruturas metálicas que escoram as construções cambaleantes.

Concebidos como instâncias responsáveis pela conservação da arquitetura tombada (como é a quase totalidade do Centro Antigo de Salvador), o Iphan e o Ipac alegam que não possuem poder para retirar moradores ou mesmo para investigar o paradeiro dos verdadeiros proprietários, uma responsabilidade do poder municipal. Esse, por sua vez, alega a dificuldade em estabelecer contato com os donos e a lentidão dos processos de retomada dos imóveis (espécie de estatização dos prédios abandonados).

“Opera-se com uma política de tombamento e escoramento. Mas o escoramento é uma coisa provisória, não é para ficar dez anos, como no caso da Ladeira da Soledade”, diz Edvaldo Vivas, coordenador do Núcleo de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Nudephac), do Ministério Público, lembrando o caso de um casarão tombado que desabou sobre uma casa, em abril, matando três pessoas e deixando duas feridas. “Os centros históricos são uma fronteira tríplice e envolvem órgãos de todas as instâncias. Mas os gestores estão ligados a partidos e a grupos políticos diversos. Isso dificulta a orquestração”.

O Nudephac, criado em 2009, é a mão do Judiciário na questão. O órgão atua de duas formas: no caso de construções com risco de desabar, provoca, via liminar judicial, o Ipac e o Iphan a providenciarem o escoramento; no caso de construções escoradas, e que já apresentam novos riscos, move uma ação civil pública para que os órgãos competentes revitalizam o lugar. Desde que nasceu, porém, o Nudephac só conseguiu três sentenças impondo a revitalização.

“É um processo demorado e implica considerar o orçamento público, a verba que os órgãos de proteção ao patrimônio têm para fazer a intervenção”, diz Vivas. “No entanto, não é verdade que o Ipac e o Iphan ficam de mãos atadas quando os donos não são localizados. Há ações judiciais pelas quais esses órgãos poderiam solicitar a entrada no imóvel para realizarem uma revitalização, ainda que mínima”.

Integração

No final do ano passado, a prefeitura de Salvador pôs em pauta um projeto para o centro, batizado de Revitalizar, como forma de responder à acusação das instâncias federal e estadual de que o poder municipal, como dono do solo da cidade, tem atuado com negligência na questão.

O projeto, que prevê a concessão de descontos em tributos a empresários e comerciantes que se instalarem na região e realizarem reformas, segue em discussão na Câmara. Mas uma proposta complementar já virou lei: à prefeitura foi dada a permissão de se apropriar de imóveis abandonados que, após cerca de cinco anos, não tenham recebido intervenção. “A atração de comerciantes e a possibilidade de retomar o controle dos imóveis são ações importantes, mas, sozinhas, têm impacto reduzido”, diz Tânia Scofield, presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, instituição ligada à Sedur e responsável por projetos de planejamento urbano. “As intervenções já realizadas em áreas históricas nos mostram que é preciso um programa integrado, que olhe, também, para a atração de novos moradores e para a mobilidade urbana. Esses são os próximos passos que devemos dar”.

Tanto gestores municipais quanto estaduais já mencionam a necessidade de um programa de habitação voltado ao centro,  que aproveite os imensos espaços vazios que caracterizam a região. O modelo, já testado em muitas cidades no mundo, tem um exemplar, ainda infante, no Brasil. Desde o ano passado, em Belo Horizonte (MG), sete mil moradias foram disponibilizadas na área central. A Sedur e a Conder, no entanto, não antecipam metas claras ou prazos para implantação de programa semelhante em Salvador.

Moradia

Em relatos históricos, os centros das cidades são quase sempre identificados como o lugar mais dinâmico da vida urbana. Nos documentos  de meados do século passado, porém, a noção de centro começa a se diluir com o surgimento de  subcentros, que passaram a concorrer com o  principal. Esse processo foi responsável pela aceleração da deterioração das regiões históricas, que se tornaram, na Europa e nos Estados Unidos, objetos de preocupação desde a década de 50.

No Brasil, a revitalização passou a ser discutida de modo mais intenso após os anos 70. Num primeiro momento, os planos urbanos incentivaram a substituição dos sobrados e casarões por prédios modernos – como os que foram construídos no Comércio. Num segundo momento, a partir da década de 90, gestores públicos colocaram em prática projetos que visavam à dinamização, com ênfase no turismo, em detrimento do uso habitacional. É desta época a maior intervenção já realizada no centro de Salvador.

“Trata-se de uma intervenção que, iniciada em 1992, converteu o Pelourinho em uma das atrações turísticas mais conhecidas e visitadas do país, criando uma cidade-espetáculo, de casarios de muitas cores, mas também promoveu um grande esvaziamento de sua ligação com a própria cidade”, diz a urbanista Tereza Peixoto, autora de um estudo que avaliou a sustentabilidade de longo prazo dos projetos de revitalização de seis centros históricos do Brasil – Salvador, São Luís, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre – realizados entre 1990 e 2010.

Na pesquisa, Peixoto escreve 37 vezes a palavra “gentrificação”, o processo de enobrecimento de uma área, no qual habitantes são expulsos para regiões distantes por não conseguirem arcar com novos custos de vida, sobretudo aluguéis. No caso de Salvador, por exemplo, a última grande intervenção no Pelourinho reduziu a população da área de 6,7 mil, em 1991, para cerca de três mil habitantes, em 2000.  “Todas as intervenções analisadas se mostraram pouco sustentáveis. As populações foram expulsas para as periferias. E esse excesso produziu espaços-caricaturas”, diz Peixoto. “O interessante é que traços de decomposição foram aparecendo, pinturas foram descascando, como se a cidade que existia antes retomasse aos poucos seu lugar”.

A maior análise já realizada sobre o Minha Casa, Minha Vida traduz, em números, a vantagem de levar moradores aos centros. Batizado de Quanto Custa Morar Longe, os dados levantados pelo Instituto Escolhas, ligado ao Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), serão apresentados no final deste mês, mas uma amostra da pesquisa já dimensiona o problema.

A opção por um modelo como o do Minha Casa, Minha Vida levou a construções em áreas onde não há infraestrutura: sem  hospitais, escolas, saneamento e transporte. As casas,  financiadas pelo Ministério das Cidades, ficaram dentro do orçamento, mas demandaram de outros órgãos sistemas de educação, saúde, saneamento, transporte e segurança. Somados ao longo de uma década, os investimentos  farão com que cada apartamento popular termine custando, aos cofres públicos, o valor de uma cobertura em bairro nobre.

“A questão habitacional é fundamental. A região central de Salvador viveu muitos anos de abandono. É importante que os governos voltem a fazer propostas para as áreas centrais. Mas elas têm de levar em conta a população que se apropriou do espaço”, diz o arquiteto e autor do livro A vida nos centros urbanos (2002), Maurício Memoli, que, em 2012, adquiriu um sobrado no  Santo Antônio Além do Carmo. “O centro é um marco histórico. Morar nele deveria ser um privilégio”.

Em 2014, Memoli e outros arquitetos solicitaram explicações públicas ao Iphan a respeito da extinção do Escritório Técnico de Licenças e Fiscalização (Etelf), criado para agilizar a cooperação entre os poderes estadual, municipal e federal nas questões relacionadas à conservação do patrimônio histórico de Salvador. “O Iphan nunca nos respondeu”, diz Memoli.

O fim do Etelf, órgão saudado por arquitetos e urbanistas, esbarra na  torre residencial La Vue, na Ladeira da Barra. A construção, em meio a monumentos tombados, foi avaliada pelo Etelf em 2014, e o parecer emitido opinava pela rejeição do empreendimento, tendo em vista o impacto  na paisagem urbana. Em outubro, no entanto, o Etelf foi extinto. Os empreendedores solicitaram nova avaliação, e o engenheiro Bruno Tavares emitiu parecer liberando o prédio, com mais de 100 metros de altura, com o argumento de que  estava longe do entorno da área tombada.

Três anos depois, o La Vue seria notícia. O então ministro da Cultura, Marcelo Calero, acusou o então ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, dono de um apartamento no local, de pressioná-lo para que a obra tivesse aval do Iphan nacional. O caso, à época tratado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil como uma amostra da “prática de influências na administração pública para proveito pessoal”, levou o Iphan nacional a anular a liberação da obra dada pela superintendência local do órgão.

“O que ocorreu foi uma divergência técnica entre o Iphan local e a direção nacional a respeito da poligonal de tombamento (área localizada na vizinhança dos imóveis tombados)”, diz à Muito Bruno Tavares, hoje superintendente do Iphan na Bahia.  Segundo ele, a extinção do Etelf não findou os diálogos entre os poderes e, há dois meses, conversas entre o Iphan e a Fundação Mário Leal Ferreira foram iniciadas com o objetivo de construir um “regramento conjunto”.

Distante dos gabinetes, há muitos outros cálculos que permeiam o Centro Antigo de Salvador. As contas feitas por “proprietários de palavras”, inquilinos do dia e pequenos comerciantes que fazem dos imóveis abandonados um propósito de vida são, quase sempre, visuais. “Rachadura na horizontal, você pode deixar. Mas um rasgo vertical é sinal de que é preciso providenciar a mudança”, ensina à reportagem uma senhora que vive com os dois filhos, há um ano, num imóvel abandonado. “Olho para o teto e vem o alívio de ele ainda estar lá. Esse é meu ponto de partida, todos os dias”.

Por Eron Rezende

Fonte original da notícia: A Tarde




Salvador (BA) – Forte de São Marcelo pode voltar a ser aberto ao público

Em novembro de 2016 o local foi devolvido à população após as ações do PAC das Cidades Históricas.

Compondo a clássica paisagem da Baía de Todos-os-Santos, a equipamento de formato circular situado à beira do Porto de Salvador, no Comércio, deve finalmente retomar visitações. Com sua reforma concluída no ano passado, o Forte de São Marcelo aguarda apenas o entendimento entre a prefeitura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para voltar a funcionar como equipamento turístico.

Entre os projetos cogitados pelo Município é abrigar no forte um Memorial da Baía de Todos-os-Santos. A ideia é que o equipamento seja um lugar de contemplação, com acervo permanente, usando recursos interativos, tal como foi feito nos fortes São Diogo e Santa Maria, que abrigam exposições sobre o artista plástico Carybé e o fotógrafo Pierre Verger, respectivamente.

“A prefeitura acumulou uma boa experiência com a implantação de conteúdos culturais nos fortes, transformando-os em atrativos turísticos importantes, com exposições permanentes e que registram bons índices de visitação”, explica o secretário municipal de Cultura e Turismo, Cláudio Tinoco.

Embora integre o conjunto dos equipamentos icônicos da famosa vista da Baía de Todos-os-Santos, o investimento do forte não deve vir do Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo em Salvador (Prodetur) – cujos recursos já estão destinados a requalificação da Avenida Sete de Setembro, e para a implantação do Museu da História da Cidade e do Arquivo Público.

O forte já foi utilizado como equipamento de visitação turística até 2011, quando foi fechado para o público. Em novembro do ano passado, o local foi devolvido à população após as ações do PAC das Cidades Históricas, dois anos de obras e de um investimento de R$ 7,5 milhões.

Histórico

Edificado em alvenaria em 1623, e contando com 19 armamentos de defesa, o Forte de São Marcelo foi um dos principais equipamentos de defesa da Baía de Todos os Santos por mais de três séculos, junto aos fortes São Diogo, Santa Maria e Santo Antônio (que abriga o Farol da Barra).

Erguido, sob um banco de arrecifes, a apenas 300 metros da costa, o forte é o único em formato circular em todo território nacional. Com uma área total de 2.500 m², o projeto original do forte em estilo renascentista visava resistência às marés e às correntes, permitindo tiros em qualquer direção na defesa da cidade e do porto de Salvador.

O equipamento teve papel importante em muitos episódios históricos da Bahia e do Brasil. Foi lá que, o patriota João das Botas hasteou uma bandeira verde a amarela após a retirada das tropas portuguesas durante a Guerra da Independência, em 1823. Ali também foram aprisionados os líderes da Revolta dos Malês, assim como o líder farroupilha Bento Gonçalves, que de lá escapou após ter sido vítima de uma tentativa de envenenamento.

Por Matheus Fortes

Fonte original da notícia: Tribuna da Bahia




Salvador (BA) – Estado anuncia continuidade das obras no MAM

Fotos: Jefferson Vieira/IPAC

As obras de reforma do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), localizado no Solar do Unhão, em Salvador, a principal intervenção já realizada no local nos últimos 50 anos, e que estava parada por falta de recursos, terão continuidade. Na primeira das duas etapas foram investidos cerca de R$ 8 milhões, incluindo a restauração da capela, casarão, galeria 1 com cinema, biblioteca e reserva técnica com ações físico-estruturais.

A segunda etapa tem previsão de mais R$ 7,7 milhões em investimento, incluindo requalificações das oficinas do MAM, galeria 3, sistema de ar-condicionado, subestação, além dos famosos arcos criados pelo arquiteto Diógenes Rebouças na Avenida Contorno da década de 1960 e o restante do Parque das Esculturas. Os recursos são do Tesouro estadual.

No início deste mês, o vice-governador e secretário estadual do Planejamento, João Leão, realizou vistoria no museu – considerado um dos pontos turísticos mais importantes da capital baiana -, acompanhado do diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), João Carlos de Oliveira, da diretora do MAM, Ana Liberato, e de arquitetos, engenheiros e assessores estaduais. A comitiva percorreu as dependências do museu.

João Leão reiterou que a continuidade da obra é um compromisso do governo estadual, para garantir “a preservação desse centro cultural, uma referência das artes e da cultura para a Bahia e o Brasil”. Segundo ele, por se tratar de área urbana com mais de 300 anos e a proximidade do mar, a intervenção passa por cuidados superiores a de outras obras.

De acordo ainda o vice-governador, além de ser Monumento Nacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional (Iphan/MinC) desde 1943, “tratam-se de edificações antigas que requerem prospecções e readequações, já que existe forte interferência do salitre e água do mar”.

Programação no MAM

A data de término das intervenções dependerá dos recursos a serem liberados. Mesmo em obras, a programação do MAM continua com as conhecidas Oficinas do MAM, que promovem gratuitamente cursos de desenho artístico, pintura, cerâmica, litografia, modelagem e serigrafia abertos. Segundo Ana Liberato, também continuam abertas ao público as três exposições em cartaz – ‘Natureza que Aflora’ (até 18.06), ‘Eles por Ela’ (até 9.07) e ‘Elas’ (até 23.07), além do projeto JAM no MAM, às 18h, todos os sábados, e o MAM Medita, às 16h, aos domingos”. Mais informações estão disponíveis no site da Diretoria de Museus (Dimus/Ipac).

Por Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac)

Fonte original da notícia: Portal da Secretaria de Cultura da Bahia




Salvador (BA) – MAM pede socorro: obras de reforma estão paradas há oito meses

Intervenção é a primeira e maior no Museu de Arte Moderna da Bahia, cujo projeto, de Lina Bo Bardi, é da década de 1960.

Foto: Marina Silva/Correio

Todos os dias, centenas de pessoas se deslocavam para o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), para apreciar o sol se pôr na Baía de Todos-os-Santos. Desde o começo de maio passado, o espetáculo foi suspenso. A direção do espaço reduziu o  horário de fechamento dos portões em duas horas. Agora, abre às 13h e fecha às 17h.

O complexo museológico, criado por Lina Bo Bardi nos anos 1960 para abrigar a arte contemporânea, iniciou uma reforma em 2013 que não tem data para acabar. Está parada há mais de oito meses por falta de recursos. Dos R$ 15,7 milhões previstos, R$ 8 milhões já foram consumidos.

A alternativa para quem gosta de avistar o sol sumir no mar da baía na companhia da arte seria então o Espaço Mário Cravo, mais conhecido como Parque das Esculturas. Criado em 1998 como uma extensão do MAM para abrigar esculturas de artistas contemporâneos, o espaço está abandonado, fechado ao público por questão de segurança e sem previsão de reabrir. Por lá, tudo está em ruínas.

A passarela de madeira que dá acesso a obras de artistas como Tunga, Carybé, Siron Franco, Mário Cravo, Mestre Didi, Tati Moreno, Emanuel Araújo e tantos outros gravadores da cena artística nacional e internacional está comprometida. O guarda-corpo de madeira que circunda a passarela está em decomposição.

Caminhar pelo espaço é como andar num cemitério abandonado. A sensação torna-se ainda mais real quando cruzamos com as três figuras humanas de concreto assinadas pela artista alemã Janaina Tschäpe. Os “corpos” estão cobertos pelo mato. A placa de identificação da obra está a metros de distância e requer esforço para desvendá-la.

O cenário de abandono torna-se maior quando nos deparamos com obras de artistas consagrados como Mestre Didi e Carybé. A primeira, descolorida, a outra faltando partes.

A Sala Rubem Valentim, que reúne grande parte do acervo do artista baiano, está fechada. A diretora do MAM, Ana Liberato, não consegue esconder seu constrangimento diante do cenário. Sensível, tenta manter a postura de gestora firme, mas o seu corpo denuncia sua tristeza por não ter o que fazer.

Obra paralisada

A crise no MAM se agravou quando o dinheiro para prosseguir com as obras escasseou. Há mais de oito meses a Construtora Pentágono, responsável pela obra, fechou o barracão e demitiu os operários. A obra parou de vez. “Não tínhamos como continuar. Seguramos até onde podíamos, depois a situação ficou insustentável porque não recebemos mais nada e ainda ficaram nos devendo, Aí tivemos que paralisar”, conta Mateus Amorim, diretor da empresa.

Coube a João Carlos Oliveira, diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), órgão da Secretaria de Cultura, responsável pela gestão de museus, cortar custos. Ele foi direto na carne. Dispensou 132 contratados em Regime Especial de Direito Administrativo (Reda). Destes, 24 atuavam no MAM como monitores.

Além destes, a área de vigilância também sofreu cortes. De cada grupo de oito vigilantes que se revezavam em quatro turnos, dois foram dispensados.  Segundo Oliveira, todos os contratos venceram ao mesmo tempo. A equipe, diz o diretor, será substituída por outro modelo de contratação.

“Este é meu modelo de gestão, reduzir o quadro e colocar as equipes para circular pela estrutura do Ipac”, justifica. Sua ideia, conta, é substituí-los  por jovens do programa Primeiro Emprego. Todos de nível médio. Oliveira garante que cerca de 60 ex-redas serão recontratados por empresas terceirizadas. Só não sabe precisar quando.

Ameaça de fechar

Agora, o museu que já integrou o circuito de arte internacional, luta para não fechar. Com as obras paradas, perdeu a vitalidade. O barracão de obras, abandonado pela Construtora Pentágono, virou depósito e refúgio dos seguranças. “Guardamos as coisas da gente lá”, conta um dos vigilantes, lamentando a existência de uma geladeira, “novinha em folha”, deixada lá. “Podiam dar a quem precisa”, sugere.

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico, Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan), o Solar do Unhão virou um canteiro de escombros para todos os lados. No ano passado, segundo o diretor do Ipac, o governo liberou R$ 1 milhão para a obra. Depois, a fonte secou de vez.

Na primeira fase, foram recuperadas duas das três galerias, a capela e o telhado do casarão. Mas nada disso funciona conforme o planejado. Tudo está mal ajambrado. As crateras abertas para instalação do ar-condicionado central aguardam os equipamentos serem comprados. O cinema está a espera de cadeiras, de climatização, dos projetores e demais equipamentos.

Segundo Oliveira, 60% da obra está concluída. Diz que espera recursos para finalizar. “Estamos aguardando R$ 2,5 milhões para dar um gás”. O dinheiro seria usado para adquirir os equipamentos.

O Solar do Unhão pede socorro. O que se vê por lá é um monte de entulho espalhado por toda a área. Por trás dos tapumes que isolam áreas, externas e internas, escondem-se lixo, restos de madeira e resíduos. A visão contrasta com a paisagem deslumbrante do mar que emoldura o conjunto secular.

“O MAM precisa voltar a existir para a cidade. O museu não tem tido uma atuação”, diz o artista Caetano Dias. A queixa dos artistas é geral. “Não tenho ido lá, mas pelo que me dizem a situação é desoladora. O museu se afastou dos artistas e da comunidade”, lamenta. Para o também artista Alamandrade, que ministrou oficinas no MAM e lá também expôs, “o museu, em particular o de arte, no seu acervo e na sua programação, deve refletir essa pluralidade, porque ele não é o lugar da exclusão, e sim do confronto, do diálogo com diferentes manifestações, compatível com a sua função e sua especificidade”, diz.

A diretora do MAM sonha com a volta do Salão de Artes. Da Bienal, ninguém fala. Por hora, o acervo de mais 1,2 mil obras que inclui artistas como Djanira, Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Carybé, Rubem Valentim e Portinari, dentre outros, continuarão privadas de admiradores. Assim como o pôr-do-sol, agora proibido.

Por Ronaldo Jacobina

Fonte original da notícia: Correio – Bahia




Salvador (BA) – Seminário destaca o Patrimônio Cultural como estratégia de desenvolvimento econômico

Foto: Divulgação

Como promover ecossistema de inovação no Centro Histórico é o tema do painel que contará com a presença do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), durante o seminário Centros Históricos: Inovar é Preciso. Os debates acontecem na cidade de Salvador (BA), nesta terça-feira, dia 30 de maio, reunindo especialistas nacionais e internacionais que trazem exemplos de cidades onde o Centro Histórico está mais dinâmico.

Com o foco em inovação e empreendedorismo, o seminário é realização do Instituto ACM com apoio da Oi. As inscrições são gratuitas e estarão abertas a partir das 8h, no dia e local do evento, no Hotel Pestana Convento do Carmo. A proposta do Seminário é mobilizar governos, da sociedade civil, especialistas e comunidade para buscar recursos inovadores e sustentáveis para o centro de Salvador, visando torna-lo um lugar pulsante, promovendo, ainda, a ideia do Patrimônio Cultural como estratégia de desenvolvimento econômico.

A coordenadora Geral de Bens Imóveis, do Departamento de Patrimônio Material (Depam), Érica Diogo, representa o Iphan no painel, que reúne, ainda, a chefe do departamento de economia da cultura do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciane Gorgulho, o secretário de Desenvolvimento e Urbanismo de Salvador, Guilherme Bellintani. Outro palestrante do evento é Josep Piqué, que apresentará, por videoconferência, a palestra Cidades de Conhecimento em Cidades Inteligentes: o case de 22@ Barcelona. Ele também participará de um talk show, mediado pelo pesquisador e professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Marcus Alban.

Fonte original da notícia: IPHAN




Salvador (BA) – Centro Antigo tem 500 casarões com situação estrutural de risco

As fachadas dos dois imóveis acidentados, no fim da noite da última segunda. Foto: Xando Pereira /| Ag. A Tarde

O caso do desabamento do casarão de nº 146 na ladeira da Soledade, que resultou na morte de três moradores que estavam em uma residência ao lado, traz à tona a situação de muitos imóveis da região do Centro Antigo que apresentam riscos de desmoronamento.

O diretor geral da Defesa Civil do município (Codesal), Gustavo Ferraz, disse ao A TARDE que, desde o início do ano, cerca de 250 casarões localizados naquela região de Salvador já foram georreferenciados pelo município e apresentam diferentes graus de risco: de baixo a muito alto.

Do total, 120 considerados de alto risco já foram notificados, segundo Ferraz. Os 130 restantes são de baixo e médio riscos, e ainda não tiveram os proprietários alertados. A previsão é que, após o período da Operação Chuva, o mapeamento destes imóveis seja finalizado.

A estimativa é que há cerca de 500 casarões na região com riscos.

O imóvel do acidente desta segunda-feira, 24, era tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) e, segundo Ferraz, o órgão estadual havia sido notificado desde 2011.

Seis anos depois, não houve nenhuma resposta do Ipac e nem do proprietário, identificado como José Ivo da Costa Santos.

“Vamos entrar com um processo contra o assassino. Ele é conhecido como Ivo Gato. Tenho várias queixas na Defesa Civil por vários anos. A Codesal é outro órgão que deixou morrer gente para vir fazer algo. O Ipac até agora nem apareceu. Todo mundo sabia que era uma tragédia anunciada”, afirmou a promotora de vendas Simone Carrero, 42.

Ela e o filho de 12 anos conseguiram sobreviver ao acidente. Foram levados para o Hospital Geral do Estado (HGE), mas liberados no mesmo dia. Simone perdeu o pai, José Prostero Deminco, 73, e os irmãos Paulo Carreiro Deminco, 43, e Ana Carreiro Deminco, 37. O enterro deles foi realizado nesta terça, 25, no cemitério do Campo Santo.

Providências

No documento encaminhado há seis anos pelo município para o órgão estadual, é feito um alerta sobre os riscos apresentados pelo imóvel que desabou e pede-se que providências sejam tomadas. No entanto, a Codesal não mandou novas notificações.

“Não precisa ficar notificando sempre. Vai fazer todo ano a mesma coisa? A notificação é simplesmente o alerta da Defesa Civil, pede que o proprietário realize obras para que o imóvel saia do risco”, disse o gestor.

Gustavo Ferraz afirmou, ainda, que “não cabe à Defesa Civil realizar a intervenção. É tombado. Não tinha como obrigar o Ipac e nem o proprietário, porque a legislação não permite. Do ponto de vista da hierarquia, o Ipac está acima da prefeitura”.

Ele contou que parte do telhado e o muro desabaram sobre a casa ao lado, onde havia cinco pessoas. A operação para retirada dos corpos terminou às 4h30 desta terça. “O proprietário mora na mesma rua e fugiu. O casarão estava vazio. Não funcionava nada nele. Ele fez madeiramento no telhado, colocou telha de eternit por cima e escorou as paredes laterais. Pode ter havido sobrecarga”, afirmou Ferraz.

Ipac

Por meio de nota, o Ipac, órgão vinculado à Secretaria de Cultura do Estado, informou que encaminhou nesta terça uma notificação extrajudicial para a prefeitura, pedindo “todas as informações e documentos relativos ao imóvel de nº 146”.

O Ipac destacou, também, que não recebeu ofício do município requerendo anuência do órgão estadual para a concessão de alvarás para a realização de obra no casarão, e apontou a intervenção feita como “ilegal e causadora do acidente”.

“Os imóveis da ladeira da Soledade são propriedade privada, não sendo um prédio público nem tombado pelo Estado individualmente, mas se encontra em área de proteção do Estado como conjunto arquitetônico. Contudo, o tombamento não significa a desapropriação ou responsabilização integral do imóvel ou da área tombada, mas, sim, uma tutela”, ressaltou na nota o instituto.

O Ipac informou, ainda, que “se solidariza com as famílias das vítimas”, mas que só pode agir legalmente caso ocorra a solicitação formal do proprietário do imóvel, “que deve comprovar não ter condições financeiras para arcar com as despesas de conservação do imóvel para que o governo estadual possa agir, ou por solicitação expressa, oficial e comprovada da prefeitura”.

Proprietário

Parede do sobrado caiu sobre o imóvel ao lado (Foto: Xando Pereira | Ag. A Tarde)

A TARDE procurou o proprietário na casa onde vizinhos afirmaram que ele mora, mas não havia ninguém no local.

Segundo avaliação da Codesal, o imóvel ainda tem risco de desabamento e, para ser demolido, ainda depende de aprovação do governo do estado.

Em 2011, na mesma rua, outro casarão havia desabado, matando uma pessoa. “Quem vai responder é o proprietário e, como subsidiário, o Ipac. O maior peso é de quem tem a propriedade”, acrescentou o diretor geral da Codesal.

De acordo com moradores do local, outros imóveis próximos também estão deteriorados. “Tem uma casa que os pedaços estão caindo na travessa da Soledade. Está assim há mais de um ano”, reclamou o estudante Hércules de Marchi, 27.

Promotor diz que órgãos podem ser responsabilizados

O coordenador do Núcleo de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Nudephac) do Ministério Público do Estado (MP-BA), o promotor de justiça Edvaldo Vivas, afirmou que os governos federal e estadual costumam “jogar a responsabilidade” para os proprietários.

“De acordo com o decreto do tombamento, a responsabilidade é do proprietário. Mas há uma exceção quando ele não tem comprovadamente condições para fazer o restauro. Aí a responsabilidade é subsidiária que é do órgão que tombou”, explicou o promotor.

Para Vivas, é necessário apurar se houve de fato notificação da Codesal e se o Ipac fez alguma obra de escoramento. “O restauro é muito caro. O que a gente pode conseguir na justiça é que seja feito o escoramento. Mas é interessante que a população sempre denuncie para que o Ministério Público possa abrir uma investigação”, acrescentou.

O promotor contou que o Nudephac planeja, para o 2º semestre deste ano, realizar uma fiscalização preventiva, integrado a outros órgãos, da situação atual dos casarões do Centro Antigo. No entanto, ainda não saiu do papel o projeto. Ele está fechando parcerias com outros entes para que a ação possa ser realizada.

O caso está sendo investigado pela 2ª Delegacia Territorial (Lapinha). O titular da unidade, o delegado Luís Henrique Ferreira, disse que vai oficiar órgãos públicos e ouvir envolvidos para apurar as três mortes ocorridas.

Ele confirmou que o proprietário do casarão não foi localizado. Apesar da prefeitura ter divulgado que ele estaria foragido, o delegado afirmou que ainda não há mandado de prisão contra o proprietário. Portanto, ele não pode ser considerado foragido.

“Cedo” 

“Está muito cedo para afirmar se houve responsabilidade. Vamos apurar se houve negligência, se houve imperícia ou dolo de alguém. Vamos verificar se há culpados”, destacou. O delegado disse, também, que aguardará o resultado dos laudos do Departamento de Polícia Técnica.

Por Anderson Sotero

Fonte original da notícia: A Tarde




Salvador (BA) – Cinco anos depois de incêndio, Instituto do Cacau ainda não foi reformado

Licitação foi suspensa pela Justiça após ação popular que questiona falta de autorização pelo Iphan.

Andaimes sustentam a estrutura do terceiro andar que pegou fogo em 2012; governo diz que projeto para reforma tem autorização do IPAC, mas uma ação popular impediu a licitação (Foto: Evandro Veiga/Correio)

Andaimes sustentam a estrutura do terceiro andar que pegou fogo em 2012; governo diz que projeto para reforma tem autorização do IPAC, mas uma ação popular impediu a licitação (Foto: Evandro Veiga/Correio)

Quem nota as paredes pichadas e sujas ou as grades enferrujadas do Instituto do Cacau, localizado no Comércio, nem imagina que aquela estrutura foi uma das primeiras obras de arquitetura moderna na Bahia. Do lado de fora, o teto queimado relembra a manhã de 16 de julho de 2012, quando o terceiro andar foi destruído por um incêndio.

No alto do edifício, ainda é possível ver vários andaimes estruturados que sustentam os destroços do terceiro andar – que continua interditado desde o fogo – e impedem um possível desabamento. Nos andares inferiores do prédio funcionam o SAC Educação, o SAC Cidadão e o Núcleo Regional da Educação.

O equipamento pertence à empresa Alpe Locação de Estruturas, que afirmou ser responsável apenas pelo aluguel dos andaimes e não tem nenhuma relação com a reforma do patrimônio.

Licitação
Em 17 de janeiro deste ano, a Secretaria Estadual da Administração (Saeb) divulgou que mais R$ 2 milhões seriam investidos na primeira etapa da obra. O edital foi publicado no mesmo dia, e a licitação, marcada para 20 de fevereiro, no Auditório da Superintendência de Patrimônio do Estado, no Centro Administrativo da Bahia (CAB).

No entanto, uma ação popular, liderada pelo advogado Bruno Almeida, conseguiu suspender a licitação, alegando que o projeto não possuía aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Num caso como este, onde o Instituto do Cacau é um bem tombado, e se pretende realizar obras sem a prévia obtenção de licença, tal fato é grave, pois, se não há projeto aprovado no IPHAN, não há projeto definitivo. Então, como licitar uma obra se não há projeto definitivo ainda? Qualquer alteração no projeto poderá ter diversas consequências, desde a impossibilidade de conclusão da obra até o dano aos cofres públicos”, afirma o advogado.

Imbróglio
O Iphan confirmou que é necessária a análise e autorização deles para que ocorram reformas no imóvel, pois o Instituto do Cacau fica em uma região do Comércio tombada pelo órgão, estando também sob a proteção dele. No esclarecimento, o Iphan citou ainda que não recebeu nenhum projeto de reforma.

Em nota, a Saeb, porém, afirma que a autorização não é necessária na fase de licitação. Ressaltou ainda que o Instituto do Cacau é tombado também a nível estadual, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), que já tem conhecimento da obra.

O Ipac confirmou ser o responsável pelo tombamento do edifício e que não apresentou nenhum impedimento para o prosseguimento da licitação. O órgão ainda ressaltou que oferecerá todo o suporte técnico necessário quando a obra estiver sendo feita, para que o patrimônio não perca suas características originais.

O Instituto do Cacau foi criado em Junho de 1931. Para a época, o design do prédio foi uma importante evolução arquitetônica para a Bahia. O projeto foi assinado por um arquiteto alemão chamado Alexander Buddeus e reúne linhas sofisticadas, com elementos de estilos clássicos como o art déco e a Escola de Bauhaus.

A liminar que suspendeu a licitação está sendo julgada pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA). A Procuradoria Geral do Estado assumiu o caso e diz que busca resolver a situação o mais rápido possível, para dar continuidade ao processo de reforma do patrimônio com a mesma licitação. Não há previsão para o encerramento do caso na Justiça.

Por Jordan Dafné

Fonte original da notícia: Correio – Bahia