Primeira casa projetada por Gaudí abrirá como museu em Barcelona

Em processo de restauração, a Casa Vicens funcionará como um museu em Barcelona; veja fotos da fachada – que está toda restaurada – e do interior do prédio.

Detalhe da fachada colorida da Casa Vicens, que abrirá ao público no próximo outono europeu. Pol Viladoms/Divulgação

Barcelona não seria tão única sem os ferros retorcidos, os mosaicos loucamente coloridos e as formas insólitas criadas pelo arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926).

Caminhando pela cidade, é possível acompanhar a evolução do estilo daquele que foi o mais radical dos modernistas catalães através de várias construções até chegar à Sagrada Família, sua obra-prima inacabada.

Faltava a pecinha inicial. Escondida em uma rua pouco transitada do bairro de Gràcia, a Casa Vicens, primeira residência construída pelo criador da La Pedrera e da Casa Batlló, abrirá as portas no próximo outono europeu (ainda sem data marcada).

O edifício foi construído entre 1883 e 1885 para servir como casa de veraneio do corretor de câmbio e operador da bolsa Manuel Vicens i Montaner (1836-1895).

Mudou de mãos em 1899 e, mais tarde, a casa foi ampliada e dividida em alguns apartamentos. Até ser comprada pelo banco privado MoraBanc, do Principado de Andorra, serviu como residência – nada mal.

Aos 31 anos, o jovem Gaudí começou a mostrar a que vinha. Ao projetar o edifício, criou formas geométricas complexas, com um rico jogo de luzes e sombras e uma combinação de cores e texturas que se aproximam do estilo mudéjar (versão ibérica da arquitetura árabe).

Rompendo com as convenções tradicionais catalãs vigentes naquele momento, o edifício é considerado uma das primeiras grandes obras modernistas da cidade.

Para transformar-se em um centro cultural aberto ao público, a Casa Vicens está passando por um minucioso processo de restauração desde 2015. A previsão é que inaugure até o mês de novembro.

Passei por lá na última quinta-feira (3) e as obras estão a todo vapor em pleno mês de agosto (o tradicional mês de férias). Mas a fachada ainda está coberta, há um guindaste em ação e a impressão é a de que ainda temos muito chão pela frente.

Quando o museu estiver pronto, será o oitavo monumento declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO aberto ao público em Barcelona, seguindo os passos da Sagrada Familia, da Casa Batlló, da La Pedrera, do Park Güell, do Palau Güell, do Palau de la Música Catalana e do Hospital Sant Pau.

Ao visitar a Casa Vicens, aproveite para conhecer outras casas modernistas espalhadas pelo bairro de Grácias, como a Casa Gustà, a Casa Elisa Bremon d’Espina e a casa Francesc Cama. Veja mais detalhes neste link.

Por Adriana Setti

Fonte original da notícia: Revista Viagem




Dubrovnik/Croácia – Como turistas viraram uma ameaça à cidade de Game of Thrones

Um alerta da Unesco fez Dubrovnik, na Croácia, tomar medidas para conter o excesso de turistas que afeta a conservação de seu centro histórico, que é considerado patrimônio mundial e é cenário de algumas das cenas mais marcantes da série da HBO.

Unesco alertou que excesso de turistas pode trazer riscos à conservação dos monumentos históricos. Foto: Tonci Plazibat

Em “Game of Thrones”, a disputa pelo trono de ferro e a chegada do inverno são grandes ameaças à principal cidade da série, King’s Landing. No mundo real, o perigo é outro.

Em vez de dragões e zumbis, Dubrovnik, na Croácia, onde são filmadas algumas das principais cenas passadas na capital dos Sete Reinos, enfrenta problemas trazidos por hordas de turistas.

O alerta veio no ano passado, após uma inspeção da Unesco no seu centro histórico, conhecido como Cidade Velha. A organização detectou que a expansão do número de visitantes, especialmente aqueles vindos em cruzeiros, gera riscos para a conservação de monumentos e cobrou medidas da Prefeitura.

Cercada pelas águas cristalinas do mar Adriático, a Cidade Velha é considerada desde 1979 um patrimônio da humanidade. Há igrejas, monastérios, palácios e fontes de estilos gótico, resnascentista e barroco, tudo cercado por uma imensa muralha medieval

Esse local já resistiu a terremotos e às bombas lançadas na guerra pela independência da Croácia, no início dos anos 1990. Agora, precisa lidar com um volume insustentável de turistas que chegam à cidade na alta temporada, de junho a setembro, atraídos também por conhecer a locação de sua série preferida.

“A Cidade Velha foi um dos primeiros locais eleitos como patrimônio da humanidade. Antes, não havia tanto turismo, mas, recentemente, houve um grande aumento, especialmente por causa dos cruzeiros, que são cada vez maiores”, diz Mechtild Rössler, diretora do Centro de Patrimônio Mundial da Unesco.

Quantidade x qualidade

Na última década, o número de visitantes mais do que dobrou: de 473,9 mil em 2006 para 1,01 milhão no ano passado, dos quais 748,9 mil vieram dos 529 cruzeiros que passaram pela cidade. Dois anos antes, eram 463 embarcações.

No período de maior procura, Dubrovnik, que tem 42 mil habitantes, chega a ter 25 mil turistas hospedados. A Unesco está trabalhando junto às autoridades locais para desenvolver formas de gerenciar melhor tantos visitantes.

Em janeiro, o então prefeito Andro Vlahusić anunciou um plano. Foram instaladas câmeras para monitorar a entrada e saída de visitantes da Cidade Velha e estabelecido um limite máximo de 8 mil pessoas presentes ali simultaneamente.

“Queremos qualidade em vez de quantidade”, diz o novo prefeito, Mato Franković, que fez carreira na indústria de turismo e assumiu o cargo em junho. Ele diz que o monitoramento já permitiu compreender que a superlotação se dá normalmente entre 8h e 14h, em especial às terças, sextas e sábados.

Franković explica que ainda serão colocadas em prática medidas para reduzir de seis para dois o número de navios que chegam diariamente e estabelecer horários de entrada para excursões, que precisarão ser reservados com antecedência.

Ruas estreitas podem ficar lotadas de visitantes durante a alta temporada. Foto: Amanda Anderson

“Em vez do limite de 8 mil pessoas recomendado pela Unesco, queremos no máximo 4 mil pessoas na Cidade Velha em qualquer momento”, diz o prefeito.

“Dubrovnik é uma das cidades mais bonitas do mundo, e muita gente quer visitá-la. Todos são bem-vindos, mas, se o limite for ultrapassado, será preciso vir em outro dia ou horário.”

Efeito ‘Disneylândia’

De fato, o centro histórico da cidade croata e seu labirinto de vielas medievais é singular. Tem ruas de mármore liso e macio que reluzem com o sol durante o dia e, à noite, brilham na cor âmbar das luminárias de bares e restaurantes.

No fim de tarde, a revoada de andorinhas que toma os céus da cidade nos meses de calor em meio ao pôr do sol cria uma aura quase mágica.

Grande número de cruzeiros que passam pela cidade todo ano é apontado como um dos principais problemas. Foto: Tonci Plazibat

Mas os impactos do turismo podem ser sentidos por quem a visita entre a primavera e o verão do Hemisfério Norte, algo que já rende má fama a Dubrovnik.

Ao planejar uma viagem à Croácia, fui advertido por mais de uma pessoa sobre o problema. “Tem tanta gente que nem vou para lá”, me disse uma turista francesa em Split, cidade mais ao norte na costa croata.

O excesso de visitantes gera um efeito “Disneylândia”. É comum cruzar com excusões enormes. As ruas estreitas ficam lotadas, e parece haver nelas só visitantes – além de vendedores, guias turísticos e funcionários de hotéis e restaurantes.

Dubrovnik na vida real e na ficção; a cidade é locação de ‘Game of Thrones’. Foto: BBC Brasil/HBO

Hoje, há pouco mais de 1 mil pessoas vivendo na Cidade Velha. Eram cerca de 5 mil moradores no início da década de 1990, mas eles venderam suas casas ou as transformaram em acomodações.

“Quando cheguei aqui”, diz Mark Thomas, editor do jornal The Dubrovnik Times, “eu parava para não passar na frente das pessoas que estavam tirando fotografias. Agora, são tantas que eu não conseguiria chegar a lugar nenhum se continuasse a fazer isso.”

“Game of Thrones” tornou-se uma presença difícil de ignorar no centro histórico.

A série passou a ser gravada na cidade em 2011. Atualmente, há lojas inteiras dedicadas ao programa da HBO, e fãs da série fazem tours para conhecer pessoalmente onde foram gravadas cenas-chave, como a escadaria da Caminhada da Vergonha da rainha Cersei, o local do Casamento Púrpura no qual o rei Joffrey morre envenenado e o porto onde se deu a Batalha da Baía de Blackwater.

Ruína ou exagero?

Foram gravadas em Dubrovnik algumas das cenas mais marcantes da série da HBO. Foto: HBO/BBC Brasil

O jornal britânico The Telegraph declarou em uma reportagem recente a “morte de Dubrovnik”, dizendo que superlotação “arruinou” a cidade conhecida como “Pérola do Adriático”.

A reportagem cita o alerta da Unesco ao mencionar que o status de patrimônio histórico da cidade estaria sendo revisto, algo que o organismo internacional nega.

“Até hoje, isso só ocorreu duas vezes, quando os danos aos locais fizeram com que perdessem seu valor histórico”, afirma Rössler.

‘Game of Thrones’ tornou-se uma presença difícil de ignorar no centro histórico. Foto: BBC Brasil

“Há muitas etapas até algo assim ocorrer, e a primeira delas é o alerta, mas não vejo isso acontecendo com Dubrovnik no momento.”

Romana Vlasić, diretora do conselho de turismo da cidade, acredita que esse sinal amarelo chega em boa hora, para fazer a cidade parar e refletir sobre seu sucesso.

“Estamos no nosso limite. Ninguém se sente confortável de andar em uma multidão.”

Prefeitura está tomando medidas para controlar melhor o turismo e preservar a cidade. Foto: Conselho de Turismo/Dubrovnik

Uma estratégia adotada é promover a cidade em outras épocas do ano, fora da alta temporada. “Temos de organizar melhor os visitantes, ajustar o cronograma de cruzeiros, ter navios menores e rever a construção de hotéis, porque mais quartos trarão mais gente”, afirma Vlasic.

“Só assim seremos capazes de mostrar nosso melhor.”

É uma questão delicada para uma cidade em que 70% da economia gira em torno do turismo. O prefeito diz que, por isso, restrições ao turismo demandam cuidado, mas são inevitáveis.

“No curto prazo, vão haver impactos para todos, mas, no futuro, isso vai fazer as pessoas que hoje evitam ou passam rapidamente pelo centro histórico ficarem mais tempo por lá”, afirma Franković, para quem as notícias sobre a ruína de Dubrovnik são um exagero.

“Estamos cientes de que temos um pequeno problema e estamos buscando resolvê-lo. Dubrovnik resiste a adversidades há séculos. Ninguém nunca a destruiu nem o fará.”

Por BBC

Fonte original da notícia: G1




Rio de Janeiro (RJ) – Cais do Valongo aparece alagado menos de um mês após ser declarado patrimônio histórico da humanidade

Equipe da Rio Águas fez uma drenagem de emergência no local com o auxílio de uma mangueira.

Reprodução/Internet

O Cais do Valongo, que foi declarado patrimônio histórico da humanidade pela Unesco esse mês, está alagado.

Na noite desta terça-feira (25), uma equipe da Rio Águas fez uma drenagem de emergência no local e o volume de água baixou. O trabalho começou justamente depois que a equipe de reportagem pediu esclarecimentos à Prefeitura. Há 2 semanas, uma equipe da GloboNews esteve no local e constatou um vazamento.

A Companhia de Desenvolvimento Urbano afirma que os alagamentos são causados por um problema em uma das três bombas que fazem a drenagem do cais. Nesta terça, a água não chegou a invadir a rua.

Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio, foi declarado pela Unesco neste domingo (9) o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. Encontrado em escavações feitas durante as obras de revitalização da região, o local guarda parte da história da escravidão.

De acordo com o antropólogo Milton Guran, as ruínas do Cais do Valongo são os únicos vestígios materiais de desembarque de africanos escravizados nas américas.

O Valongo possui cerca de 350 metros de comprimento e vai da Rua Coelho e Castro até a Sacadura. Ele começou a ser construído no no fim do século XVIII e ficou pronto em 1811. A região era desabitada na época e o acesso era difícil. Por isso, foi escolhida para sediar o porto de desembarque de escravos.

A área deixa de funcionar como ponto de entrada de escravos por volta de 1831, quando leis contra a escravidão começaram a ser assinadas. Nessa época, o tráfego passou a ser clandestino e acontecia no período noturno.

Os alagamentos acontecem no momento em que, com atrasos em seu pagamento, a Cdurp deixou de realizar alguns serviços na Zona Portuária, o que resultou em crateras abertas na rua, bueiros com tampa quebrada, piso solto, entre outros problemas.

A prefeitura e a Caixa Econômica ainda discutem de quem é a dívida. Hoje, o prefeito Marcelo Crivella disse que a região não está abandonada.

“Há uma divida a ser paga. Nós achamos que é a Caixa Econômica, a Caixa Econômica acha que é a Prefeitura. O que nos estamos fazendo agora? Nos colocamos o Parques e Jardins, colocamos a Comlurb, colocamos a Guarda Municipal pra tomar conta disso tudo. Aqui não tem nada abandonado enquanto se resolve com a Caixa Economica e a Prefeitura quem é que vai pagar os 13 milhões por mes pra manutenção do Porto”, disse nesta terça o prefeito.

Por Rafael Coimbra

Fonte original da notícia: RJTV e GloboNews 




UNESCO e Banco Mundial defendem cultura e turismo como ferramentas para o desenvolvimento sustentável

Sameh Wahba, diretor de Prática Global de Resiliência Social, Urbana e Rural do Banco Mundial, e Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO. Foto: UNESCO

O Banco Mundial e a UNESCO firmaram neste mês (13) uma nova parceria para promover o crescimento econômico sustentável através de políticas culturais e de desenvolvimento urbano. Acordo de cooperação prevê ações para os próximos seis anos, ao longo dos quais os dois organismos internacionais buscarão formas de usar a indústria criativa e do turismo para promover a prosperidade compartilhada.

“Esse compromisso renovado por uma parceria de longa data entre a UNESCO e o Banco Mundial traz para o primeiro plano da discussão global o papel crítico que a cultura desempenha em apoiar os países no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e da Nova Agenda Urbana”, disse a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, sobre o acordo.

Ao lembrar que o patrimônio cultural e o turismo responsável se tornaram motores econômicos fundamentais para a redução da pobreza e para a criação de empregos, especialmente para mulheres e jovens, Sameh Wahba, do Banco Mundial, enfatizou que “assuntos de cultura para o desenvolvimento urbano sustentável são essenciais para a construção de cidades e comunidades inclusivas, resilientes, produtivas e sustentáveis para todos”.

O organismo financeiro e a agência da ONU atuarão lado a lado na orientação de políticas comuns para abordar o patrimônio cultural e as indústrias criativas como recursos para responder a situações pós-desastre e pós-conflito. A renovação dessa colaboração entre as duas instituições acontece em um mundo onde 26 milhões de pessoas por ano são levadas à pobreza devido a catástrofes e guerras.

O acordo prevê ações estratégias nas áreas de Paisagens Urbanas Históricas e Regeneração Urbana, Indústrias Criativas e Culturais, Resiliência e Gerenciamento de Risco de Desastres. A UNESCO lembra que a assinatura da parceria coincide com o Ano Internacional para o Turismo Sustentável. Até 2030, o setor deve gerar 1,8 bilhão de dólares em receitas.

As indústrias criativas também são promissoras para a geração de renda e emprego. Receitas do segmento são estimadas em 2,25 bilhões de dólares. Atualmente, o setor cria 29,5 milhões de postos de trabalho em todo o mundo.

Fonte original da notícia: ONUBR




Nos 280 anos de Aleijadinho, Ouro Preto (MG) ganha igreja onde mestre foi sepultado

Matriz de Nossa Senhora da Conceição será reaberta aos moradores e visitantes depois de dois anos fechada para restauração.

Fechada por dois anos, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição será reaberta em 18 de agosto, mas ainda passará pela segunda fase de restauração, que incluirá os elementos artísticos da construção. Foto: Marcelo Tholedo/Divulgação

Dentro de um mês, em 18 de agosto, uma das mais importantes igrejas de Ouro Preto, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, conhecida como Matriz de Antônio Dias, será reaberta aos moradores e visitantes, depois de dois anos de restauração comandada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas.

Se na primeira etapa foi contemplada a parte arquitetônica, na segunda, com licitação assegurada pela autarquia federal para este semestre, será a vez dos elementos artísticos da construção do século 18. Sem dúvida, a obra figura como destaque de 2017 na cidade, berço de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que está sepultado nesse templo sob o altar de Nossa Senhora da Boa Morte. Conforme estudo recente, o mestre do Barroco nasceu em 1737, portanto há 280 anos, embora a polêmica exista, pois outros historiadores falam em 1730 e 1738.

Para os visitantes, a nova etapa na igreja será oportuna tanto para se conhecer o trabalho dos restauradores como também para ver a intervenção em todos os retábulos da nave e da capela-mor, além de forros e pinturas. Segundo o chefe do escritório do Iphan em Ouro Preto, André Macieira, as portas ficarão abertas durante os serviços, pois a matriz oferece completa segurança. O secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, aplaude a iniciativa e adianta que toda a programação da Semana Aleijadinho, em novembro, será alusiva aos 280 anos do patrono das artes no país e natural de Ouro Preto, cidade cujo Centro Histórico é reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Segundo estudos, a história da matriz começa por volta de 1699, quando foi elevada, a mando do bandeirante Antônio Dias, uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Em 1705, instituiu-se a primitiva matriz, sofrendo provavelmente modificações e acréscimos para se adaptar à nova função. O rápido crescimento da população do antigo Arraial de Antônio Dias fez com que os moradores, em 1711, exigissem a construção de um novo templo, o que ocorreu em 1724.

Em 1727, foi iniciada a construção da atual matriz, cujo projeto é atribuído a Manoel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Os trabalhos iniciados antes da Matriz do Pilar seguiram em ritmo mais lento até 1756, quando se inicia a talha da capela-mor e posteriormente as obras de pintura e douramento. Os altares da nave são bem mais antigos, podendo incluir, como no caso da Matriz do Pilar, peças remanescentes da primitiva. A decoração interna da nave é atribuída também ao pai de Aleijadinho. Já a talha da capela-mor, a Jerônimo Félix Teixeira e Felipe Vieira, discípulos de Noronha e Xavier de Brito, daí sua afinidade com a Matriz do Pilar.

Pesquisa. O ano de nascimento de Aleijadinho sempre despertou polêmica, alguns dizendo que foi em 1730 e outros em 1738. De certeza mesmo, só o da morte, 1814, tanto que em 2014 houve muitas homenagens pelo transcurso do bicentenário. Mergulhado em pesquisa no Brasil e Portugal, o promotor de Justiça e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais Marcos Paulo de Souza Miranda jogou luz sobre o assunto no seu livro Aleijadinho revelado – Estudo histórico sobre Antonio Francisco Lisboa, ao descobrir que foi mesmo em 1737.

Cores da fachada chamam a atenção em meio às ladeiras históricas de Ouro Preto. Foto: Marcelo Tholedo/Divulgação

Na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, Marcos Paulo localizou o registro de nascimento de Antonio Francisco Lisboa, filho da negra forra Isabel. Em entrevista ao Estado de Minas, ele explicou que “os estudiosos certamente procuravam o registro apenas pelo nome do pai, o artífice português Manuel Antonio Lisboa. A questão é que, naquela época, pelo direito canônico, era proibido que constassem do registro os nomes dos pais quando o casal não fosse formalmente casado. Daí só haver o nome da mãe no documento. Além disso, o costume era levar a criança à pia batismal logo após o nascimento.” A única data que se conhecia era a da morte, 18 de novembro, conforme consta do atestado de óbito. É curioso notar, no túmulo, que uma placa traz o sinal de interrogação ao lado do ano de 1738, que seria o do nascimento.

O autor do livro lembrou que a primeira biografia foi escrita em 1858, por Rodrigo José Ferreira Bretas, ex-promotor de Justiça de Ouro Preto. “O trabalho foi publicado no jornal Correio de Minas, 44 anos depois da morte de Aleijadinho. Bretas conversou com dona Joana Lopes, parteira, que foi casada com o filho do artista, Manoel Francisco Lisboa, batizado com o mesmo nome do avô.”

O pai de Aleijadinho, Manoel Francisco Lisboa, nasceu em São José de Odivelas, antes pertencente a Lisboa, Portugal, hoje município autônomo, conforme os levantamentos de Souza Miranda: “O nome de família não é propriamente ‘de Lisboa’, apenas indica a procedência. O pioneiro João Francisco e seus três filhos vieram da capital portuguesa atraídos, no auge da mineração do ouro nas Gerais, pela alta efervescência de construção de igrejas. Era uma família de artífices. Os tios de Aleijadinho, Antonio Francisco Pombal e Francisco Antonio Lisboa, foram exímios entalhadores e atuaram, respectivamente, nas matrizes do Pilar e de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias”.

Aleijadinho foi aprendiz, oficial e tornou-se mestre, aprendendo a trabalhar com a própria família, pois todos eram do ramo. Em 1760, aos 23 anos, ele começou com sua oficina, embora não fosse um espaço físico, mas um serviço itinerante. De acordo com Souza Miranda, “ele se deslocava para o lugar onde houvesse serviço, tanto que morou em Rio Espera, na Zona da Mata, e Sabará. A equipe dormia geralmente nas casas paroquiais. Outra atividade importante, a exemplo da desempenhada pelo pai, foi a de perito ou ‘louvado’.

Um dos irmãos de Aleijadinho, o padre Félix, seguiu a mesma trilha e se tornou talentoso escultor de peças sacras”. Autor do prefácio do livro, o secretário de estado de Cultura, Angelo Oswaldo, afirma que 1738 continua o ano dado como aceito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas acredita que pode ser dada a largada para os festejos. “Aleijadinho é para se festejar todo dia”, afirma. O ano de 1738 decorre de uma certidão de óbito datada de 18 de novembro de 1814, na qual há a informação de que o homem sepultado teria 76 anos, portanto, nascido em 1738. “Na época do bicentenário, foi formada uma comissão pelo Iphan para estudar a fundo o legado de Aleijadinho, identificar as obras, tirar as dúvidas, mas acho que não evoluiu”, diz o secretário. Ele lamenta que o Museu Aleijadinho, composto pelo acervo das igrejas de Nossa Senhora da Conceição, São Francisco e Mercês de Baixo, em Ouro Preto, não esteja aberto à visitação.

Reconhecimento. O nome Aleijadinho tem reconhecimento de norte a sul. “Dos artistas brasileiros que atuaram no período colonial, Aleijadinho foi o que mais se destacou, tanto do ponto de vista qualitativo, quanto quantitativo. Ele viveu em Minas e sua trajetória coincide com o período áureo da exploração de metais preciosos, quando a região presenciou um grande momento de vida social urbana”, ressalta o diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, Andrey Rosenthal Schlee. Ele explica que “a riqueza do ouro e dos diamantes, associada à profusão de irmandades religiosas, garantiu trabalho e reconhecimento ao artista, que deixou obras significativas em Ouro Preto, São João del-Rei, Congonhas e Sabará.

Foto: Marcelo Tholedo/Divulgação

“Para demonstrar a importância de Aleijadinho e de sua oficina, basta citar a delicadeza da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto ou a monumentalidade do conjunto arquitetônico dos Passos e Adro dos Profetas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas”, conta Andrey, também professor da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP).

Retrato Oficial

Foto: Cristina Horta/EM

Louvado pelas imagens que brotaram de suas mãos, o gênio do Barroco paradoxalmente tem na própria fisionomia um mistério. Nos séculos 18 e 19, muitos desenhistas e pintores fizeram o “retrato falado” de Aleijadinho, um assunto ainda bastante polêmico. O chamado retrato oficial, que faz parte das homenagens no bicentenário de morte, está exposto no Museu Mineiro, na Avenida João Pinheiro, em Belo Horizonte. Trata-se de óleo sobre pergaminho (foto) feito no século 19, por Euclásio Penna Ventura. O quadro, na verdade um ex-voto, medindo 20cm por 30cm, pertenceu à Casa dos Milagres, de Congonhas, e mostra um homem mulato bem-vestido. Foi vendido em 1916 a um comerciante de Congonhas, identificado como Senhor Baerlein, proprietário da Relojoaria da Bolsa do Rio de Janeiro. A alegação de que se tratava do rosto do mestre do Barroco se baseou na imagem representada ao fundo da pintura, em segundo plano, que parecia idêntica a uma obra de autoria do artista.

Linha do Tempo

» 1720
Chegam a Ouro Preto, vindos de Portugal, João Francisco e três filhos, sendo um deles Manuel Francisco Lisboa.

» 1737
Em 26 de junho, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é batizado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto. Ele é filho de Manuel Francisco Lisboa com a negra forra Isabel. Alguns estudiosos apontam 1730 ou 1738 como o ano do nascimento.

» 1750
O menino Antonio frequenta o internato do Seminário dos Franciscanos Donatos do Hospício da Terra Santa, em Ouro Preto, onde aprende gramática, latim, matemática e religião.

» 1755
Nasce Félix Antonio Lisboa, irmão de Aleijadinho. Foi padre e escultor talentoso.

» 1763
O artista faz sua primeira intervenção com características arquitetônicas: frontispício e torres sineiras da Matriz de São João Batista, em Barão de Cocais, e ainda a imagem São João Batista.

» 1766
Em Ouro Preto, o artista executa o projeto da Igreja de São Francisco de Assis, as imagens do frontispício e a fonte-lavabo da sacristia.

» 1768
Antonio se alista no Regimento da Infantaria dos Homens Pardos de Ouro Preto e, durante três anos, presta o serviço militar, o qual conjuga com uma atividade profissional intensa.

» 1774
Recebe a encomenda do projeto da Igreja de São Francisco de Assis, de São João del- Rei, e executa o projeto da Igreja de São José, de Ouro Preto. Em Sabará, faz trabalhos para a Igreja do Carmo.

» 1777
Nasce o filho de Aleijadinho, que recebe o mesmo nome do avô – Manuel Francisco Lisboa. O menino é batizado em 23 de janeiro na catedral do Rio de Janeiro. É detectada uma grave doença degenerativa, que deforma corpo e membros do artista.

» 1780
Aleijadinho conclui o conjunto de talha, retábulos, púlpitos e coro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Jaguara, encomendada pela Irmandade da Ordem Terceira do Carmo de Sabará.

» De 1784 a 1786
Aleijadinho esculpe o conjunto em madeira da Fazenda da Jaguara, em Matozinhos. No início do século 20, o acervo é transferido para a Matriz do Pilar, em Nova Lima, na Grande BH.

» 1790
Recebe o apelido de Aleijadinho. Tem obra elogiada no levantamento de fatos notáveis, ordenado pela Coroa em 1782 e feito pelo vereador da Câmara de Mariana capitão Joaquim José da Silva.

» 1790-1794
Aleijadinho se ocupa do retábulo do altar-mor da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, com grande equipe de oficiais de talha. Obra é a coroação da atividade de escultor e entalhador.

» De 1796 a 1799
Nas capelas que recriam a via-crúcis, em Congonhas, Aleijadinho esculpe o conjunto de 64 figuras em madeira. Nas paredes, há as pinturas bíblicas de Manuel da Costa Ataíde (1762-1830).

» De 1800 a 1805
No Santuário Basílica do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas, Aleijadinho esculpe os 12 profetas que receberam reconhecimento da Unesco como patrimônio mundial.

» 1812-1813
O estado de saúde de Aleijadinho se agrava. Passa a viver em uma casa perto da Igreja do Carmo, em Ouro Preto, para supervisionar as obras que lá estavam em andamento.

» 1814
Aleijadinho morre em 18 de novembro, segundo certidão de óbito arquivada na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Está sepultado sob o altar de Nossa Senhora da Boa Morte.

» 1858
Publicada a primeira biografia do mestre do barroco, escrita pelo promotor de Justiça Rodrigo José Ferreira Bretas.

» 1930
Feita a primeira exumação dos restos mortais de Aleijadinho, para lembrar o bicentenário do nascimento do artista, que, segundo nova pesquisa, nasceu em 1737 e não em 1730 ou 1738, como se considerava anteriormente.

» 1947
Feita a segunda exumação, de forma clandestina. Pedaços de ossos são levados para exames na Inglaterra. Outras duas ocorreram em 1970 e 2003.

Por Gustavo Werneck

Fonte original da notícia: Estado de Minas




RJ – Projeto apresentado à Unesco prevê que Cais do Valongo seja mais acessível para população

Consolidação das pedras e referência ao mar estão entre os projetos. Um milhão de escravos teriam chegado pelo local.

Área do Cais do Valongo que hoje é ocupado por grama terá água. Foto: Cristina Boeckel/ G1

Após a declaração do Cais do Valongo como patrimônio da humanidade pela Unesco, no último domingo (9), o local deve receber melhorias que tornem o sítio arqueológico mais explicativo para os visitantes. Entre os projetos está uma ligação que faça alusão ao mar, para que os frequentadores tenham a noção do local exato de que maneira os escravos vindos da África desembarcavam no Rio de Janeiro. Desde a construção do cais, em 1811, o mar foi aterrado em 344 metros. Além disso, as pedras do local serão consolidadas.

“A ideia é fazer a conexão com o mar, de ter uma água ali. Não sabemos bem como será isso”, destacou Mônica da Costa, superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro.

Para a arqueóloga Rosana Najjar, também do Iphan, que participou da produção do dossiê apresentado à Unesco, fazer com que o local seja mais acessível é importante para a construção da memória.

“É o testemunho material de um evento histórico extremamente triste, sofrido e que não pode ser esquecido. A partir do momento que a pesquisa arqueológica resgata isso é importante não apenas para a arqueologia brasileira e mundial mas também para a questão da população africana escravizada que veio para o Brasil.

Melhorias previstas no dossiê

Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio. Foto: Cristina Boeckel/ G1

O dossiê da candidatura a patrimônio da humanidade já prevê melhorias para a estrutura do local se torne de leitura mais fácil para os visitantes.

“O dossiê, na verdade, além de justificar o valor universal e excepcional do bem, também vai ter que mostrar que o Brasil vai ter competência para manter esse bem íntegro e legível para a população. Porque o sítio arqueológico não fala por si só, você tem que ter um processo de ‘tradução’. Então os passos agora serão de efetivamente fazer projetos para que isso seja melhor exposto, melhor contextualizado”, destacou Najjar.

Parte do Cais do Valongo ainda está soterrada. Uma ampliação da área do monumento, de grande movimento no Rio, não está descartada.

“As próximas etapas do dossiê que foi apresentado para a Unesco são várias etapas de trabalho até 2019. Temos um cronograma junto com a prefeitura e de a gente ter um projeto de consolidação das pedras e, nesse projeto, a gente vai fazer uma revisão de ampliar essa mostra do sítio”, explicou a superintendente do Iphan.

O local é considerado único em todo o continente, pois é considerado o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece na América. O Brasil foi destino de pelo menos 40% de todos os africanos que chegaram como cativos ao continente americano entre os séculos XVI e XIX. Destes, 60% entraram pelo Rio de Janeiro, ou seja, quase um quarto de todos os escravizados. Estima-se em um milhão o número de negros que desembarcaram na cidade para trabalhar de maneira forçada, segundo números apresentados pelo documento apresentado à Unesco.

O local é um antigo cais localizado entre as ruas Coelho e Castro e Sacadura Cabral. Construído em 1811, era parte de um enorme mercado de comercialização de seres humanos que se estendia por toda a praia. Em 1843, o Valongo foi aterrado e se tornou o Cais da Imperatriz, para o desembarque da então princesa Teresa Cristina, que veio ao país se casar com o imperador D. Pedro II.

O dossiê que embasou a candidatura, com 443 páginas e disponível na internet no site do Iphan, explica detalhes sobre o projeto de conservação e como o local pode ser comparado a portos correspondentes no outro extremo da jornada dos escravos, na África.

“Era a partir do desembarque que começava para os africanos a vida como escravizados nas Américas, vida essa que tomava a forma de uma dolorosa experiência no entorno do Cais do Valongo, onde se localizavam as casas de comércio da mercadoria humana trazida da África, naquela que era a mais afro-atlântica das cidades das Américas no século XIX: o Rio de Janeiro”, detalha o documento.

A reivindicação do reconhecimento do Cais do Valongo como local de importância histórica para a humanidade como local de memória e sofrimento, como o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, a cidade de Hiroshima, no Japão; e Robben Island, na África do Sul, que recebeu presos políticos da luta contra o apartheid, como Nelson Mandela.

O documento destaca ainda que o cais do Valongo servia como conexão para o transporte de escravos para dentro do continente e para outros portos, como Montevidéu e Buenos Aires.

De acordo com o dossiê, declarar o Cais do Valongo como patrimônio da humanidade também é uma forma de preservar o local da expansão imobiliária.

“O Sítio Arqueológico Cais do Valongo encontra-se na zona de ocupação tradicional, porém ele está junto ao limite da zona de expansão imobiliária. A nova ocupação irá gerar impacto seja do ponto de vista da ambiência paisagística do Sitio Arqueológico, seja do ponto de vista das mudanças sociais e funcionais por que pode passar a região onde o sítio está inserido”, destaca o dossiê.

Por Cristina Boeckel

Fonte original da notícia: G1 Rio




Instituto Rio Patrimônio da Humanidade é deixado à míngua

Criado em 2012, órgão municipal só gastou R$ 38,9 mil este ano.

Degradado. Lago do Museu de Arte Moderna está abandonado, com pouca água e acumula lixo – Fernando Lemos / Agência O Globo

Se nas áreas do Rio declaradas Patrimônio Mundial da Humanidade persistem ou se agravam antigos dilemas cariocas, o órgão da prefeitura incumbido de gerir o sítio reconhecido pela Unesco em 2012 enfrenta um esvaziamento de seu orçamento. Criado dias depois de o título ter sido chancelado, o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) chegou a 2017 com uma dotação inicial de R$ 1,947 milhões. Mas, segundo dados do Portal Rio Transparente, a entidade teve seu orçamento atualizado e ficará sem um único centavo este ano. Até agora, de acordo com informações do site oficial da prefeitura, o instituto só pagou R$ 38.997,05 referentes a restos a pagar de exercícios anteriores. A autarquia já teve bem mais prestígio: em seu primeiro orçamento, em 2013, contava com R$ 7,504 milhões e, em 2014, pôde arcar com despesas de R$ 4,693 milhões (entre pagamentos daquele ano e restos a pagar).

Atual presidente do IRPH, Augusto Ivan não contradiz os números do portal do município. Ele afirma que, na atual administração de Marcelo Crivella, o instituto saiu do “guarda-chuva” do gabinete do prefeito e passou a ser subordinado à Secretaria municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação. Augusto Ivan diz que o pagamento de seus 60 funcionários, como historiadores e um arqueólogo, tem sido feito diretamente pela secretaria. Com recursos contingenciados, ele afirma que a prioridade agora é levar adiante a proteção do acervo arqueológico do Cais do Valongo, que se candidatou a Patrimônio Mundial pela Unesco.

— Este primeiro momento, de mudança de gestão, é de ajustes no município. Mas o orçamento (do instituto) tem que sair do zero. Até porque, no caso do Valongo, existe um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo prefeito, pelo Ministério Público Federal e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Nosso esforço tem sido para liberar recursos para o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (Laau) para, além da preservação do material do Valongo, podermos ter um espaço para mostrá-lo — afirma Augusto Ivan.

Obra de Burle Marx se deteriora

Sobre a situação do sítio já reconhecido pela Unesco há cinco anos, o presidente do instituto lembra que alguns dos principais desafios da área extrapolam as competências do município, como a despoluição da Baía de Guanabara, que ele considera o grande desafio do Rio no século XXI. Entre as áreas incluídas no perímetro preservado, ele menciona a orla de Copacabana e o Aterro do Flamengo como as que têm uso mais intensivo pela população e que precisam de mais atenção. Em Copacabana, ele cita como pontos a equacionar o excesso de propaganda e o lixo deixado pelos frequentadores na areia.

Já no Aterro, ele reconhece que é preciso melhorar a segurança e a limpeza. Além disso, defende que o projeto paisagístico de Roberto Burle Marx passe por uma grande obra de restauração. Percorrendo das imediações do Morro da Viúva até as proximidades do Aeroporto Santos Dumont, o visitante mais atento percebe que, em muitos trechos, a obra do paisagista agoniza.

No entorno do Museu de Arte Moderna (MAM), os 4.600 metros quadrados do Jardim das Ondas, que deveria reproduzir com gramas escura e clara o desenho do calçadão de Copacabana, perdeu completamente a forma. Em volta dele, um buraco no calçamento que derrubou muito folião no último carnaval continua lá, intacto. O lago na lateral do museu está vazio, acumulando lixo. Enquanto que, em frente à construção, o chafariz está seco há anos.

Na outra ponta do parque, desde o fechamento de uma churrascaria que funcionava perto da foz do Rio Carioca, o entorno também perdeu muito de seu brilho. E, em todo o parque, o descuido com o paisagismo, tombado pelo Iphan, ainda convive com problemas como áreas transformadas em estacionamento de motoristas de Uber e táxi, perto do Santos Dumont.

— Não canso de admirar a beleza do Aterro. Quando estou estressado, olho esta paisagem, com o Pão de Açúcar ao fundo, e parece que tudo se resolve. Mas não dá para caminhar aqui alheio aos problemas. A violência até diminuiu com o Aterro Presente. Mas, lado a lado com a beleza, fica visível um certo desleixo — reclama a estudante Isabel Ferraz.

Ex-presidente do IRPH, o arquiteto e urbanista Washington Fajardo concorda que o Aterro e a orla de Copacabana são as áreas do sítio considerado Patrimônio Mundial da Humanidade mais críticas. Ele ressalta, por exemplo, que, enquanto grande parte da Floresta da Tijuca é gerida pelo Parque Nacional da Tijuca, esses dois pontos mais nevrálgicos têm governanças difusas. No caso do Parque do Flamengo, diz ele, são 18 órgãos diferentes para tomar conta do espaço. Em vez de ajudar, afirma Fajardo, isso atrapalha.

— Essas duas áreas deveriam ter uma governança dedicada, seja do governo ou da própria sociedade civil. No Aterro, existe o Instituto Parque do Flamengo. Em Copacabana, os próprios hotéis poderiam se organizar e cuidar da orla — diz ele.

Apesar de todos os problemas, no entanto, tanto Fajardo quanto Augusto Ivan ressaltam que o Rio, muito tempo antes de ganhar o título internacional da Unesco, já tinha uma preocupação com sua paisagem. Eles observam os tombamentos do Corcovado e do Pão de Açúcar, ou o reflorestamento da Floresta da Tijuca, no século XIX, antes devastada por fazendas de café.

— Essa paisagem só sobreviveu a custas de grandes esforços. E, se hoje a cidade é bastante protegida, é porque a população se importa com essa paisagem, apropriou-se dela como sua, na vida ao ar livre, no hábito de ir à praia… Sob esse ponto de vista, pode-se dizer que a cidade é privilegiada — afirma Augusto Ivan.

Por Rafael Galdo

Fonte original da notícia: O Globo




Parque nacional na Patagônia argentina é novo Patrimônio Mundial

Situado ao norte da Patagônia, o Parque Nacional Los Alerces se destaca pelas paisagens resultantes de sucessivas glaciações.

Patrimônio: Parque Nacional Los Alerces. Prensa Parques Nacionales/Divulgação

O Parque Nacional Los Alerces, situado na província de Chubut, na Patagônia argentina, foi declarado nesta sexta-feira Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), informaram fontes oficiais.

Segundo um comunicado divulgado pelo ministério de Relações Exteriores argentinos, o parque natural entrou na Lista do Patrimônio Mundial após a decisão tomada pelo Comitê de Patrimônio Mundial reunido em Cracóvia, na Polônia.

“A Chancelaria comemora e destaca que foi o resultado de trabalho associado de diversas áreas do Governo nacional e provincial”, diz o texto transmitido pela pasta.

Situado ao norte da Patagônia, e fazendo limite com a cordilheira andina, o Parque Nacional Los Alerces se destaca pelas paisagens resultantes de sucessivas glaciações.

Florestas, montes glaciais e lagos transparentes são parte da paisagem do local que agora fazem parte da Lista de Patrimônios Mundiais.

Além disso, entre sua extensa vegetação habitam numerosas espécies de flora e fauna, endêmicas ou em perigo de extinção. EFE

Fonte original da notícia: Exame.com




Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, é declarado Patrimônio Mundial da Humanidade

O Cais do Valongo, declarado neste domingo Patrimônio Mundial da Humanidade, é símbolo da dor de milhares de negros escravizados trazidos para o Brasil por mais de 300 anos. Foto: Oscar Liberal/Iphan

O Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aprovou, no início da tarde deste domingo (9/7), a candidatura do Sítio Arqueológico do Valongo como Patrimônio Mundial da Humanidade. A votação, ocorrida durante a reunião do Comitê realizada na cidade de Cracóvia, na Polônia, marca o fim de um relevante processo de reconhecimento do bem, iniciado em 2015 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), entidade vinculada ao Ministério da Cultura (MinC). Valongo é símbolo da dor de milhares de negros escravizados trazidos para o Brasil por mais de 300 anos.

Presente à reunião de Comitê do Patrimônio Mundial, o diretor do Departamento de Promoção Internacional (Deint) do Ministério da Cultura, Adam Muniz, afirmou que tanto o MinC quanto o Iphan acreditavam na aprovação da candidatura. “Desde o primeiro momento, estávamos muito confiantes, uma vez que o parecer técnico do Conselho Internacional sobre Monumentos e Sítios (Icomos), que assessora a Unesco em bens culturais, foi positivo com recomendação de inscrição do Cais do Valongo na Lista do Patrimônio Mundial”, disse.

De acordo com Adam, a aprovação por parte do Comitê ocorreu sem ressalvas, com base exclusivamente no critério que diz respeito à relação do bem com eventos de notável significado universal, neste caso o tráfico negreiro e a escravidão. “O Sítio Arqueológico do Valongo integra agora um singular conjunto de bens tombados exclusivamente nesse preceito, entre os quais está Auschwitz, uma rede de campos de concentração no sul da Polônia, e Hiroshima, cidade japonesa vítima de bombardeio atômico na Segunda Guerra Mundial”, explicou.

O ministro interino da Cultura, João Batista de Andrade, comemorou a vitória da candidatura e assegurou que o MinC está empenhado em garantir que a memória do Cais do Valongo seja preservada. “Estamos trabalhando, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, para que seja criado o Museu da Escravidão e da Liberdade, que vai receber as mais de 500 mil peças encontradas no Sítio Arqueológico Cais do Valongo. O reconhecimento é importante não apenas para a cidade do Rio de Janeiro, mas para o Brasil e, sobretudo, para a nossa história”, declarou. O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na Praça Jornal do Comércio, é gerido pela Prefeitura Municipal da cidade do Rio de Janeiro e conta com a fiscalização do Iphan.

Em seu discurso de agradecimento, a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, ressaltou que, em momentos de elevada intolerância, o reconhecimento de sítios sensíveis coloca em evidência a necessidade de compartilhar a experiência brasileira em prol de uma visão mais humanista da sociedade global. “É fundamental observarmos o que o Cais do Valongo significou, bem como sua reapropriação social nos dias atuais, em especial pelos descendentes afro-brasileiros, que em uma atitude de superação reafirmam sua negritude e sua história para o Brasil, as Américas e todo o Mundo”, afirmou.

Kátia Bogéa lembrou ainda a importância da decisão do Comitê do Patrimônio Mundial para a cidade do Rio de Janeiro, a primeira do mundo a receber o título de Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural Urbana e que, agora, passa a figurar, também, pela sua história. “No contexto da escravidão, o Rio traz consigo o triste título de maior porto escravagista da história. No entanto, apesar disso, apresenta-se igualmente como local onde a contribuição trazida pelos africanos encontra uma das maiores expressões, matizadas pela mestiçagem inerente ao ser brasileiro, significando, portanto, um fundamental avanço no sentido da valorização da matriz africana na cidade, no país e na região”, enfatizou.

De acordo com a presidente do Iphan, o Cais do Valongo é considerado o mais contundente lugar de memória da chamada Diáspora Africana fora do seu continente de origem, “testemunho material irrefutável do tráfico atlântico de africanos escravizados, hoje justamente considerado crime contra a Humanidade”.

Memória sensível

Em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, no período que antecedeu os Jogos Olímpicos de 2016, foram descobertos dois ancoradouros, Valongo e Imperatriz, contendo uma quantidade enorme de amuletos, anéis, pulseiras, jogo de búzios e objetos de culto provenientes do Congo, de Angola e de Moçambique. Até mesmo calçados, botões feitos com ossos e outros achados raros foram encontrados na ocasião.

O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que destaca símbolos da cultura afro-brasileira da região portuária do Rio de Janeiro. Ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos, o Sítio Arqueológico Cais do Valongo tem dimensão material e imaterial. A tragédia do tráfico de africanos, fortemente representada pelo Cais do Valongo, guarda a chamada “memória sensível”, que é a materialidade da dor e do medo vivido pelos seres humanos, assim como sua capacidade de sobrevivência. A memória sensível é uma lembrança vívida das consequências da negação da dignidade humana implícita no processo de escravização.

Por todo seu contexto, em 20 de novembro de 2013, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra, o Cais do Valongo foi declarado Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro, por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). No mesmo período, representantes da Unesco passaram a considerar o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos, sendo o primeiro lugar no mundo a receber esse tipo de reconhecimento. Ambos eventos reforçaram a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade.

Povos escravizados

O tráfico de escravos vindos do continente africano foi responsável por um dos maiores deslocamentos populacionais da humanidade, sendo que o Brasil foi o destino de pelo menos 40% dos negros trazidos para as Américas. Entre os séculos 16 e 19, mais de 12,5 milhões de africanos foram levados para as Américas e para a Europa – período que registrou a morte de mais de 1,8 milhão de escravos somente na travessia entre oceanos. Pela cidade do Rio de Janeiro passaram 60% dos negros escravizados nas Américas, sendo o porto que recebia a maior quantidade de cativos, das mais variadas etnias.

Em meados do século 19, a escravatura intensificou, no Brasil, o tráfico de crianças, consideradas à época mais maleáveis e resistentes às travessias em navios negreiros. Com a ideia de que jovens teriam mais tempo de vida útil para o trabalho, o mercado do tráfico foi responsável pela vinda de 780 mil crianças. No Rio de Janeiro, um em cada três escravos era criança.

Fonte original da notícia: Ministério da Cultura




Fortaleza de São José, no AP, recebe reforma e restauração com custo de R$ 3 milhões

Revitalização não afetará visitas ao museu, segundo a gerência. Previsão é que obra seja finalizada até dezembro.

Museu Fortaleza São José de Macapá recebe reforma e restauração; previsão é que obra seja finalizada em dezembro. Foto: Fabiana Figueiredo/G1

O Museu Fortaleza São José de Macapá está passando por uma reforma e restauração com custo orçado em R$ 3 milhões. A revitalização, que deve ser finalizada até dezembro, acontece nos espaços externos e internos do monumento que é símbolo turístico do Amapá. Segundo a gerência do museu, a obra não interditará totalmente o prédio para visitas.

“As visitas internas vão continuar normalmente. A obra começou na área externa. Os espaços que passarão por reforma dentro da fortaleza ficarão interditados, mas não vai fechar para visitação”, informou o gerente da Fortaleza, Valdeci Bonfim.

Julho é o mês que o museu recebe mais visitantes durante o ano, de acordo com o gerente. A expectativa é que, mesmo com a obra, em torno de 12 mil pessoas entrem e conheçam os espaços da Fortaleza durante as férias.

Fortaleza de São José de Macapá tem 30 mil metros quadrados. Foto: Abinoan Santiago/Arquivo G1

Toda a intervenção não vai alterar a estrutura do patrimônio, informou a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinf). A obra iniciou pela rede elétrica do entorno da edificação, com manutenção da fiação e troca de transformadores. Os trabalhos externos também contarão com reforma do parque, revitalização dos banheiros e recuperação dos espelhos d’água.

Na área interna, as casamatas, que sofrem com infiltrações, serão restauradas, sob responsabilidade de um engenheiro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). As estruturas de madeira deterioradas serão trocadas.

De acordo com a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), a obra é uma forma de cuidar do forte que é importante ponto turístico do estado, assim como é uma das estratégias para que o Museu Fortaleza seja reconhecido como patrimônio mundial em um concurso da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

“Além do resgate da historicidade do Estado, a obra da Fortaleza São José dará a visibilidade necessária para que o monumento seja reconhecido mundialmente”, comentou o secretário de Cultura, Dilson Borges.

Por Fabiana Figueiredo

Fonte original da notícia: G1 AP